Finanças

Rio de dinheiro

Como gestores de investimento, empresas e autoridades cariocas estão resgatando o papel da Cidade Maravilhosa como centro financeiro  

O Rio de Janeiro nunca esteve tão em alta como nos últimos tempos. Além das praias e do Carnaval, a pacificação das favelas, o manancial de petróleo do pré-sal e a perspectiva da Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada em 2016 recolocaram a cidade dos cariocas na rota dos investidores. O bom momento passa pelas finanças do município. 

Saneadas, elas garantiram-lhe o grau de investimento pela agência americana de classificação de risco Moody’s e um empréstimo inédito de US$ 1 bilhão do Banco Mundial. Isso representa um refluxo das más notícias para a antiga Guanabara, que perdeu para São Paulo o status de centro financeiro do Brasil nas duas últimas décadas do século passado. “Esse é um ciclo que dá muito trabalho para reverter, mas não há momento mais propício que o atual para uma retomada do Rio”, diz Eduarda La Rocque, secretária municipal da Fazenda.

 

1.jpg

Arthur Farme D’amoed Neto, diretor de RI da Sulamérica

 

Ex-executiva do mercado financeiro, com passagens por bancos como Itaú e BBM no currículo, Duda, como é conhecida, tem uma meta ambiciosa: recolocar a ginga carioca na rota das finanças. Em vez de concorrer com São Paulo, a ideia é atuar de maneira complementar ao mercado paulista, transformando o eixo Rio-São Paulo em uma versão latino-americana da relação entre Nova York e Boston, nos Estados Unidos. Manhattan é a terra dos bancos e da bolsa. 

 

No entanto, importantes investidores institucionais e gestores de fundos americanos escolheram a capital do Estado de Massachusetts, a mais bucólica e confortável, para viver e trabalhar, afastando-se do estresse, mas sem se distanciarem muito do coração domercado. A ideia é aproveitar a vocação do Rio para áreas como seguros e gestão de recursos, além de identificar novas alternativas de negócios financeiros na capital fluminense. 

 

Uma delas seria a criação de derivativos de petróleo e gás. Outra possibilidade é a abertura de um escritório da bolsa Brasileira de Mercadorias (BBM), incorporada pela BM&FBovespa. “Estamos conversando com a Bolsa, que é simpática à ideia”, diz Duda.

O pontapé inicial foi a criação do Grupo Financeiro Carioca (GFC), em setembro do ano passado. Sua primeira iniciativa de vulto será realizada nos dias 30 e 31 de maio.

 

Inspirados na tradição das companhias abertas de se mostrarem aos investidores em eventos conhecidos como “road show”, os executivos da GFC programaram o Rio Investor’s Day. A meta é atrair investidores para mostrar a eles o potencial da cidade, que inclui não apenas os itens já conhecidos como também uma concentração de administradores de recursos, bancos de investimento e as sedes de algumas das maiores empresas abertas do Brasil. 

 

“Ainda estamos distantes de fazer o Rio voltar a ser um centro financeiro, mas estamos caminhando na direção certa”, afirma José Marcos Treiger, ex-diretor de relações com investidores da CSN e da antiga Aracruz, atual Fíbria, e um dos animadores da GFC e do evento. “Essa iniciativa poderá trazer investimentos relevantes para os setores de petróleo e gás e infraestrutura em geral”, diz Almir Barbassa, diretor financeiro e de relações com investidores da Petrobras, maior empresa do Brasil, solidamente encravada no centro da antiga capital. 

 

“Nosso objetivo é reunir executivos das principais empresas brasileiras e investidores internacionais para mostrar que, além de apresentar um dos roteiros mais cobiçados por turistas, o Rio também é o destino ideal para os investimentos”, disse à DINHEIRO Eduardo Paes, prefeito do Rio.

 

2.jpg

Eduarda La Rocque, secretária da Fazenda: ”Reverter o processo de esvaziamento não é fácil,

mas nunca houve um momento tão favorável ao Rio no passado recente”

 

A habilidade carioca para o mercado de capitais não é recente. No entanto, a quebra da bolsa do Rio após as fraudes atribuídas ao megainvestidor Naji Nahas, em junho de 1989, expulsou muitos gestores e banqueiros da cidade e a maioria migrou para São Paulo. Alguns, porém, resolveram ficar, ainda que fosse apenas por uma questão sentimental. Nos últimos anos, a melhora do ambiente de negócios aumentou o número de gestoras e trouxe vários executivos de volta para casa. 

 

Atualmente, 55 administradoras de fundos estão distribuídas do centro até a Barra da Tijuca, com uma grande concentração de endereços no Leblon. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o Estado do Rio responde por R$ 73,9 bilhões, ou 18,5% do volume de recursos administrados pelo setor em todo o Brasil, perdendo apenas para São Paulo, que possui R$ 221 bilhões, o equivalente a 55,3% do total. 

 

Grandes fundos de pensão, como o Petros, da Petrobras, e o Centrus, do Banco Central, têm sua sede na cidade. “A presença das assets e dos fundos de pensão facilita os negócios devido à proximidade”, afirma Arthur Farme d’Amoed Neto, diretor de relações com investidores da seguradora SulAmérica.

 

Das cerca de 380 empresas negociadas na BM&FBovespa, 122 são cariocas ou fluminenses. Destas, 14 fazem parte do Ibovespa e representam 35% do principal termômetro da bolsa brasileira. As gigantes Petrobras e Vale são uma herança da época em que o governo federal estava sediado no Rio, mas outros nomes importantes começaram suas operações por lá. Os mais famosos são a Ambev, que se originou da antiga Brahma. O grupo EBX, de Eike Batista, a construtora Queiroz Galvão e a seguradora SulAmérica são apenas algumas delas. 

 

4.jpg

 

 

A cidade ainda é a sede da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e de órgãos como a Superintendência de Seguros Privados (Susep). Empresas de atuação nacional, como a Oi, também possuem sede na cidade. Dos 25 mil funcionários do País, 10 mil estão baseados no Estado e cinco dos seis controladores da holding Telemar Participações são cariocas da gema: Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), Previ, Petros, Fundação Atlântico e Andrade Gutierrez. “Se uma companhia chinesa quiser investir no Rio, ela vai precisar da nossa rede”, diz Alex Zornig, diretor de relações com investidores da operadora de telefonia.

 

Bairrismos à parte, a maré de capital que está subindo em direção ao Rio é uma notícia boa para todo o País. Desde que deixou de ser a capital federal, o Rio de Janeiro perdeu progressivamente sua vitalidade econômica e sofreu com os males desse esvaziamento. Além de perder o setor financeiro, o êxodo do poder provocou uma desindustrialização precoce sem substituição para o setor de serviços, um fenômeno que se acentuou posteriormente com a privatização das empresas estatais, CSN e Vale, à frente. 

 

O processo de deterioração social e o aumento da violência afetaram o ambiente de negócios, que vinha sobrevivendo apenas com um setor dinâmico, o da extração de petróleo. “O Rio de Janeiro precisa se reinventar”, diz o economista Fábio Giambiagi, que lançou há duas semanas o livro Rio a hora da virada, em coautoria com André Urani. “As atividades econômicas capazes de gerar oportunidades no futuro não são as mesmas que deixamos para trás nas últimas décadas”, afirma Giambiagi. 

 

3.jpg

Eduardo Paes, prefeito do Rio: ”Nossa intenção é mostrar ao mercado que, além do turismo,

o Rio é um dos melhores destinos para os investidores”

 

As melhorias ocorridas na cidade já foram notadas além-fronteiras e começam a produzir resultados. A edição mais recente da Global Metro Monitor, publicação da London School of Economics, divulgada em fevereiro deste ano, colocou o Rio de Janeiro na décima posição entre as 150 cidades economicamente mais dinâmicas do mundo. Antes da crise, a cidade ocupava o centésimo lugar. “A explosão imobiliá-ria recente é um exemplo que mostra a revitalização da cidade”, diz Giambiagi. 

 

Alta dos preços, disputas por  terrenos e  novas construções em bairros antes considerados perigosos tornaram-se uma parte tão integrante da paisagem carioca quanto os táxis amarelos. “Havia uma demanda reprimida, que vai continuar em alta por muitos anos”, diz Zeca Grabowsky, presidente da incorporadora PDG Realty. “Com o aumento da segurança foi possível expandir os lançamentos para regiões antes deixadas de lado, como a Tijuca.” No entanto, ainda é unanimidade que a cidade ainda não chegou lá. “Faltam itens óbvios, como uma rede hoteleira mais densa e infraestrutura moderna para escritórios e centros de convenção”, diz Treiger.

 

As empresas, claro, só têm a ganhar com a expansão da cidade. “O desenvolvimento do Rio de Janeiro está ligado ao da Light”, afirma João Batista Zolini Carneiro, diretor de finanças e relações com investidores da companhia que fornece energia elétrica para a capital e para outros 30 municípios do Estado. O caso da Light é um exemplo eloquente do que ocorre quando o poder público retoma o controle de áreas antes abandonadas. Até bem recentemente, a distribuição de energia era controlada pelos traficantes em diversas comunidades dos morros cariocas. 

 

Com a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), a Light adquiriu mais de dois milhões de consumidores. “Isso reduz as perdas de energia e melhora o resultado”, diz Carneiro. “Empresas do mundo todo vão querer investir aqui, o que significa mais emprego, mais renda e condições de vida melhores para toda a população”, diz  o prefeito Eduardo Paes.