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Como escapar do abismo

Conheça os gestores de fundos multimercados que superaram o momento turbulento das finanças e encheram de alegria seus cotistas

Como escapar do abismo

Depois da euforia, o marasmo. Assim pode ser definida a oscilação de humor dos investidores com relação aos fundos multimercados. Essas carteiras tiveram um bom desempenho em 2013, mas agora enfrentam dificuldades até mesmo para atrair novos cotistas. Tanto é que, entre os subgrupos que compõem essa categoria de fundos, apenas os multimercados cambiais, destinados aos investidores que querem proteção contra os solavancos do câmbio, registram saldo positivo de captações no primeiro semestre.

Nos outros cinco subgrupos – juros e moedas, macro, trading, multiestratégia e estratégia específica –, as saídas superam as entradas, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima). Apesar de os multimercados não estarem em seu melhor momento, há um grupo de honrosas exceções que não apenas superou a média da categoria, mas que proporcionou bons ganhos aos investidores.

Com dados da Economática, a DINHEIRO fez uma pesquisa analisando o desempenho de 234 fundos abertos que têm mais de R$ 50 milhões em patrimônio líquido e pelo menos 50 cotistas, revelando boas opções para o investidor. É o caso do Polo Norte I FIC Mult que está aberto para captação até 31 de julho e cujo investimento inicial é de R$ 200 mil. Nos últimos dois anos, esse fundo da gestora carioca Polo Capital rendeu 42,44% e o patrimônio líquido alcançou R$ 309 milhões. A Polo Capital foi eleita a melhor gestora no período analisado por ter entregue aos seus cotistas uma rentabilidade de 36,31%.

Outro fundo que chama atenção é o BTG Pactual Global FIC Mult Crédito Privado, que rendeu 41,81%, e é voltado para investidores superqualificados, com pelo menos R$ 1 milhão para investir. O fundo compra cotas do BTG Pactual Global Emerging Markets and Macro Fund (GEMM). Esse produto é tão importante para o BTG que 115 pessoas no Brasil, nos Estados Unidos, na Inglaterra e em Hong Kong são responsáveis por definir os ativos da carteira. Até os sócios do banco investem seu próprio dinheiro no fundo. “A graça é ter estratégias muito diferentes ao mesmo tempo.

Assim, não precisamos ter um resultado de 0 ou 1, tudo conta”, afirma João Scandiuzzi, estrategista-chefe da área de asset management do banco. “Temos incentivos a ter mais exposição a risco naqueles ativos com maior potencial de retorno. Se a equipe percebe que não é o caso de algum componente é feita uma adequação.” Como há muitas pessoas envolvidas no dia a dia do fundo, a equipe brasileira analisa principalmente o comportamento dos juros no País, no México e na Colômbia, além de acompanhar o câmbio e as ações da América Latina.

Já em Nova York, há um mix de risco de crédito e juros, enquanto em Londres os olhares estão voltados para crédito corporativo e soberano, operações especiais e fusões e aquisições. O Global está fechado para captações. No entanto, a forte demanda fez o banco lançar o BTG Top Strategies, também voltado para investidores superqualificados, e que investe 40% da sua carteira no Global. Outra casa bem posicionada no ranking foi a gestora paulista Kapitalo. Fundada por sócios egressos do Banco BBM, a empresa independente tem hoje R$ 580 milhões sob gestão.

Sua receita de sucesso é a capacidade de dedicar cinco equipes distintas para analisar oportunidades em dez países. O fundo Kapitalo Kappa Fin FIC Mult está fechado para o investidor. No entanto, o Zeta – que tem as mesmas características, mas é mais alavancado – deve ficar aberto mais dois ou três meses, segundo Carlos Woelz, sócio da Kapitalo. Hoje, ele tem R$ 270 milhões e rentabilidade de 51% nos últimos dois anos. Entre os subgrupos, os melhores resultados dos últimos dois anos vieram dos multimercados do tipo estratégia específica, que renderam, em média, 22,78% nesse período.

Um fundo dessa categoria que tem tido um bom rendimento e está aberto para captações é o Capitania Multi Credito Privado FIC FIM, da gestora paulista do mesmo nome, que investe em títulos de crédito estruturado e em índices de inflação. Segundo o sócio Arturo Profili, o retorno tem sido de 4,5% mais CDI ao ano para o investidor superqualificado. A desvantagem é que, além de rico, o investidor tem de ser paciente. “O fundo é pouco líquido. O resgate só acontece 180 dias depois do pedido”, explica Profili.

Dos grandes bancos, apenas a gestora do Itaú Unibanco aparece nos rankings da DINHEIRO, com o Vertice Ihp Mult FICFI e o Itaú Private Hedge Plus Mult FICFI. Os dois investem em renda fixa, ações e moedas com foco no Brasil e, em menor escala, na América Latina. “A categoria desses fundos é macro trading, o que significa dizer que não estamos preocupados apenas com o longo prazo, mas também com retorno em curto e médio prazos”, afirma Marcelo Fatio, diretor internacional da gestora do Itaú Unibanco. Foi o que aconteceu no caso do câmbio.

Apesar de o cenário macroeconômico mostrar que o dólar deve subir em relação ao real, eles não se posicionaram como comprados (que lucram na alta). “Olhamos também para a formação de preço, ou seja, como o Banco Central deve atuar”, explica. O resultado é que ficaram vendidos (que lucram na queda), o que se mostrou um bom investimento. Como deve ficar o cenário para os multimercados nos próximos seis meses? Os analistas advertem que o investidor deve continuar seletivo.

“A indústria de fundos não teve um primeiro semestre bom. No entanto, o momento é adequado para os investidores assumirem mais riscos”, afirma Guilherme Abbud, chefe de investimentos do HSBC Global Asset Management. Ele ressalta que os juros estão altos e que a bolsa está barata, mas adverte que, no caso da renda variável, o fator de incerteza tem sido as eleições. Até outubro, será uma longa e difícil travessia – cenário ideal para quem gosta de lucrar em mercados de alto risco.