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Seu filho sabe o quanto vale 1 real?

Ensinar seu filho a lidar com dinheiro não é tarefa fácil. Mostrar o verdadeiro valor das coisas é um desafio. Mas quanto antes você se preocupar com isso, melhor será a relação dele com dinheiro. ?As lições precisam começar nos primeiros anos de idade em casa, na escola e, principalmente, com o exemplo dos pais?, explica a consultora Cássia D?Aquino, autora de um programa de educação financeira para escolas de São Paulo. Mesmo que o seu pequeno não receba mesada (ou semanada), ele provavelmente exerce influência na hora de comprar um brinquedo ou escolher um restaurante. Basta lembrar a quantidade de produtos no mercado de olho nesse potencial de consumo.

Que é difícil você já sabe. Então, como fazer isso? Comece ensinando a diferença entre querer e precisar. A criança deve ter noção de que quando quer uma coisa, mas ela não é essencial, precisará esperar algum tempo entre a escolha e a compra. A noção do tempo é importante na educação financeira. A criança precisa saber esperar para ter dinheiro, assim como qualquer trabalhador aguarda um mês para receber seu salário. Especialistas defendem que a partir dos 2 anos (isso mesmo, 2 anos) o dinheiro comece a fazer parte do vocabulário. ?Nessa idade, elas já podem aprender o significado da moeda?, afirma a professora Neide Noffs, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

A partir dos 3 anos, dê ao seu filho uma moeda uma vez por semana. Que tal deixar que ele entregue as notas para pagar o pão no balcão da padaria? Nessa idade, a criança ainda não tem noção de valor (algumas moedas para ele valerão sempre mais que uma cédula). É um bom momento de explicar o significado de caro e barato. A bióloga Cláudia Kohler e o oceonógrafo Paulo Harkot escolheram o supermercado para iniciar a aula. ?Sempre levamos a Marina (8 anos) e o Fábio (4) para as compras?, conta Cláudia. ?E estimulamos a comparação de preços.?

Marina começou a receber semanada na idade certa, a partir dos cinco anos. Uma dúvida que Cláudia e Paulo tiveram, e que a maioria dos pais tem, é como estipular quanto seu filho precisa. É claro que o cálculo depende de uma série de fatores: se ele vai pagar o lanche da escola, por exemplo. A consultora Cássia sugere, como regra geral, 1 real por ano de vida por semana. Sendo assim, um garoto de seis anos receberia 6 reais por semana. Você acha muito? Então dê a idéia de fazer uma pequena poupança com metade do dinheiro. E não esqueça de aproximar o objetivo da poupança da realidade da criança. Como guardar duas semanas para comprar um álbum de figurinhas.

Outro ponto fundamental, segundo a psicóloga Ceres Araújo, é o risco de transferir responsabilidades. Roupas, calçados e alimentação são obrigações dos pais. Se a criança quiser participar dessas compras, ela pode mas sem comprometer sua semanada. ?O que a família pode fazer é estabelecer uma remuneração variável?, sugere Ceres. Funciona quase como numa empresa: a criança ganha um valor fixo por semana e pode receber mais se tirar boas notas na escola ou conseguir conservar os brinquedos. ?Só não vale diminuir a remuneração se ele não cumprir o objetivo.? E observe que a orientação dos gastos não pode tirar a liberdade da criança de usar o dinheiro da forma que quiser. Se ela errar, melhor que erre enquanto é apenas uma criança.

BEABÁ DO DINHEIRO
A idade certa para aprender

Dos 2 aos 3 anos
É hora de dar a noção mais básica: que dinheiro compra coisas. Isso pode acontecer naturalmente no dia-a-dia da família. Explicando, por exemplo, que o pipoqueiro não a pipoca e sim que ela foi comprada, trocada por dinheiro. Já nessa idade é importante mostrar que nem tudo que o pequeno quer pode ser comprado na hora.
Dos 5 aos 10 anos
Agora sim seu filho já deve receber a semanada. Uma boa dica para avaliar quanto ele precisa receber é considerar R$ 1 por ano de idade, por semana. Oriente seu filho, mas deixe que ele mesmo administre seu dinheiro. Outro detalhe: estimule a poupança, mas para um curto prazo e sempre com objetivos. Exemplo: poupar metade da semanada por quinze dias para comprar um álbum de figurinhas.
Dos 3 aos 5 anos
É a fase em que a quantidade tem mais importância. A criança prefere ter cinco moedas de R$ 0,05 do que uma de R$ 1. Aproveite esse momento para apresentar o dinheiro para seu filho. Mostre as cédulas e moedas e comece a dar noções de conservação do dinheiro, ensinando que é errado rasgar as cédulas ou escrever nelas. Introduza também os significados de caro e barato.
A partir dos 11 anos
Nessa idade, seu filho já deve ter todas as noções de uso do dinheiro. É o momento, por exemplo, de trocar a semanada pela mesada. A poupança já pode sair do cofrinho para uma caderneta em um banco. Estimule também que seu filho contribua com o dinheiro dele na compra de roupas, sapatos e gastos com lazer.

Foi o que fez a engenheira Sumaya Chahine quando notou que o filho Bruno, de 8 anos, quis participar de um programa de televisão ligando para um 0900. ?Mostrei para ele o quanto era caro?, diz ela. ?Mas não bloqueei o telefone porque queria que ele aprendesse sozinho.? Foi o que aconteceu. Quando a conta do telefone chegou, só as ligações para o 0900 somavam 150 reais. Sumaya disse ao Bruno que era ele quem deveria pagar. Mas como ele iria pagar uma dívida de 150 reais se sua semanada não ultrapassa 10 reais? ?Fizemos um cálculo de quanto ele gastava cada vez que ia ao McDonald?s e quantos meses ele deixaria de ir para pagar a conta?, lembra Sumaya. Bruno ficou sete meses sem ir ao McDonald?s e nunca mais a conta de telefone foi tão alta.

Pode parecer cruel, mas é melhor que a criança sofra com dívidas durante a infância, para que isso não aconteça quando ela tiver dependentes e obrigações muito mais sérias. Crescer sem saber lidar com o dinheiro pode ter conseqüências graves: consumir compulsivamente, ficar o tempo todo no vermelho e não conseguir educar seus filhos de forma adequada. Talvez seja a hora de fazer uma auto-avaliação…