Finanças

Seguro catástrofe

Proteção contra grandes riscos de engenharia, que cresceu exponencialmente durante as obras do PAC, enfrenta momento de retração no mercado

Seguro catástrofe

Ttragédia mineira: desabamento do viaduto em construção, em Belo Horizonte: riscos de engenharia (foto: MARIELA GUIMARÃES)

Nos últimos três anos, de segunda a sexta-feira, a motorista Hanna Cristina dos Santos dirigia um micro-ônibus com destino a um bairro de classe média baixa nos arredores de Belo Horizonte, ironicamente conhecido como Conjunto Felicidade. Ela fazia o percurso à tarde, enquanto seu irmão Tiago seguia o mesmo trajeto de 12 quilômetros todas as manhãs. No entanto, no dia 3 de julho, ela percorreu esse caminho pela última vez. O viaduto que passa por cima da avenida Dom Pedro I, uma das principais ligações do centro da capital mineira ao estádio do Mineirão, palco da derrota da Seleção Brasileira para a Alemanha cinco dias depois, caiu sobre o micro-ônibus e sobre um carro que trafegava pela via.

A mineira de 26 anos e Charlys Frederico Moreira, de 25 anos, que conduzia o outro veículo, morreram sob os escombros. Outras 23 pessoas ficaram feridas. Esse é o final triste de uma história que começou em fevereiro de 2011, quando tiveram início as obras do BRT Antônio Carlos, sistema de transporte rápido por ônibus, que recebeu investimentos de R$ 580 milhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Copa e dos governos municipal e estadual. A previsão era de que a construção ficasse pronta em maio para que 400 mil turistas e belo-horizontinos pudessem ir e vir dos jogos do Mundial.

A tragédia ainda está longe do fim. Daqui a 30 dias, o laudo sobre as causas do acidente ficará pronto e aí serão apontadas as empresas ou pessoas que devem responder pelo desastre. Segundo a prefeitura de BH, responsável pela obra, ainda é cedo para falar em indenização aos familiares das vítimas e isso será feito em algum momento, sem, no entanto, mencionar quando. A construtora Cowan, contratada para os trabalhos de engenharia, não informou o que vai acontecer de agora em diante nem sequer confirmou se a obra estava segurada. Não seria improvável. “Muitas vezes, a cobertura é insuficiente ou o seguro é malfeito”, afirma Paulo Botti, sócio-fundador da resseguradora Terra Brasis Re. Seguros são uma parte da obra que, felizmente, poucas pessoas veem.

Acionadas apenas quando ocorrem as catástrofes, as seguradoras que cobrem os grandes riscos de engenharia viram essas apólices tornarem-se suas meninas dos olhos quando o Brasil transformou-se num canteiro de obras com projetos de Copa, PAC e Minha Casa Minha Vida. O volume de incorporações, obras ou serviços de construção cresceu 206% em nove anos, passando de R$ 76,9 bilhões em 2002 para R$ 235,5 bilhões em 2011, segundo os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O total de construções de pontes, vias elevadas e túneis teve um avanço ainda maior, de 250%, ao saltar de R$ 1,24 bilhão para R$ 4,34 bilhões.

Com isso, o faturamento das seguradoras, medido pelos prêmios relacionados a riscos de engenharia, também subiu estrondosamente. De 2002 a 2013, essa cifra mais do que triplicou, de R$ 208,9 bilhões para R$ 673,8 bilhões, segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), que regula o setor. Quando se olha o volume de prêmios pagos na categoria de grandes riscos, o total chegou a R$ 20 bilhões, avanço de 12,1% em relação ao ano anterior. Com isso, esse tipo de seguro passou a representar 12,9% do total do mercado. Esse volume se divide em vários seguros.

Os patrimoniais, que cobrem incêndios, explosões, desmoronamentos e erros de engenharia e respondem por 35% do total. Os marítimos e de aviação, que são 25%. Os de responsabilidade civil (que cobrem desastres ambientais e civis) representam 15%; os de seguro-garantia, 15%; e os seguros rurais, 10%. Assim como houve aumento dos prêmios, as indenizações também cresceram. O pagamento da chamada sinistralidade avançou de 40% para 53% entre 2002 e 2013, segundo a Susep. Não foi à toa. Nos últimos 11 anos, houve uma série de acidentes cobertos por seguros.

É o caso do desabamento da estação Pinheiros, na obra da linha 4 amarela do metrô de São Paulo, que provocou um prejuízo de US$ 1,3 bilhão em janeiro de 2007 e foi o seguro mais elevado já feito no País. Os prognósticos para os próximos anos não são tão positivos, devido à desaceleração do crescimento da economia. Com isso, a expectativa é de que os prêmios ligados a projetos de infraestrutura alcancem R$ 1,5 bilhão, avalia Clemens Freitag, diretor de infraestrutura da corretora de seguros americana Aon. “O mercado de riscos de engenharia está ligado diretamente ao total de investimentos do País e, como neste ano deverá haver uma redução nesses números, esse segmento está em retração”, diz Freitag.

De olho nessa mudança, o Itaú Unibanco, que até o dia 4 de julho era dono de uma das maiores carteiras de grandes riscos do Brasil, avaliada em R$ 1,5 bilhão, decidiu abandonar essa categoria e concentrar seus esforços na área de seguros de varejo. “No início de 2013, a categoria de grandes riscos representava 25% do nosso volume, mas, mesmo assim, identificamos que os produtos de varejo como seguro de vida, residência e de automóvel cresceriam em torno de 30% nos próximos anos”, diz Fernando Teles, diretor da área de seguros do Itaú Unibanco.

A nova estratégia da instituição financeira é crescer em produtos que tenham relação com seus clientes de varejo. “A carteira de grandes riscos é promissora, mas ela demandava uma estrutura cada vez mais global.” Quem incorporou a carteira do Itaú foi a americana ACE. Atuando desde 1999 no Brasil com seguros pessoais e comerciais, a ACE passa a liderar o mercado nacional de grandes riscos. “A compra da carteira do Itaú é parte de nossa estratégia de crescer no segmento de grandes riscos na América Latina”, disse Evan Greenberb, CEO da ACE, em comunicado.

José Farias de Sousa, diretor de subscrição do Instituto de Resseguros Brasil, maior resseguradora brasileira, explica que o mercado de grandes riscos vive um momento de desequilíbrio de preços, o que talvez deixe de ser atrativo para algumas seguradoras. “Muitas empresas que chegaram antes ao mercado já carregam o ônus de ter desembolsado valores em sinistros”, diz Farias de Sousa. “As que chegaram agora não sofreram com isso e, portanto, estão mais agressivas em termos de preços.”