Finanças

O sucessor de Setubal

Quem é o banqueiro Candido Botelho Bracher, que vai assumir a presidência do Itaú Unibanco a partir de abril do ano que vem

O sucessor de Setubal

Candido Bracher: Família de banqueiros, perfil discreto e bom trânsito entre os grandes empresários (foto: Claudio Gatti)

Em outubro do ano 2000, as conversas em uma reunião dos ex-alunos do Colégio Santa Cruz, tradicional instituição de ensino da zona Oeste de São Paulo, recordaram um professor já aposentado, o decano Flávio Vespasiano di Giorgi. Doutor em Letras, di Giorgi lecionava literatura e era famoso pelas poesias que declamava. Uma das presentes ao encontro, Beatriz, flha de Flávio, falou de um velho projeto do pai de gravar um CD com os poemas mais representativos da literatura brasileira. Um dos colegas, que trabalhava no mercado financeiro, disse que a ideia era interessante.

Beatriz pensou que fosse apenas mais uma daquelas conversas sem consequência, mas, poucos dias depois, recebeu um telefonema de Candido Botelho Bracher. “Falou com o professor? Quando podemos começar as gravações?”, perguntou o banqueiro. O CD “Visitando Poemas” seria lançado dois anos depois, na comemoração do cinqüentenário do colégio. A história só surpreende quem não conhece Bracher. Seja na complicada renegociação de uma dívida corporativa, seja na gravação de poesias, o executivo é famoso por ser organizado, minucioso e por possuir uma grande capacidade de obter resultados.

Seu anúncio para suceder Roberto Setubal na presidência executiva do Itaú Unibanco, na quarta-feira 9, representa o fim de um longo ciclo no maior banco privado brasileiro. A começar pela formação. O executivo paulista de 58 anos, oriundo de uma família de banqueiros e há 14 anos trabalhando ao lado de Setubal, é administrador de empresas, e não engenheiro, como o fundador Olavo Setubal e o próprio Roberto. Bracher também não pertence às famílias fundadoras, apesar de ser acionista do Itaú desde 2002.

Em novembro daquele ano, o banco BBA, fundado por seu pai, o ex-presidente do Banco Central, Fernão Bracher, foi comprado pelo Itaú. Após a aquisição, Candido ficou a cargo dos grandes clientes corporativos. Gradualmente, à medida que o BBA era integrado ao Itaú, ele assumiu outras áreas. Em 2013, após a reorganização na cúpula do banco, Bracher ficou com a áreas cruciais como gestão de recursos, tesouraria, private bank e as operações no exterior. Nesse papel, a maneira como cuidou da crise de crédito corporativo nos últimos dois anos, em especial resolvendo os complicados empréstimos da empresa de prospecção de petróleo Sete Brasil, o cacifaram para o cargo.

A sucessão, discutida ao longo dos últimos dois anos, foi sacramentada no fim de outubro e anunciada na quarta-feira. “Minha aposentadoria da presidência está prevista para abril de 2017 e decidimos divulgar o nome do sucessor com seis meses de antecedência, para agirmos de maneira transparente com o mercado”, disse Setubal. A partir de abril, ele dividirá a presidência do Conselho de Administração com Pedro Moreira Salles. Os candidatos à sua sucessão eram poucos. Além de Bracher, concorriam Marco Bonomi, responsável pela área de varejo, e Márcio Schettini, oriundo do Unibanco, e que responde por marketing e pela área de tecnologia.

O tempo impediu a ascensão de Bonomi, que atingiu a idade-limite de 60 anos e deverá ir para o Conselho em abril do ano que vem. Ele será substituído por Schettini, que poderá concorrer à sucessão do próprio Bracher, marcada para daqui a quatro anos. Setubal não comenta o assunto. “É prematuro falar da sucessão quando o próximo presidente ainda não assumiu”, diz ele. “Quatro anos são muito tempo, é um mandato presidencial”, diz Moreira Salles. “Dá para fazer muita coisa.” A notícia foi bem recebida no mercado. “Candido é banqueiro, vem de uma família de banqueiros, já provou sua capacidade e tem bom trânsito com os colegas e com o governo”, diz um executivo que conhece bem a dinâmica do Itaú Unibanco.

Bracher tem o perfil de um banqueiro tradicional: é discreto, bastante reservado e raramente demonstra o que está pensando. “Ele vai a pouquíssimos eventos, e quando vai, fica por quinze minutos, fala pouco e não bebe nada”, diz um conhecido. É um colecionador de arte disputado pelos marchands e, da mesma forma que Setubal, é um torcedor apaixonado do Santos. Sua tarefa não será simples. Ao longo dos 22 anos em que ocupou a presidência, Roberto Setubal transformou um grande banco brasileiro na maior instituição financeira privada brasileira e uma das maiores corporações do mundo.

Ao assumir o comando, em novembro de 1994, ele comandava um banco com 1.900 agências, que tinha R$ 14,9 bilhões em ativos e lucrava R$ 320 milhões por ano. Nos 12 meses até setembro deste ano, o lucro havia sido de R$ 21 bilhões. A rede de agências, incluindo as digitais, havia avançado para 5.100 e o valor de mercado cresceu 7.500% para quase R$ 200 bilhões. No período, a inflação medida pelo IPCA foi de 366,4%. Hoje, o banco tem operações de varejo consolidadas no Chile e na Colômbia.

Setubal foi capaz de fechar negócios como a compra do BBA e costurar parcerias, como a fusão com o Unibanco, que serão muito difíceis de repetir. Porém, quando ele migrar para o Conselho, poucos esperam que se afaste muito de cena. “Ele pode deixar o dia-a-dia, mas vai continuar observando tudo muito de perto”, diz um conselheiro. Um assunto estará no topo da lista. “Nos últimos anos, nós nos esforçamos para melhorar a governança e a eficiência do banco”, diz Setubal. “Agora, a nossa tarefa mais importante será garantir a perpetuidade do negócio.”