Finanças

O dono da empresa sem dono

Ao fundir BM&FBovespa e Cetip, Edemir Pinto cria um monopólio e bloqueia as bolsas internacionais

O dono da empresa sem dono

Só Alegria: Pinto, desde já o futuro CEO da nova empresa, no centro de operações (foto: Silvia Costanti / Valor)

Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa, mostrou discretamente a que veio durante a entrevista coletiva realizada na manhã da segunda-feira 11, em um hotel na zona sul de São Paulo. A uma pergunta sobre quem seria o principal executivo da empresa resultante da fusão entre a BM&FBovespa e a Cetip, anunciada na noite de 8 de abril, ele respondeu, simplesmente: “Serei eu.” E acrescentou, em seguida: “o Gilson [Finkelsztain, CEO da Cetip] já está convidado para ser um dos dois novos membros do Conselho, e vamos fazer muita força para ele aceitar.”

A Cetip, empresa que registra a quase totalidade dos títulos de renda fixa negociados entre investidores, é uma entidade crucial para o mercado financeiro. É de praxe no minueto das associações entre empresas que o nome do líder da entidade resultante seja um dos pontos mais discutidos. É nessa etapa que muitas tratativas emperram. Apesar da negociação demorada, porém, poucos duvidaram que Pinto, no comando desde 2008, quando BM&F e Bovespa costuraram suas atividades, permaneceria no cargo.

A principal justificativa para a predominância de Pinto é a estrutura de capital da BM&FBovespa. Não há um controlador definido, 71% das ações estão pulverizadas pelo mercado, e os maiores acionistas são bancos e o CME Group, proprietário da bolsa de Chicago. O caso da Cetip é muito parecido. O percentual pulverizado chega a 81% e os maiores acionistas, também distantes do controle, são a Inter Continental Exchange (ICE), dona da Bolsa de Nova York, e a gestora de fundos americana BlackRock. Em empresas desse perfil, o poder tende a se concentrar nas mãos dos executivos, e não dos conselheiros. 

Não por acaso, o ex-ministro do Planejamento Pedro Parente, presidente do Conselho da Bolsa, aparece pouco. A costura da nova super-Bolsa é mais uma prova da vivacidade política de Pinto. Tendo entrado na BM&F em 1986, ele ascendeu à superintendência-geral em 1999, com a morte do antecessor Dorival Alves, que estava no cargo desde a fundação. Antes de 2007, quando da desmutualização e da abertura de capital, as bolsas pertenciam às corretoras, que indicavam seus presidentes para mandatos de dois anos. Nessa estrutura de presidentes mutáveis, o superintendente geral acumulava mais poder do que o presidente.

A função exigia saber intermediar conflitos, aparar arestas e contentar os sócios, algo que Pinto sempre fez com maestria. Nada mais natural que ele presidisse a BM&F após a abertura de capital, naquele ano. A união entre as bolsas, em 2008, foi mais uma grande vitória para o executivo, sempre com bom trânsito entre as autoridades do mercado. A operação com a Cetip ainda terá de ser aprovada pelo Banco Central, pela Comissão de Valores Mobiliários e pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em um prazo de até 330 dias.

Apresentada como uma fusão, a transação representa um desembolso de cerca de R$ 12 bilhões pela Bolsa, dos quais R$ 9 bilhões em dinheiro e o restante em ações, proporção que pode mudar, dependendo das cotações. Uma das maiores transações no mercado financeiro brasileiro, o negócio deixa Pinto no comando de uma verdadeira máquina de fazer dinheiro. Em 2015, o faturamento conjunto foi de R$ 3,5 bilhões, e os lucros foram de R$ 2,7 bilhões, uma margem de 77%. Somando-se os valores imediatamente anteriores ao anúncio, a nova empresa nasce com um valor de mercado de R$ 39,2 bilhões. Os acionistas gostaram.

Na quarta-feira 13, em termos reais, as ações da Bolsa fecharam no seu maior nível desde setembro de 2010. Nem todos, porém, demonstraram o mesmo entusiasmo. As corretoras, que precisam da Bolsa para processar suas transações, temem a concentração do mercado em uma única corporação. “Hoje, as corretoras têm uma força muito limitada contra a Bolsa e vivenciam uma situação de monopólio”, diz Caio Weil Villares, diretor da corretora Concórdia e presidente da Ancord, associação do setor. Segundo ele, essa tendência deve se acentuar.

As bolsas no mundo atravessam os estágios finais de um processo de consolidação. Ao construir o que, na prática, é um monopólio das operações de mercado, concentrando ações, derivativos, câmbio e renda fixa, a transação truncou as possibilidades de a ICE crescer no País e instalou a bolsa de Chicago em uma posição confortável no mercado brasileiro. Esse monopólio, porém, já começa a ser contestado (leia reportagem aqui). Procurado, Edemir Pinto não deu entrevista à DINHEIRO sobre essa polêmica.