Finanças

Os compradores de encrencas

Massas falidas de bancos que quebraram, como o BVA e o Rural, atraem o interesse de financeiras independentes especializadas em empréstimos problemáticos

Os compradores de encrencas

Caçadores: Eurico D'Amorim (à esq.) e José Zanus, dois dos fundadores da IFConsultant, em frente à antiga sede do banco BVA, na zona Sul de São Paulo: suando a camisa para comprar a massa falida do antigo concorrente (foto: João Castellano/ Istoe)

A crise de 2008 foi o começo do fim para muitos bancos médios ou segmentados, no Brasil. Pressionados pela retração do crédito e pela aversão ao risco de parte dos investidores, nomes como PanAmericano, Cruzeiro do Sul, Morada e Matone fecharam as portas ou tiveram de ser vendidos nos anos seguintes. No entanto, para alguns participantes do mercado, a crise gerou oportunidades. Na época, instituições menores, como o BVA, do Rio de Janeiro, e a empresa financeira paulista IFConsultant, aproveitaram os problemas dos concorrentes para ganhar espaço.

Hoje com R$ 6,5 bilhões em ativos, a IFConsultant, criada em 2002 pelos sócios Eurico D’Amorim, José Zanus e Sven Olsson, egressos do Citibank, disputou a compra de diversas carteiras de crédito com o BVA ao longo dos anos. Ganhou algumas, perdeu várias. Agora, a operação que tem tomado o tempo do trio tem um gostinho de revanche: por uma dessas ironias da vida, a IFConsultant está disputando a compra da massa falida do próprio BVA, que teve sua intervenção decretada pelo Banco Central (BC) em outubro de 2012 e quebrou em setembro do ano passado.

As estimativas do mercado são de que o banco acumule um passivo de R$ 2 bilhões distribuído entre quatro mil credores. “É hora de darmos o troco”, diz D’Amorim. Em março deste ano, a IFConsultant deu o primeiro passo nessa direção, ao solicitar à Justiça paulista o acesso às informações financeiras do BVA. O juiz Daniel Carnio Costa, responsável pelo caso, negou o pedido por considerá-lo prematuro, pois a massa falida ainda está sendo avaliada. Esta não é a primeira vez que a IF se interessa pelos ativos do antigo concorrente. Em 2012, a gestora tentou comprar uma carteira de crédito do banco, mas os interventores do BC chegaram antes que o negócio pudesse ser fechado.

“Estava tudo bem encaminhado, mas não tivemos tempo”, diz D’Amorim. De onde viria o dinheiro da IFConsultant para isso? Segundo Zanus, há investidores europeus e americanos interessados. Ele não confirma nomes, mas sua empresa possui um relacionamento estreito com a gestora americana Oppenheimer Funds, que possui US$ 208 bilhões sob gestão no mundo e é uma grande investidora em ativos problemáticos. “A questão é que não podemos seguir com a nossa estratégia de captação enquanto não tivermos mais detalhes sobre a operação.”

A IFConsultant não é a única à espera das informações sobre o BVA para dar um lance pela massa falida. A empresa financeira Jive Investments, especializada na aquisição de ativos de crédito problemáticos, também pretende entrar na disputa. Desde a sua fundação em 2010, a companhia paulista já investiu R$ 112 milhões e possui uma carteira equivalente a R$ 4,5 bilhões em créditos não performados, que incluem os ativos do banco americano Lehman Brothers no Brasil, que quebrou durante a crise financeira do subprime. “Temos todo interesse em comprar a massa falida do BVA, até porque compramos uma de suas carteiras antes dele quebrar” diz Guilherme Ferreira, sócio da Jive.

“Também estamos atentos em relação à massa falida do Banco Rural.” Segundo fontes de mercado, outro candidato à compra do espólio do banco que um dia foi controlado por Kátia Rabello é a Recovery do Brasil, empresa de recuperação de ativos que pertence ao BTG Pactual. A Recovery se tornou uma das principais representantes do que é conhecido no mercado como fundos abutres, depois de o banco ter adquirido a massa falida do Bamerindus, no início de 2013. Procurado, o BTG não comentou. Por que alguém compraria créditos dados como perdidos?

A principal justificativa é que o comprador paga pouco, abaixo mesmo da chamada bacia das almas, pelos empréstimos e cobra os devedores com afinco. Qualquer valor recuperado representa lucro. A operação faz sentido também para aqueles que esperam receber parte dos recursos a que têm direito. “Essa solução é mais rápida do que deixar a massa falida tentar recuperar as centenas de créditos pendentes”, diz Ferreira, da Jive. “O desfecho do imbróglio do Bamerindus foi esse, só que demorou 20 anos para sair do papel.” É por isso que os credores do BVA têm pressa.

“A massa falida é uma caixa preta, nunca tivemos uma informação detalhada que permita acelerar esse processo”, diz o empresário Álvaro Drummond Coelho, presidente da Associação dos Credores do Banco BVA (ACBVA), que reúne 120 credores com um total de R$ 100 milhões a receber. Coelho possui direitos de recebimento avaliados em R$ 500 mil. “O caminho entre os lances serem dados e sermos pagos é longo”, diz ele. “Desde a falência ouvimos que vários bancos e fundos estariam interessados, mas nada prosperou.” Outro que aguarda resposta é o engenheiro civil Paulo Coelho, para quem o BVA deve R$ 285 mil.

“Vivo a expectativa de que a modernidade da gestão possa ter chegado à condução do processo judicial.” A massa falida do BVA oferece um atrativo adicional, além dos créditos de difícil liquidação. “Acreditamos que há um conjunto valioso de ativos imobiliários”, diz D’Amorim. Sem acesso aos números, ele não tem uma avaliação precisa, mas os credores estimam que a carteira de imóveis pode valer até R$ 300 milhões, que abateriam boa parte das dívidas.

Nesse vaivém de interessados pela massa falida, um dos expoentes foi o empresário Carlos Alberto de Oliveira Andrade, proprietário do grupo Caoa. O grupo havia investido R$ 500 milhões no BVA e Andrade ofereceu-se para assumir o controle do banco, recomprando títulos por R$ 600 milhões e injetando R$ 600 milhões em uma linha de crédito. A oferta permitiria equilibrar ativos e passivos e recuperar o banco, garantindo sua liquidez. No entanto, não houve negócio. Agora pode haver uma nova esperança para os credores.