Investidores

EUA: Bernanke deixa a entender que o Fed deve agir ante a desaceleração

O presidente do Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, Ben Bernanke, afirmou nesta sexta-feira que a retomada econômica no país prossegue, mas deixou a entender que a instituição precisa tomar novas medidas de apoio para conter a desaceleração.

Bernanke falou sobre o assunto após uma revisão em forte baixa do crescimento americano no segundo trimestre, a 1,6% em ritmo anual, cifra esta, segundo ele, inferior ao potencial dos Estados Unidos.

A economia americana reduziu mais do que o previsto e seu reerguimento está “longe de ter terminado”. A retomada prossegue “a um ritmo relativamente lento”, mas deverá se acelerar um pouco em 2011, declarou Bernanke num discurso muito esperado.

Num dos exercícios de malabarismo costumeiros, o chefe do Federal Reserve tentou tranquilizar sobre o estado e as perspectivas da economia americana, sem se calar, totalmente, sobre os riscos pelos quais passa o país.

O Fed está “prestes” a tomar medidas suplementares, mas só o fará no caso de serem realmente necessárias, “em particular se as perspectivas da economia se deteriorarem fortemente”, disse Bernanke, que falou no exclusivo balneário de Jackson Hole, nas Rochosas, oeste dos Estados Unidos.

Mas uma outra frase, colocada como uma advertência no seu discurso, deixa a entender que esta deterioração lhe parece mais indiscutível que hipotética: “a lista dos motivos de preocupação para a economia indica claramente que a volta a um crescimento econômico robusto e estável exigirá respostas eficazes da parte de um amplo leque de dirigentes da política econômica”.

Para Zach Pandi, analista da corretora japonesa Nomura Securities, esta frase é um “apelo a uma ação sem equívocos dirigida a outros” dirigentes do Federal Reserve.

Da mesma forma, o modo com o qual Bernanke insistiu no final do discurso sobre a determinação do Fed em impedir uma deflação (uma baixa durável e generalizada dos preços e da atividade, extremamente difícil de vencer) deixa também pensar que o risco de que se produza um tal cenário não é, talvez, assim tão “fraco” como declarou alguns minutos antes.

Peter Newland, economista do Barclays Capital, viu nos propósitos de Bernanke o anúncio de medidas suplementares futuras por parte do Fed no caso de se produzirem em conjunto “um crescimento inferior ao potencial do país” (o que já é o caso), “uma redução do emprego no setor privado” (o que não é o caso) e “uma baixa mais acentuada das expectativas de inflação” (possível prelúdio a uma aceleração da deflação em curso).

Embora revisto em baixa de 0,8 ponto, a cifra do aumento do PIB americano no segundo trimestre foi melhor que o previsto pelos analistas, que trabalhavam com um crescimento mais fraco, de 1,4%.

A desaceleração do crescimento é, no entanto, muito forte em relação ao primeiro trimestre, quando o PIB cresceu 3,7%. No clima de incerteza atual, alguns economistas consideram possível pensar que a desaceleração prossegue.

Daí a insistência de Bernanke em dizer que o Fed não está sem munição. Faz lembrar que, no período de dúvida, os bancos centrais estão lá, também, para tranquilizar.

mj/hh/sd