Finanças

Barrados no baile

Nova regra da Bovespa, que proíbe a negociação de ações cotadas por menos de R$ 1, pode tirar 48 empresas do pregão. Mas só sai quem quiser

Não é fácil conseguir um horário na agenda de Marcello Stewers. O presidente da Teka mal sai de uma reunião para já entrar em outra, na tentativa de costurar a reestruturação da empresa têxtil. “Estamos cortando custos para melhorar o desempenho financeiro da companhia”, diz. Não fosse o bastante, Stewers ganhou mais um tópico para discutir nos próximos meses: o valor das ações. É que, nos últimos 30 pregões, o preço médio dos papéis foi de R$ 0,41 e, nesse período, eles não chegaram a ultrapassar a barreira de R$ 1, segundo levantamento feito pela Economática a pedido da DINHEIRO. Esse fato teria pouca importância, não fosse o anúncio das novas regras da BM&FBovespa, no dia 14 passado. 

 

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Sede da bolsa: nos últimos dois anos, 25 empresas agruparam suas ações; a medida reduziu

a liquidez, mas elevou os valores negociados

 

Pelo novo regulamento, que entrará em vigor em agosto, as empresas cujas ações são negociadas abaixo de R$ 1 terão de elevar o preço dos papéis, sob o risco de serem barradas na bolsa. Não é uma medida imediata: as companhias que já são listadas terão um ano para se adequar. Passado o prazo, caso não consigam manter a cotação acima desse valor por 30 pregões consecutivos, terão mais tempo para adotar novas medidas e só então haveria o cancelamento da listagem, em caso de descumprimento. “Não queremos ser excluídos; então, vamos estudar a melhor forma de nos adequarmos ao novo regulamento”, afirma Stewers. A Teka não é a única. 

 

Ao todo, 48 empresas teriam a listagem cancelada, caso as regras começassem a valer imediatamente. Essas companhias são representadas por 73 ações chamadas de penny stocks, em referência aos preços que não passam de centavos. Mas ainda não é o fim do baile para empresas como OGX, Estrela, Tectoy e Lupatech. “A saída mais fácil é fazer o grupamento de ações”, afirma Hamilton Alves, analista sênior do BB Investimentos. Isso significa aglutinar, por exemplo, dez papéis em uma única ação. “Essa medida reduz a liquidez, mas aumenta o valor negociado.” Em 2013, 14 companhias adotaram essa estratégia e, em 2012, 11 fizeram o mesmo, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). 

 

Algumas tiveram êxito, como a fabricante de alicates Mundial, que reuniu 120 papéis em um e viu os preços saltarem de centavos para mais de R$ 22, em maio do ano passado. No entanto, eles voltaram a cair para R$ 9 quando ficou provado que boa parte da alta se devia a uma especulação com os papéis, que está sendo investigada pela Polícia Federal. Outro exemplo é a V-Agro, produtora de commodities agrícolas que, no ano passado, fez o grupamento e elevou as cotações para os atuais R$ 3. “O papel não melhorou apenas com o grupamento, mas também por causa da entrada de fundos de investimento”, comenta Adriano Moreno, estrategista da Futura Invest. 

 

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Marcello Stewers, da Teka: ”Não queremos ser excluídos”

 

“Houve melhora nos fundamentos da empresa.” Mas há quem não tenha conseguido dançar no mesmo ritmo por muito tempo. É o caso do Banestes. O banco aglutinou as ações, em 2012, mas elas voltaram a ser negociadas a menos de R$ 1. E agora? “Ainda vamos definir a melhor estratégia a ser adotada”, diz a instituição por meio de sua assessoria de imprensa. Agrupar os papéis tem, por si só, um efeito positivo no preço. Estudo realizado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul aponta que, em média, no dia do anúncio do grupamento, as ações tendem a subir 0,13%. Quando o evento é efetivamente realizado, elas sobem mais 0,46%. 

 

Uma das próximas companhias que devem ver esse efeito é o Santander, que anunciou a operação, em setembro do ano passado. Este ano, empresas menos conhecidas, como Cristal Pigmentos do Brasil, Duxxi Imobiliária, e a famosa MMX Mineração e Metálicos avisaram que seguirão o mesmo caminho. “Em geral, as empresas fazem o grupamento para tentar inflar os preços”, diz Wagner Caetano, diretor da TopTraders. Mas nem sempre é um bom negócio. “Isso dá mais combustível para os investidores continuarem exercendo pressão vendedora e, assim, os papéis tendem a cair”, explica. 

 

Não tem mágica. “Para reverter a situação, o que as empresas realmente precisam fazer é ter uma boa administração.” De todo modo, Caetano não recomenda esses papéis, principalmente em operações de vendas a descoberto (quando o investidor dá ordem de venda mesmo sem ter a ação em mãos, na expectativa de que ela caia ainda mais). “O problema é que essas ações são muito voláteis. Qualquer boato consegue provocar altas exorbitantes e, com isso, o investidor perde. Esses papéis não passam de cassino.”

 

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