Investidores

Sonho bem possível

Precisar mesmo, ninguém precisa. Mas quem um dia já não se imaginou com uma Ferrari na garagem, passando férias no apartamento de Paris ou viajando de um lugar para o outro no seu jatinho? São sempre coisas assim, nada essenciais, que estão no imaginário das pessoas como sonhos de consumo. E não há mal nenhum nisso. O desafio é torná-lo possível sem que, é claro, se transforme num pesadelo para suas contas. Como? Com planejamento financeiro. O primeiro barco do engenheiro naval Arthur Russi foi uma miniatura de canoa canadense que ele ganhou do pai quando tinha quatro anos. Do barquinho de brinquedo até ter um grande o suficiente para navegar com toda a família se passaram 50 anos. ?Calculei cada passo até conseguir meu objeto do desejo?, diz Russi. ?Cheguei a comprar algumas lanchas, mas só agora consegui o que tanto queria.? O veleiro de 36 pés, com capacidade para oito pessoas, custou R$ 100 mil. Junto com outros dois amigos, Russi contratou sete funcionários, alugou os moldes e construiu ele mesmo seu veleiro. ?Fiz do jeito que queria, do motor japonês de última geração até a cabine mobiliada.? E, o que é melhor, a opção por construir reduziu em 40% os custos.

Das cerca de 200 Ferraris novas que existem no Brasil, uma é do empresário Wilton Dantas. ?Paguei US$ 220 mil num carro que fica mais tempo na garagem, mas não me arrependo.? Como não teria dinheiro para comprar à vista uma Ferrari novinha, Dantas comprou primeiro uma com quatro anos de uso, por US$ 100 mil. Economizou e trocou por outra dois anos mais nova. Até comprar, no ano passado, uma zero quilômetro.

A pressa só atrapalha quem não quer passar a vida, ou boa parte dela, apenas sonhando. ?Nenhuma compra pode ser feita por impulso, principalmente quando é algo supérfluo?, diz o consultor financeiro Luiz Carlos Conrado. Justamente por isso, também não deve ser financiado. Afinal, você está somando um gasto ? em tese desnecessário ? no seu orçamento mensal. Sem falar nos juros. A ordem natural é priorizar o lugar para morar, a educação dos filhos e a manutenção da casa. Se qualquer um desses pontos ficar para trás, é sinal que alguma coisa está errada.

Outro aspecto importante antes de esvaziar a poupança (aquela feita só com esse objetivo) é calcular os custos de manutenção. Os gastos não acabam quando você compra um apartamento em Miami. Ao contrário, é aí que começam as contas com condomínio, impostos, limpeza etc., etc., etc. Para o psicólogo Sérgio Wajman, a vontade de ter muito uma coisa pode até servir de estímulo na organização financeira. Pode ajudar, por exemplo, a pôr ordem nas contas e planejar o futuro. O consultor Antonio Carlos Lopes mudou a forma de lidar com o dinheiro desde o dia em que resolveu pontuar sua vida por um objetivo: colecionar carros antigos. Isso foi há 20 anos. Hoje ele tem 10 carros e 17 motos. Quase US$ 300 mil na garagem. A preocupação de Lopes foi não deixar de investir e cuidar das contas só para manter o seu hobby. ?Sei que minha coleção não é um investimento porque não tem liquidez.?

O empresário Flávio Aronis descobriu uma forma de ganhar dinheiro depois que fez para si o que muitos outros querem: uma mansão. Há cerca de cinco anos, ele recebeu uma proposta irrecusável para vender o imóvel onde morava e que tinha construído. ?Um executivo pagou 200% mais do que valia porque disse que aquela era a casa que ele sempre quis.? Hoje Aronis não compra, vende sonhos de consumo. Ele escolhe o terreno em bairros nobres (sempre em São Paulo) e constrói casas que custam entre US$ 350 mil e US$ 1,5 milhão. Em cinco anos, Aronis fez 12 mansões. Vendeu todas menos de três meses após a conclusão da obra. Com um detalhe: todas à vista. A mais recente delas, uma casa de três suítes que custou US$ 500 mil, foi vendida antes mesmo de ficar pronta.