Investidores

Portinari como grife

 

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ÍCONE: a tela O Lavrador de Café (1939) é a obra mais famosa do artista

QUANDO UM ARTISTA DE RENOME MORRE, O TRABALHO DE manter o legado de sua obra pode ser a missão de uma vida. Esse é o caso da família do pintor brasileiro Cândido Portinari (1903-1962), cujo filho, o matemático João Cândido Portinari, passou 30 anos catalogando as obras do pintor. Ao longo deste tempo também criou um instituto de pesquisa, o Projeto Portinari, e um museu em Brodósqui, cidade natal do artista, no interior de São Paulo – todos mantidos com um patrocínio da Petrobras. Mas a fonte secou. A estatal anunciou o cancelamento do contrato e a família Portinari tratou de correr atrás de novas receitas. Uma delas, diga-se de passagem, bem promissora, é a de licenciamento de produtos com a marca Portinari. Com possibilidades de ganhos que variam de 10% a 15% sobre o valor das vendas, a intenção é associar o nome do pintor modernista a produtos de luxo. Essa não é a primeira vez que a família vai se aventurar nesse negócio, pois já possui parcerias com a joalheria Amsterdam Sauer e uma linha de cosméticos com a rede de perfumarias O Boticário. É, entretanto, a primeira vez que vai profissionalizar o negócio. João Cândido acaba de contratar a Angelotti Licensing & Entertainment Business, empresa especializada em licenciamento, com o objetivo de fechar dez novos contratos. “Os produtos com a assinatura Portinari deverão movimentar R$ 50 milhões em vendas”, aposta Luiz Angelotti, dono da Angelotti. Dentre alguns contratos em vista, estão um com uma empresa de café, uma vinícola e até com uma montadora.

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“Queremos associá-lo a marcas que remetam aos mesmos valores de brasilidade e maestria do artista”, diz Angelotti. O pontapé inicial já foi dado. A empresa fechou uma parceria com a Recriararte, empresa especializada em reprografia, para vender reproduções das telas de Portinari. “João Cândido Portinari é muito exigente”, afirma João Rezende, da Recriararte. “Meu trabalho não é simplesmente imprimir as obras. Fiquei um ano fazendo ajustes para alcançar o azul de Portinari”, conta Rezende, que espera vender 500 telas por mês com preços que variam de R$ 100 a R$ 1 mil cada uma. Este azul de Portinari foi uma cor obtida pelo artista após várias tentativas até chegar à tonalidade do céu de Brodósqui. Assim como o verde do pintor da renascença italiana Veronese, o azul Portinari o tornou célebre e pôde ser visto em diversas de suas obras. Essa busca de tons também contribuiu para a deterioração de sua saúde. Portinari morreu aos 58 anos, vítima de uma alergia causada pelas tintas que usava. Deixou mais de cinco mil obras, a maior parte delas em coleções particulares. Dentre os temas mais recorrentes em suas pinturas estão a infância, o trabalho no campo, a religião e a miséria brasileira. “Portinari pintou uma infinidade de temas que podem ser usados para passar diferentes mensagens”, aponta João Cândido.

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A rede O Boticário e a joalheria Amsterdam Sauer, por exemplo, encontraram boas fórmulas. A primeira, com uma linha inspirada em Portinari, desde 1999, adotou sua assinatura nos produtos. O mesmo ocorreu com a joalheria Amsterdam Sauer, que desde 2003 mantém uma coleção de jóias inspirada nos temas sociais de seus quadros, como os que retratam os negros. “A associação da arte com as jóias traz resultados muito bons, pois nosso cliente tem alto nível cultural”, explica Rosana de Moraes, gerente de marketing da Amsterdam Sauer. Parcerias como essas acabam sendo mais uma forma de divulgar a obra do artista. “O licenciamento democratiza a arte, mas é preciso ter cuidado”, diz Bia Duarte, proprietária da B Licenças Poéticas, responsável pela marca do artista plástico Romero Britto. “Quem reproduz tem que ser fiel ao original e o contrato deve ser negociado por um certo período”, explica Bia.

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Reside aí o erro de João Cândido Portinari. Há dez anos, os direitos do uso do nome Portinari no ramo da cerâmica foram vendidos integralmente para a Cecrisa, que criou a marca Cerâmica Portinari. De acordo com João Cândido, o problema começou quando a empresa inventou uma assinatura para Portinari e criou azulejos que remetem à obra do artista, mas passam longe do original. “Estas práticas induzem o consumidor a acreditar que aquilo é Portinari”, queixa-se João Cândido. “Tentei conversar, mas não deu. Tive que apelar para a Justiça”, conta. Procurada por DINHEIRO, a Cecrisa não quis se pronunciar. Independentemente desses problemas, Angelotti está confiante. “O licenciamento é um dos setores que mais crescem e continuará a crescer”, aposta.