Finanças

A bomba relógio da Sete Brasil

Desde o final de setembro, os 16 navios-sonda em construção pela empresa perderam a apólice de seguros da Chubb. Por conta disto, o controverso investimento bilionário está desprotegido e em risco

A bomba relógio da Sete Brasil

À deriva: o novo presidente da Sete Brasil, Luiz Carlos Carneiro, tenta remontar as peças da empresa, mas não consegue fechar novos contratos de seguros (foto: Leo Pinheiro/Valor)

O austro-americano Peter Drucker, um dos gurus da administração moderna, dizia que, ao lado do risco que você tem de correr, existe aquele que não se pode correr jamais. O sinistro é algo que precisa estar distante de um negócio, ainda mais o de uma empresa pré-operacional. Essa lição, porém, não faz parte do manual da Sete Brasil, que desde o dia 30 de setembro está com todos os seus ativos entregues à sorte. As apólices de seguro perderam a validade e não foram renovadas.

Em recuperação judicial desde junho deste ano e com endividamento de US$ 19,3 bilhões, a companhia criada em 2010 para facilitar a produção e a operação das sondas que perfurariam o petróleo no pré-sal não conseguiu resolver um impasse com a Chubb, a seguradora-líder da proteção aos 16 navios-sonda que estão em construção. Cada sonda é avaliada entre US$ 800 milhões e US$ 900 milhões, segundo relatório ao qual DINHEIRO teve acesso com exclusividade. Isso significa que qualquer incidente (quebra de uma peça ou incêndio nos estaleiros) pode transformar esse investimento avaliado em US$ 25 bilhões, literalmente, em cinzas.

A Sete Brasil, que tem entre os acionistas a Petrobras, os bancos BTG Pactual, Bradesco e Santander, e os fundos de pensão Previ, Petros, Funcef e Valia, virou uma bomba-relógio. Essa perda da cobertura de seguros é o fim de um intrincado processo de negociação, que se desenrolou por um ano, entre a Chubb e a operadora de sondas. As discussões giravam em torno da devolução de parte do prêmio pago, à vista, na assinatura do contrato, em 2011. Naquele período, foi investido US$ 124.927.840,00 nas apólices de seguros dos navios-sonda. Nesses últimos cinco anos, 13 projetos foram abandonados e apenas 16 foram adiante.

Agora, a Sete Brasil quer reaver parte desse pagamento antecipado de um negócio que ficou pela metade. DINHEIRO teve acesso a uma extensa troca de e-mails entre a Sete Brasil e os executivos da seguradora. Em julho deste ano, eles assinaram um entendimento de reestruturação do programa de seguros da empresa, que incluía a devolução do prêmio pago pelas sondas que não foram construídas e a nova cobertura das que estão em fase de conclusão. Algo em torno de US$ 25 milhões voltariam aos cofres da Sete Brasil. Mas, para o fechamento dessa operação, era preciso que os bancos credores concordassem com os termos da transação.

A Chubb se comprometeu a manter a cobertura das sondas durante a negociação. No entanto, a Sete Brasil não conseguiu convencer os bancos a assinar o instrumento de transação como anuentes, embora tenha obtido deles uma carta concordando com os termos do acordo. Sem o documento, a Chubb emperrou as negociações e as sondas perderam a proteção. Nas últimas três semanas, DINHEIRO conversou com várias pessoas envolvidas no caso para entender como a Sete Brasil chegou a esse delicado ponto. Para compreendê-lo, é preciso voltar no tempo e relembrar a assinatura dos contratos de seguros, que envolvem um desconhecido profissional do setor e dois executivos que foram acusados pela Operação Lava Jato de corrupção e desvios de recursos.

Em 2011, o corretor autônomo Marcelo Vicentini venceu a concorrência para fazer a contratação das apólices de D&O, como são chamados os seguros de responsabilidade civil de altos executivos. Vicentini se aproximou de João Ferraz, então presidente da Sete Brasil, e de Pedro Barusco, ex-diretor de operações. Apesar de sua inexperiência no setor, foi contratado como consultor por um pagamento mensal de R$ 14 mil para trabalhar com uma das mais difíceis e específicas apólices: a cobertura de grandes obras de engenharia e construção no setor de óleo e gás, conhecida pela sigla BAR.

As apólices desse tipo, especialmente as com um valor tão elevado, costumam seguir um padrão, com concorrência de cotação de preço entre seguradoras, um teto de comissão para corretores e a contratação de agentes para a busca de resseguradores no exterior. Para todos eles, a taxa máxima de corretagem é de 2,5% do valor total pago. Além disso, há desconto caso a empresa opte por quitar o seguro à vista. A Sete Brasil ignorou as práticas do mercado e criou um caminho próprio e controverso. A comissão para as seguradoras foi de 15% e totalizou US$ 18,6 milhões. 

Para as resseguradoras, 20% e somou US$ 20 milhões. No caso da Sete Brasil, o valor da apólice de quase US$ 125 milhões também foi pago de uma vez. Como e por que a empresa fez essas escolhas? As respostas estão nas ações de Vicentini. Primeiro, ele escolheu a RexSeg, corretora da qual era sócio, para fazer a cotação do seguro. Havia um claro conflito de interesse, mas o consultor se tornou, também, o corretor das apólices. Com isso, recebeu autonomia tanto para estabelecer a taxa de corretagem quanto o percentual sobre o valor do ativo a ser segurado, usado como referência para o cálculo do prêmio.

Ainda não se sabe se por inexperiência ou má-fé, a cobertura da Sete Brasil valia o dobro da média praticada nas apólices da Petrobras, que é referência nesse segmento no Brasil. Um executivo que atua com resseguros arrisca explicar que a diferença de precificação está na percepção de risco da estatal e de uma empresa pré-operacional de sondas de alta complexidade, em um país sem tradição nesse tipo de negócio. Mas o que parece sem explicação é o pagamento das apólices à vista sem desconto, antes mesmo do início das obras, como aconteceu com a Sete Brasil, o que não é praxe do mercado.

A Petrobras opta por parcelar seu custo de seguro nos três anos de construção de suas sondas. A United Insurance Brokers (UIB) e a Jardine Lloyd Thompson (JLT) foram as corretoras de resseguros escolhidas por Vicentini para intermediar a distribuição do risco entre as empresas estrangeiras. Parte do resseguro da Sete Brasil foi negociado na plataforma de resseguros do Lloyds, na Inglaterra. Comenta-se no mercado que pelo menos 30 companhias estrangeiras dividiram o risco da apólice. Procurado pela DINHEIRO, o Lloyds RE informou que “não poderia detalhar a operação, as comissões e nem quais empresas assumiram parte desse risco.”

A JLT Brasil esclareceu, em nota, que “sua remuneração seguiu o padrão de mercado e que, em outubro de 2015, foi nomeada pela Sete Brasil como seu corretor de seguros, para reestruturar as apólices de BAR, atualmente em curso, mas que o acordo de confidencialidade a impede de fornecer mais detalhes.” Em janeiro de 2013, com a conclusão da negociação, a inglesa UIB comprou 25% da RexSeg, que pertence a Vicentini, por valor desconhecido e o consultor e corretor da Sete Brasil se tornou sócio-investidor da UIB Benefícios, empresa de gestão de risco em saúde e de benefícios do inglês UIB Group no Brasil.

Procurada, a UIB optou por não se manifestar. Indagado pela DINHEIRO, Vicentini também não deu entrevista. Pessoas próximas a ele dizem a venda da participação na RexSeg aconteceu pelo potencial de negócios que ele poderia gerar para a UIB – afinal, ele tinha em mãos o maior e mais importante seguro do Brasil, naquele momento. Diante de tantas decisões suspeitas, alguns sócios investidores da Sete Brasil, entre eles o banco BTG Pactual e a Petrobras, tentaram obter esclarecimentos de Vicentini sobre as negociações relativas às apólices, em 2011 e em 2012.

O BTG e a Petrobras optaram por não comentar o assunto, que é citado na denúncia feita pela Sete Brasil à Procuradoria da República no Estado de São Paulo, em agosto de 2015. A empresa denunciou irregularidades em seus contratos de seguros para as sondas, por conta das comissões muito elevadas nas apólices de seguro e resseguro, e das relações entre Marcelo Vicentini, Pedro Barusco e João Ferraz. O ex-presidente da Sete Brasil, João Ferraz, e o ex-diretor de operações da companhia, Pedro Barusco, foram denunciados em abril deste ano pelo Ministério Público Federal (MPF), na Operação Lava Jato, pelo esquema de corrupção envolvendo a Sete Brasil.

Em acordo de delação premiada, Barusco declarou a cobrança de propina aos estaleiros contratados para fazer as 29 sondas da Sete Brasil, o que teria somado US$ 185 milhões. Um terço desse montante era dividido entre ele, Renato Duque, ex-diretor de serviços da Petrobras, Eduardo Musa, ex-diretor da estatal e da Sete Brasil, e João Ferraz, segundo Barusco. Os dois terços restantes iriam para o caixa do Partido dos Trabalhadores (PT), segundo denúncia feita pela Operação Lava Jato. Barusco, que fez acordo de delação premiada em novembro de 2014 e se comprometeu a devolver US$ 100 milhões, afirmou ter recebido US$ 800 mil da Trillium Assets, que pertence a Vicentini, mas que o montante não se tratava de propina.

O Ministério Público Federal do Paraná (MPF-PR) não comentou a investigação, que ocorre sob sigilo. O advogado da Sete Brasil, Celso Vilardi, não retornou os pedidos de entrevista. O contrato de Vicentini com a Sete Brasil foi rescindido em maio de 2014, quando Luiz Carlos Eduardo Guimarães Carneiro assumiu a presidência da Sete Brasil, no lugar de João Ferraz. Sob sua gestão, a operadora de sondas iniciou um plano de reestruturação do programa de seguros. O objetivo é cancelar as apólices de 12 sondas, obter a devolução integral do prêmio e, assim, recontratar esse seguro a um preço inferior.

A nova negociação entre a Sete Brasil e a Chubb, que está em curso e pode ser fechada nos próximos dias, vai reduzir as apólices de BAR de 16 sondas para quatro (as que estão em estágio mais avançado de conclusão). Outras seis, em estágio inicial, vão receber uma cobertura diferente, para obras paralisadas. As demais não terão qualquer proteção e serão abandonadas. O contrato deverá ser fechado pela seguradora-líder, a Chubb. Bradesco Seguros, Fairfax, BB Mapfre serão cosseguradoras, apoiadas por outras 30 resseguradoras internacionais. Procurada, a Chubb não quis dar entrevista. Bradesco Seguros, Fairfax e BB Mapfre não comentaram a operação. A Sete Brasil, que tem pressa para fechar o contrato, também não se pronunciou.