Investidores

Um minoritário da pesada

A pacata cidade de Omaha, nos Estados Unidos, virou uma espécie de meca do capitalismo, destino obrigatório na vida dos seguidores de Warren Buffett. O homem mais rico do mundo – às vezes o segundo, atrás do amigo Bill Gates – atraiu mais de 35 mil investidores no início de maio para a lendária reunião anual da Berkshire Hathaway. Um dos pontinhos na multidão era o brasileiro Guilherme Affonso Ferreira, 58 anos. Atento a cada palavra de Buffett durante a sabatina de quase sete horas num ginásio de esportes, ele voltou impressionado de sua primeira peregrinação a Omaha. “Os melhores negócios são os mais simples, que saltam aos olhos e não precisam da ajuda de um computador para serem compreendidos”, diz, repetindo as palavras do ídolo. Em tempos de derivativos complexos e tóxicos, as lições de simplicidade e transparência do americano não poderiam ser mais oportunas para o brasileiro. Com seu jeito simples e franco, Ferreira é um dos maiores investidores do País e está virando referência no capitalismo nacional do século XXI.

As tacadas do investidor

Algumas das empresas escolhidas por Guilherme Affonso Ferreira, que administra mais de R$ 1,2 bilhão em recursos próprios e de terceiros

Quem o vê em suas corridas diárias em São Paulo não imagina que acaba de passar por alguém que investe mais de R$ 1,2 bilhão no mercado acionário. Com os cabelos compridos, sorriso no rosto e a gravata esquecida no fundo da gaveta, Ferreira destoa do típico megainvestidor financeiro. Dirige um carro compacto e gosta de pedalar nas férias em lugares improváveis, como o Vietnã e o deserto do Saara, no Marrocos. Mas não se engane: ele é um acionista minoritário da pesada. Como se diz atualmente, é um ativista da governança corporativa. Presidente da Bahema Participações, empresa familiar de capital aberto e listada na BM&FBovespa, está presente na vida de grandes companhias como Itaú Unibanco, Pão de Açúcar, Eternit, SulAmérica e outras (veja tabela na pág. 83). Apesar disso, é pouco conhecido da massa que invadiu a bolsa nos últimos anos. Por enquanto.

À la Buffett, o brasileiro aplica o dinheiro próprio, da sua família e de terceiros na compra de fatias relevantes de empresas. No seu caso, busca sempre ter pelo menos 5% do capital, o que lhe garante status suficiente para ser ouvido pelos controladores e gestores e influenciar os destinos do negócio, geralmente com um assento no conselho de administração. E por que 5%? “É um número cabalístico. Para mim, 5% é a medida exata do norte de relevância que um acionista minoritário deve ter”, afirmou à DINHEIRO na tarde da quarta-feira, 27. O Ibovespa vencia a barreira dos 53.000 pontos e ele acompanhava atentamente as cotações e as notícias econômicas em tempo real. A crise, talvez, não seja tão grave assim. “A linha otimista está vencendo”, constata.

Sua percepção de mercado é importante para definir os próximos passos, geralmente surpreendentes. Otimista convicto, atua sempre com um horizonte de longo prazo e prefere ir na contramão do mercado. Compra ações de empresas boas que tenham algum grande desafio a superar e estejam desvalorizadas na bolsa. “Gostamos da visão contrária e de ser parte da solução dos problemas das companhias”, resume. Ao investir, faz uma lista das mudanças necessárias para beneficiar a empresa, aumentar os pagamentos de dividendos e permitir sua saída no futuro, com uma bela valorização. Atualmente, no Conselho do Pão de Açúcar, que passa por uma profunda reestruturação, Ferreira defende a segregação da atividade imobiliária da comercial e a criação de uma política de dividendos compatível com o grau de maturidade da indústria. Na SulAmérica, advoga uma mudança na base acionária que permita a saída do grupo ING. “Os holandeses não entendem bem o Brasil nem a empresa e têm muitos problemas em casa aos quais terão que dar prioridade”, afirma, direto ao ponto.

No dia a dia, seu estilo educado e construtivo acaba seduzindo os controladores, geralmente avessos a acionistas minoritários agressivos. “O Guilherme sempre teve uma conduta exemplar no Unibanco. É o típico acionista com visão de longo prazo, que apoia a administração e é fiel à companhia”, relata Israel Vainboim, que foi seu colega no conselho do Unibanco. A relação com o banqueiro Pedro Moreira Salles é tão boa que eles foram juntos a Omaha ouvir os ensinamentos de Buffett. Sua maior tacada até agora foi a compra de 5,5% do banco da família Moreira Salles. Essa aposta começou há 22 anos e deve ser concluída em breve, com um ganho estupendo para quem acreditou na estratégia e comprou ações da Bahema.

Na segunda metade dos anos 80, o jovem engenheiro buscava aplicações financeiras que dessem fôlego para a Bahema Equipamentos comprar concorrentes nos períodos de vacas magras. Seu talento para a bolsa iria mudar o rumo da distribuidora de tratores Caterpillar, pertencente ao seu pai, Afrânio Affonso Ferreira. O filho o convenceu a investir cerca de US$ 5 milhões em ações do banco do embaixador Walter Moreira Salles entre 1986 e 1988. Os papéis do Unibanco, como os dos demais bancos de varejo, estavam em baixa diante da perspectiva de controle da inflação e fim dos lucros fáceis do “overnight”. Entre ser mais um acionista nanico no Bradesco ou no Itaú, preferiu ser um minoritário importante no Unibanco, que era menor. Os dividendos foram reinvestidos ao longo do tempo, pagaram o custo inicial e se transformaram numa fortuna de quase US$ 300 milhões.

A fusão do Itaú com o Unibanco, no ano passado, coroou duas décadas de perseverança e participação ativa nos órgãos estratégicos do banco. Ele tinha assento no Conselho de Administração e ajudou a criar a Unibanco Holdings, que fortaleceu a posição da família Moreira Salles e permitiu a expansão da base de capital do banco sem a perda de controle. “O Guilherme foi praticamente o pai dessa ideia”, lembra Vainboim. Durante anos, o banco foi alvo de ofertas de compra e boatos de venda, mas Ferreira não se abalou, manteve as ações e esperou o desfecho final, a histórica fusão com o Itaú, que criou o maior banco do País e premiou os acionistas com poder de voto, como ele. Como ficou pequeno no novo Itaú Unibanco, com cerca de 1%, optou por desmontar a posição e seguir em frente. “O sentido estratégico foi perdido. O investimento maturou”, diz Ferreira, feliz da vida. Não foi à toa que as ações ordinárias da Bahema subiram 133% neste ano, até 25 de maio. Mas em vez de vender os 24 milhões de ações que recebeu do Itaú Unibanco e botar o lucro para dentro da empresa, Ferreira optou por uma operação rara no mercado: está distribuindo 55% delas aos mais de mil acionistas da Bahema, numa redução radical de ativos sob gestão. “É como um prêmio para quem acreditou na gente. Assim, nossos acionistas podem manter as ações do Itaú Unibanco ou realizar o lucro, como quiserem.”

Essa operação faz parte da sua estratégia para os próximos anos. Cada vez mais, a Bahema Participações irá reduzir sua carteira própria e investir em empresas por meio de fundos geridos por ele. O balanço trimestral já mostra essa tendência. Além das posições em Itaú Unibanco, Tavex Algodonera (empresa espanhola do setor têxtil) e Eternit, a companhia detinha cotas dos fundos Rio Bravo Fundamental FIA, de ações, e do Rio Bravo Macro, um multimercado. Esses fundos são resultado de uma parceria com a Rio Bravo, empresa de investimentos que tem como sócio o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco. Juntos, eles administram cerca de R$ 600 milhões em sete fundos. São gestores e cotistas ao mesmo tempo. “Não temos tesouraria, nossa grana está junto com a de nossos clientes”, diz Franco. Ferreira, chamado de Willy pelos cariocas, é o estrategista para as ações e Franco, para a macroeconomia.

A estratégia para a bolsa é a de sempre: ativismo minoritário. Assim como na Bahema, tem dado certo. Desde seu início, em setembro de 2004, o Rio Bravo Fundamental FIA rendeu 195%, o equivalente a 300% do índice de referência (IGP-M mais 6%). Em abril passado, o retorno foi de 16,8%. O fundo lucrou R$ 15 milhões com uma aposta nas ações da Ferbasa por 27 meses, numa taxa anualizada de 71%. Outras tacadas em andamento são a Copasa e a Marisa. Ferreira ainda comanda dois fundos sob a Bahema Gestão de Ativos, criada especialmente para reinvestir os dividendos pagos aos acionistas da Bahema Participações, desta vez com um pouco mais de liquidez. A estratégia, no entanto, é similar. “O Willy tem uma cabeça privilegiada, é um craque para identificar empresas e oportunidades de criação de valor”, diz Franco.

R$ 1,2 bilhão em ações de empresas abertas é quanto o investidor tem sob gestão na Bahema Participações e em parceria com a Rio Bravo

Um bom exemplo é a Eternit, uma das poucas empresas listadas no Novo Mercado da BM&FBovespa que não têm grupo de controle definido, nem acordo de acionistas. Ferreira, na posição de minoritário e conselheiro, foi um dos maiores incentivadores da migração da companhia para o mais alto nível de governança corporativa da bolsa. Também propôs um sistema de remuneração aos executivos para que se tornem acionistas e se comprometam mais com o negócio em longo prazo. “O Guilherme sabe colocar desafios, dá as condições para que sejam buscados e cobra de forma motivadora”, afirma o presidente da Eternit, Élio Martins. Foi o presidente da Bahema quem atraiu o investidor Lírio Parisotto, maior acionista individual, com 16% do capital, para o Conselho da companhia. “O Guilherme é uma das pessoas que eu mais admiro. Sua lucidez e capacidade de avaliação do negócio é impressionante. É um conselheiro ativo e do bem. Muito ponderado”, diz Parisotto. “O Brasil precisa de muitas pessoas como ele.”

Parisotto tem razão. Um minoritário ativista busca ser ouvido, exige prestação de contas e cobra transparência por parte dos administradores, levando a empresa a um novo patamar de desempenho. “A melhora na governança exigida pelos minoritários ativistas traz benefícios para todos os acionistas”, lembra Walter Mendes, presidente da Associação de Investidores no Mercado de Capitais (Amec). Infelizmente, nem todos são assim. Alguns agem em benefício próprio ou defendem interesses nem sempre transparentes. “A pior coisa é um minoritário chato e sem poder, que desequilibra a ecologia do ambiente corporativo e não contribui com nada”, afirma Luiz Marcatti, sócio da consultoria Mesa Corporate Governance. Guilherme Affonso Ferreira pode não atrair multidões, como Warren Buffett, mas parece ter a sabedoria necessária para ser seu melhor discípulo no Brasil. O resto é uma questão de tempo.