Finanças

“Todos os países têm problemas. É hora de investir no Brasil.”

10 perguntas para Fernando Borges, CEO do Carlyle no Brasil e da Abvcap

“Todos os países têm problemas. É hora de investir no Brasil.”

Caça ao tesouro: Fernando Borges, copresidente do Carlyle no Brasil, à procura de raridades no País (foto: RENATO STOCKLER/ NA LATA)

A Operação Lava Jato deve abrir uma ampla janela de oportunidades para os fundos de private equity entrarem nas obras de infraestrutura no Brasil. “Hoje eles são coadjuvantes, mas podem ganhar um papel mais relevante”, diz Fernando Borges, presidente no Brasil do fundo Carlyle, que tem US$ 128,3 bilhões sob gestão no mundo, e da Associação Brasileira de Venture Capital e Private Equity (Abvcap). Borges está prestes a fechar um negócio que, segundo fontes, é a compra da participação do BTG Pactual na rede de hospitais D’Or. Confira a entrevista abaixo.

Como foi o desempenho do private equity no Brasil, em 2014?
A ABVCAP não divulga volume de captação, mas estimo que a indústria tenha levantado US$ 5 bilhões. É um número bom, mas está mais difícil captar. Em 2010, eu passava cinco minutos falando com os investidores sobre macroeconomia e no restante do tempo discutia estratégias de gestão. Agora, é o contrário (risos). 

Houve queda de investimentos e de desinvestimentos ante 2013?

Sim. O ano passado ficou marcado pela incerteza política e isso fez com que os fundos segurassem os negócios. Os investimentos caíram 19,5% em 2014, para R$ 13,6 bilhões, e o desinvestimento também recuou 12,5%, ficando em R$ 4,2 bilhões.

Por que isso aconteceu?
Tivemos apenas uma abertura de capital, no ano passado. Isso fez com que as saídas diminuíssem. Agora, os negócios estão voltando. Existem várias negociações em andamento, que devem ser concluídas se a situação econômica não piorar.

Economia ruim cria pechinchas para o investidor internacional?
Ativo bom tem o preço que merece. Não existe isso de barganha, não importa o cenário econômico. Mas os múltiplos exigidos agora são mais realistas e as empresas brasileiras melhoraram seus processos, marcas e posicionamento de mercado, além de ter vários ativos muito bons disponíveis. 

O Brasil é ainda um bom lugar para se investir?

Todos os fundos operam no Brasil, por uma razão simples: se não estiverem aqui, onde vão investir? Todos os países têm problemas. A Rússia se parece com o Velho Oeste, a Índia é fragmentada, a China depende muito do governo e a África é um continente desconhecido. Indonésia, Colômbia e Peru não possuem escala. O grande investidor não pode se dar ao luxo de não olhar para o Brasil.

Como a questão cambial afeta a decisão de investimento?

Não dá para investir pensando apenas em câmbio. Essa é uma variável que as gestoras não conseguem controlar. Por isso, não deixamos de analisar oportunidades quando o câmbio é desfavorável. O importante é procurar empresas boas, com trajetória de crescimento e que possam ficar no portfólio enquanto o mercado não melhora.

Qual pode ser o efeito da Operação Lava Jato para os fundos?

É difícil avaliar. Os private equities investiram pouco em infraestrutura nos últimos anos. Não há muita exposição direta, eles investem mais em fornecedores da cadeia de óleo e gás. Obras de infraestrutura como concessão de rodovias e de aeroportos são gigantescas e atraíram construtoras e fundos de pensão. Os fundos de private equity ficaram à margem. Agora eles podem entrar, mas não o farão sozinhos.

O País corre o risco de ter sua nota de crédito rebaixada?

Acho que o risco é baixo. As agências de rating deram crédito para o ministro da Fazenda Joaquim Levy. A menos que a fotografia não seja essa que estamos vendo, não aposto em rebaixamento.

Como o Carlyle está, nesse contexto?
Fomos muito ativos até 2012 e, depois da Tok&Stok, passamos a olhar muitas empresas, mas não encontramos o ativo ideal. Agora, estamos com negócios engatilhados, vendo boas oportunidades. É o momento de investir. Se Deus quiser, vamos fechar um negócio logo.

Com qual empresa ou em que setor?
Prefiro não entrar em detalhes.