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Ao preparar-se para deixar o assento de presidente do Itaú Unibanco, Roberto Setubal cria um comitê executivo com três diretores gerais, e é provável que um deles assuma a liderança do maior banco comercial do País. Saiba como os analistas reagiram às mudanças

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Em 59 a.C., um cônsul famoso, um general aclamado por suas conquistas e o homem mais rico de Roma formaram uma aliança política para governar o que viria a ser o maior império do planeta. Cada um tinha um intuito. Julio César, o cônsul, precisava de apoio para combater os gauleses; Pompeu, o general, queria arrecadar terras para as legiões veteranas; e Crasso, o abonado, pretendia declarar guerra contra os persas. Juntos, os três conquistaram os seus objetivos e estabeleceram o primeiro triunvirato da história.

Passados mais de dois mil anos, o maior banco privado do Brasil recorre ao mesmo desenho estratégico para continuar como líder de mercado, apesar do afastamento gradual de seu presidente, Roberto Setubal, do dia a dia dos negócios. O triunvirato do Itaú Unibanco, dono de R$ 1,2 trilhão em ativos totais, é composto por Marco Bonomi, que assume a diretoria de varejo, Candido Bracher, responsável pelos negócios de atacado, e Marcio Schettini, que está à frente da área de tecnologia. Mas, diferentemente dos romanos, o objetivo do comitê executivo, pelo menos nas declarações oficiais, é um só: tornar a sucessão de Setubal mais suave possível.

“As prioridades continuam sendo eficiência e simplificação”, afirma Setubal, em comunicado divulgado ao mercado na segunda-feira 23. Com perfis extremamente técnicos, Bonomi, Bracher e Schettini são fortes candidatos a assumir a cadeira de Setubal, em 2017, quando o executivo terá de deixar a presidência, em obediência ao regulamento interno que determina a aposentadoria compulsória aos 62 anos. “Os escolhidos são peças muito importantes para o Itaú e isso é um bom sinal”, afirma Tito Labarta, diretor da equipe de pesquisa do Deutsche Bank.

“Como tem sido um processo transparente e sem sustos, não vejo impactos negativos para as ações.” De fato, na semana até a quinta-feira 26, as ações ordinárias subiram 2,2%, enquanto as preferenciais avançaram 3,3% – mesmo com toda a turbulência causada pelo rebaixamento da nota de crédito da Petrobras. O Ibovespa, por sua vez, teve alta de apenas 0,9%. A recomendação do Deutsche Bank para os papéis do Itaú é de compra e o preço-alvo para os recibos de ações, chamados de American Depositary Receipts (ADR), é de US$ 15. Na segunda-feira 23, eles fecharam o pregão a US$ 12,54.

O Itaú também está bem cotado no JP Morgan, que considera suas ações acima da média de mercado (ou overweight, no termo em inglês). “Elas permanecem como nossas favoritas”, escreve o analista Saul Martinez, em relatório a clientes do início de fevereiro. Já a Guide Investimentos escolheu a holding controladora Itaúsa como a queridinha do pregão. “A instituição preza pela rentabilidade”, diz o estrategista Luis Gustavo Pereira. Não é à toa que Marcelo Telles, do Credit Suisse, destaca, em relatório, a confiança do banco em atravessar o ano de 2015, mesmo com tantos desafios pela frente.

Talvez a explicação para esse otimismo não esteja relacionada apenas ao triunvirato anunciado e aos números apresentados em 2014. O motivo pode estar em uma transição cautelosa. Afinal, Setubal se afastará do dia a dia, mas, no limite, continuará dando a palavra final sobre as novas diretrizes, de acordo com João Augusto Salles, analista da consultoria Lopes Filho Associados. “Poderão ocorrer mudanças na forma de gerir essas áreas, mas o foco na eficiência continuará”, afirma Salles. Mas quais devem ser os próximos passos do Itaú? Labarta acredita que a estratégia do banco será a expansão pela América Latina, com destaque para México, Chile e Colômbia.

Já Salles espera que o Itaú reforce linhas cruciais, como o varejo e as áreas cobertas pelo Itaú BBA. “Ao longo dos últimos anos, foi realizada uma reestruturação silenciosa: o segmento de middle market passou a ficar sob o guarda-chuva do banco de investimentos, a fim de ganhar sinergia com as grandes companhias, em termos de fusões, aquisições e até abertura de capital”, afirma o especialista da Lopes Filho Associados. “É uma área de grande importância.” Embora a estratégia para os próximos anos não seja tão clara, os desafios que o triunvirato encontrará estão todos, sem exceção, relacionados à queda da atividade econômica.

O aumento da inflação pode resultar em maior inadimplência e o desaquecimento do mercado de trabalho tende a se traduzir em menor demanda por crédito de boa qualidade. “O comitê entra em um momento em que o banco está extremamente saneado”, diz Salles. “Manter esse quadro no atual cenário macroeconômico será um desafio e tanto.” Até porque, como lembra Labarta, do Deutsche Bank, existe a possibilidade, ainda que remota, de que o Brasil perca o grau de investimento, em decorrência do escândalo que abala a Petrobras. Portanto, o que resultará do triunvirato de Bonomi, Bracher e Schettini só o tempo poderá dizer.