Finanças

O negócio do China

Com a compra da gestora Rio Bravo, de Gustavo Franco, o Grupo Fosun, do bilionário chinês Guo Guangchang, fincou sua bandeira no País. E isso é só o começo

O negócio do China

Castro e Silva, o homem de confiança: “Buscamos oportunidades no Brasil que façam sentido para nosso portfólio”

A mistura de sotaques aumentou na sede paulista da gestora de ativos Rio Bravo no fim de junho. Ao chiado carioca do fundador e ex-presidente do Banco Central (BC), Gustavo Franco, e do sócio Mario Fleck, e ao cantado paulista do diretor Paulo Bilyk, juntaram-se o acento lusitano de Diogo Castro e Silva, diretor do fundo de investimentos chinês Fosun para a América Latina, e a entonação mandarim da comitiva que o acompanhava, liderada pelo bilionário Guo Guangchang, fundador do Fosun. Guo comprou, no fim de junho, o controle da gestora, que administra R$ 10 bilhões em investimentos, por um valor não divulgado.  “Para nós, a compra da Rio Bravo faz muito sentido, porque eles são uma plataforma eficiente de investimentos e temos uma visão convergente do País”, diz Castro e Silva, homem de confiança de Guo por aqui. “A indústria de investimentos é global, mas o olhar tem que ser local.” Franco, Fleck e Bilyk continuam à frente da gestão.

Apesar de tantos idiomas e sotaques, em comum eles tinham o linguajar financeiro. Com sua primeira aquisição no Brasil, Guo pode estar entrando em um novo mercado, mas não em um novo negócio. Ele tem nove outras gestoras, espalhadas pela China, Bélgica, Alemanha e Reino Unido, fora os bancos comerciais e de investimentos, além de ativos que ultrapassam US$ 50 bilhões. E não deve parar por aí. “Buscamos oportunidades no Brasil que façam sentido para nosso portfólio. Não temos um montante definido e nosso objetivo é de longo prazo”, afirma Castro e Silva. Ele não comenta os rumores de que está negociando a compra de uma seguradora no País, mas reconhece que o setor é estratégico para o grupo.

Segundo um levantamento da empresa de informações financeiras Dealogic, o Grupo Fosun investiu mais de US$ 10 bilhões fora da China em 2014 e em 2015, sem contar outros US$ 2,5 bilhões aplicados na compra do controle ou de participações em seis companhias chinesas. Listado como o 19° homem mais rico da China, com uma fortuna estimada em US$ 5,6 bilhões, Guo é chamado pela imprensa internacional de “Warren Buffett chinês”. Ele tem uma estratégia parecida com a do bilionário americano: comprar ativos com receitas recorrentes, como seguradoras e imóveis, que lhe garantem caixa para financiar a aquisição de fatias ou do controle de companhias voltadas ao consumo. Até 2009, Guo concentrava suas tacadas em seu país de origem. Ao lado dos imóveis, mineração e siderurgia estavam no topo da lista, tendo em vista os investimentos em infraestrutura do governo de Pequim.

O Fosun começou a investir fora da China, a partir de 2010, com a compra de uma fatia de 7,1% da cadeia francesa de resorts Club Med. Hoje a participação dos chineses é de 88%. A mudança não foi apenas geográfica, também foi estratégica. Com a formação de uma classe média chinesa, Guo passou a investir em setores de consumo, como a rede asiática de cafeterias Secret Recipe Cakes & Café. Em produtoras de filmes e games, alimentos e até em grifes italianas, como a Raffaele Caruso, que passou a dominar o guarda-roupa do bilionário chinês, além de segmentos como saúde, saneamento e lazer.

A Rio Bravo é a quarta aquisição deste ano. Antes disso, o conglomerado chinês havia comprado o time de futebol  inglês Wolverhampton Wanderers, por US$ 59 milhões, uma fatia de 35% do fundo de investimento chinês Shanghai Fosun Chuanghong, e 10% da administradora francesa de resorts de esqui na Europa, entre elas Valmorel e Chamonix, a Compagnie des Alpes.

A diversificação geográfica também visa reduzir a exposição às peculiaridades chinesas. Guo sumiu por quatro dias em dezembro passado, quando foi convocado pelas autoridades chinesas a prestar esclarecimentos em uma investigação sigilosa. Quando reapareceu em público, em março, ele anunciou uma nova mudança de foco. Agora, sua aposta será em mercados emergentes, como Rússia, Índia e Brasil, uma vez que Estados Unidos e Europa oferecem menos possibilidade de ganho.

O grupo foi fundado em 1992 com menos de US$ 2 mil por cinco recém-formados da universidade Chinesa Fudan. Além de Guo, entre os fundadores estão os hoje bilionários Liang Xinjun, Wang Qunbin, Fan Wei e Tan Jian. Formado em Filosofia, e praticante de tai chi chuan, Guo Guangchang nasceu em uma pequena cidade na região de Zhejiang, hoje um pólo industrial. Seu conterrâneo, Jack Ma, o fundador do e-commerce Alibaba, é o segundo homem mais rico da China, com uma fortuna estimada em US$ 28,8 bilhões. Além dos dois, a região produziu outros 18 bilionários.