Investidores

Carlos Alberto de Oliveira Andrade

No final da década de 90, o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, dono de uma das principais redes de concessionárias do País, vivia os últimos dias do seu casamento com a Renault. Ele havia sido representante exclusivo da marca no Brasil, mas a relação azedou quando os franceses decidiram implantar uma fábrica no Paraná ? e sem sócios locais. Insatisfeito, ele acabou vendendo os 20% que mantinha na Renault brasileira e saiu à caça de novos negócios. Em 1999, embarcou para a Coréia e foi conhecer uma montadora que já chamava a atenção dos especialistas em indústria automotiva. Com alma de vendedor, o senhor Caoa, como ele é chamado no mercado, bateu à porta da Hyundai, contou sua história e conseguiu fechar um acordo com os coreanos. Na mesma viagem, ele foi levado ao centro de pesquisas da montadora, nos arredores de Seul, que já contava com 2,7 mil engenheiros e 250 PhDs. ?Naquele momento, enxerguei o futuro e passei a ter certeza de que, em poucos anos, a Hyundai seria uma das maiores montadoras do mundo?, diz ele, que foi eleito Empreendedor do Ano na categoria Indústria. ?Fiz a maior aposta da minha vida.?

O que ele jamais poderia prever é que esse futuro chegaria tão rapidamente. Em 2007, oito anos depois daquela primeira viagem à Coréia, a Hyundai foi a marca que mais cresceu no mercado brasileiro e o empresário Caoa virou mais do que um simples sócio de montadora estrangeira ? passou a ser o dono da fábrica. Em abril deste ano, após investir R$ 300 milhões de capital próprio, ele inaugurou, com zero de endividamento, uma fábrica na cidade de Anápolis, em Goiás, que é 100% do grupo Caoa ? a Hyundai apenas lhe fornece a tecnologia e recebe royalties por isso. Hoje não mais como revendedor, mas sim na condição de industrial, Caoa ganhou uma cadeira cativa na Anfavea, a associação nacional das montadoras, sentado ao lado de executivos das gigantes Fiat, Volkswagen, General Motors e Ford. ?A fábrica é a concretização do maior sonho da minha vida?, diz o empresário. Em Anápolis, já foram criados mil empregos diretos e dois mil indiretos, numa planta com capacidade para produzir 130 mil veículos/ano.

MÉDICO, ELE SE TORNOU EMPRESÁRIO POR ACASO, QUANDO A CONCESSIONÁRIA QUE LHE VENDEU UM LANDAU NOS ANOS 70 FALIU

Em sua primeira fase, a fábrica começou a produzir os caminhões leves HR, que, segundo Caoa, ?já vendem como água?. Todos os meses, cerca de 1,2 mil unidades saem prontas das linhas de montagem. O grande salto, porém, virá em meados de 2008, quando o Tucson, um utilitário esportivo que caiu nas graças do consumidor brasileiro, começar a ser fabricado localmente, com uma meta inicial de duas mil unidades/mês. Já se preparando para isso, Caoa viajou a Stuttgart, na Alemanha, para visitar a fábrica da Dürr, uma das principais indústrias de bens de capital do mundo. Lá mesmo, ele fechou um acordo para importar US$ 100 milhões em robôs de última geração. ?O Tucson terá de ser produzido aqui com a melhor tecnologia disponível no mundo?, diz ele. Não é para menos. Graças a esse carro, as vendas da Hyundai no Brasil cresceram 295% em 2007 ? dez vezes mais do que a média do setor automobilístico, que ficou em 29%. ?Conseguimos abrir um novo mercado no Brasil?, diz ele. Com preços que variam entre R$ 75 mil e R$ 115 mil, o Tucson conquistou a classe média que sonhava com um SUV de alta qualidade, mas não podia pagar os preços dos modelos alemães, norte-americanos ou japoneses. Isso fez com que, na cidade de São Paulo, o maior mercado do País, o Tucson conseguisse abocanhar nada menos que 50% dos emplacamentos nesse segmento, tomando espaço dos concorrentes.A explosão das vendas fez com que o faturamento do grupo Caoa, que é também um dos principais revendedores Ford do País, disparasse. A receita deverá chegar a R$ 4 bilhões em 2007, depois de R$ 1,5 bilhão no ano anterior ? e o mais interessante é que a marca Hyundai, incorporada há menos de dez anos ao grupo, já representa dois terços do total. Para 2008, as perspectivas são ainda mais promissoras. Além da produção local do Tucson, que poderá reduzir os custos dos modelos vendidos no Brasil, o grupo Caoa irá lançar um sedã de luxo da Hyundai, o Azera, para competir com os japoneses Accord, da Honda, e Camry, da Toyota. Em outra frente, ele acaba de fechar um acordo exclusivo de importação com a japonesa Subaru, que irá até 2013. Só no que vem, serão feitos cinco ou seis lançamentos. ?A Subaru poderá fazer tanto sucesso quanto a Hyundai?, prevê Caoa. E gente que entende de indústria automobilística não costuma duvidar das palavras desse empresário. Antônio Maciel Neto, ex-presidente da Ford, classifica o dono do grupo Caoa como ?o melhor vendedor do Brasil?. Com uma agressiva estratégia comercial, ele investe cerca de R$ 40 milhões por ano na marca Hyundai e cuida de cada detalhe das campanhas. A ênfase maior tem sido na qualidade, na garantia de quatro anos e na relação custo- benefício. ?Comprar um carro Hyundai significa levar mais automóvel por menos preço?, resume Caoa.

Foi graças a esse talento de vendedor que ele se tornou empresário. Paraibano, Caoa se formou em medicina no Recife e começou a atuar como clínico geral e cirurgião em Campina Grande, sua cidade natal. Na década de 70, com suas primeiras economias, ele decidiu adquirir um Landau, mas a concessionária faliu antes de lhe entregar o modelo. Para não realizar o prejuízo, ele acabou fazendo uma proposta para comprar a revenda. Em pouco tempo, Caoa se tornou o maior concessionário da Paraíba e depois do Nordeste, até chegar a São Paulo. ?Eu não deixava ninguém sair da minha loja sem antes fechar um bom negócio?, diz ele. Hoje, ele não só é um dos maiores concessionários do País, como também se tornou industrial e virou um dos homens de confiança de Chong Mong Koo, CEO da Hyundai. Na inauguração da fábrica de Anápolis, ele fez questão de vir ao Brasil e elogiou o papel do grupo Caoa na expansão da montadora, que já é a sexta maior do mundo, atrás apenas de Toyota, General Motors, Volkswagen, Renault-Nissan e Daimler-Chrysler. Para crescer mais na América Latina, não está descartada a produção de um carro médio, mais adaptado ao padrão de renda da região. ?Isso está em estudo?, adianta o dono do grupo Caoa. Dias atrás, ele voltou à Coréia do Sul. Teve reuniões na fábrica da Hyundai em Ulsan, que já é a maior do mundo, com capacidade para produzir 1,6 milhão de veículos/ano. Em seguida, o dono do grupo Caoa retornou a Seul e voltou a visitar o centro de pesquisas da montadora. Ali, onde havia 2,7 mil engenheiros e 250 Ph.Ds. em 1999, hoje trabalham 8 mil engenheiros e quase 2 mil doutores. Sua confiança na marca ficou ainda mais forte. ?A Hyundai é vista como a Toyota de amanhã?, diz Caoa. ?Eles serão os maiores do mundo e nós estaremos juntos.? Embora não fale abertamente, o grande sonho do empreendedor Carlos Alberto de Oliveira Andrade é, quem sabe, superar a Renault, que um dia lhe fechou as portas.