Investidores

PARADOXO DE EXPORTAR

Na tarde de quinta-feira 6, ao dar
posse em Brasília aos seus novos
auxiliares, o ministro Luiz Furlan, do Desenvolvimento, permitiu-se um momento de autocongratulação. ?Houve uma melhora geral dos preços?, disse ele, sorrindo, ao comentar o saldo comercial de US$ 1,12 bilhão em fevereiro, o maior neste mês desde 1994. Este ano o saldo já soma
US$ 2,28 bilhões e há quem preveja que o Brasil pode fazer em 2003 um superávit de US$ 20 bilhões. Excelentes notícias, que ocultam um problema do mesmo tamanho, ou maior: o acerto externo está sendo feito à custa de um enorme desajuste no mercado interno. O mesmo mês de fevereiro que bateu recordes de exportação viu a inflação chegar a 2% ? e os dois fenômenos guardam relação entre si. Produtos como celulose, borracha, aço e petroquímicos, que lideram a pauta de exportações, também estão na base dos ajustes de preços internos. A exportação causa inflação pelo simples motivo de as fábricas estarem operando no limite da sua capacidade produtiva. O caso mais dramático é no setor de papel e celulose, cujas plantam estão com taxa de ocupação de 99,5% ? quando 93% já é considerado capacidade plena. Na escassez criada por essa matemática elementar, prevalece o preço do mercado externo, contabilizado em dólares. ?Há uma forte demanda externa e as empresas não têm como atender os dois mercados?, diz a economista Lidia Goldstein, da MB Associados. ?A inflação aparece porque falta mercadoria. As empresas não estão no mercado para fazer filantropia.?

Quer dizer: depois de um ano vivendo sob o lema de ?exportar ou morrer?; depois de 60 dias ouvindo o governo Lula afirmar que a exportação é a porta de saída da crise, os brasileiros descobrem, espantados, que o único remédio possível contra a vulnerabilidade externa tem um efeito colateral imprevisto. Exportar pode estrangular a economia nacional. ?Temos de encontrar um equilíbrio entre o crescimento das exportações e o abastecimento interno?, diz Armando Monteiro, presidente da Confederação Nacional da Indústria. A frase simples esconde um problema velho e intratável. Nos últimos anos o investimento foi baixo ou quase inexistente. As empresas não se prepararam para a explosão de vendas externas (porque o real estava sobrevalorizado) e nem se preocuparam em atender o mercado interno, que vem crescendo muito devagar. Assim, ao menor sinal de crescimento de demanda ? interna ou externa ? a inflação se apresenta na porta. O caso é tão grave que o ministro Furlan, um homem saído da Federação das Indústrias de São Paulo, ameaçou seus pares de taxar as exportações de aço, celulose e petroquímicos para garantir os preços no abastecimento interno. A reação das empresas, claro, foi de choque. ?Taxar as exportações é trabalhar contra os projetos de desenvolvimento do País?, afirma José Armando Campos, presidente da Companhia Siderúrgica de Tubarão, que exporta quase todas as 4,9 milhões de toneladas que produz.

Dados da Fundação Getúlio Vargas divulgados recentemente sugerem que o País terá de ter paciência até sair desse buraco. A indústria de transformação, que vinha utilizando 79% da sua capacidade de produção, entrou neste ano com 80,8% de ocupação. E subindo. Desta lista constam produtos que estão na base de diversas cadeias produtivas ?como plásticos (83%), têxteis (84,3%), borracha (89,5%) e aço (91,2%) ? e cuja produção não pode ser ampliada da noite para o dia. Os têxteis, que são o caso mais simples, precisam de seis meses para ampliar sua capacidade produtiva. Na siderurgia se leva três anos para fazer um alto-forno. Na semana passada o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial, uma ONG de grupos industriais, levou ao governo um projeto de investimento emergencial de US$ 10 bilhões, que seria financiado através do BNDES. Mas ainda que o governo aceitasse, a decisão de investir pertence aos agentes privados, que decidem apenas quando enxergam segurança no horizonte econômico. E aí há problemas. ?Para se ter investimento é preciso ter juros menores?, aponta Mário Bernardini, diretor da Fiesp. Posta assim, essa discussão é parte de um filme velho que todo mundo conhece.

Com reportagem de Janaína Leite

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