Finanças

Onda jovem nos investimentos


Eles são jovens. Quase como outros quaisquer. Estudam, paqueram, ouvem música, começam a trabalhar… E fazem quase tudo isso usando a internet. O que os faz diferentes é o interesse pelo mundo supostamente careta das finanças, e o fato de terem levado um pouco dele para dentro dos sites de relacionamento virtual da moda, como o Orkut. Garotos e garotas brasileiros, recém-saídos da adolescência participam hoje de cerca de 200 comunidades financeiras, listas de discussões e grupos fechados de debates na internet. A maior dessas comunidades, chamada ?jovens investidores?, reúne mais de 32 mil participantes, que debatem desde as melhores opções para investir 500 reais até os prós e contras do momento para a compra de dólares. A maioria, porém, tem um interesse muito específico: a Bolsa de Valores, que tem funcionado como um imã para essa nova geração. Do quadro total de investidores pessoa física da Bovespa, a faixa etária de 21 a 30 anos responde no momento por 7,63% do total de contas abertas, com valor aplicado de R$ 3,16 bilhões. ?Gente cada vez mais jovem está descobrindo a bolsa. Como têm a tecnologia na mão, coragem para correr riscos e não guardam a memória inflacionária dos anos pré-Real, eles serão maioria no mercado em pouco tempo?, prevê Ricardo Rocha, professor de finanças do Ibmec-SP e criador do site Mesada.com, voltado para este público.

Halfeld, consultor: ?Questão é saber se a empolgação com a Bolsa sobreviverá à primeira queda?

Até um ano atrás, o estudante paulistano de engenharia Luis Vitor Burti, de 22 anos, mantinha suas economias em uma caderneta de poupança. Apresentado ao mercado financeiro por um colega determinado a ?catequizá-lo?, Burti tornou-se freqüentador assíduo dos pregões virtuais, nos quais aplica cerca de R$ 2 mil por mês e obtém, em média, uma rentabilidade de 2% a 3%. ?Quero conquistar minha independência financeira?, afirma ele. Daniel Esquaiella, um estagiário da fabricante de computadores HP com os mesmos 22 anos, engrossa o coro. ?Todo mundo sonha em ganhar dinheiro?, diz o rapaz. ?E as chances são maiores na bolsa do que na loteria.?

Constatações como esta espalham-se pela internet e amplificam a velha propaganda boca a boca. Peça fundamental nessa aproximação entre pós-adolescentes e mercado financeiro, a rede mundial de computadores facilitou não só o acesso à informação, como se tornou, ela própria, um canal para as aplicações. O sistema de home broker, que permite negociar ações sem sair de casa, é o preferido dos jovens. Cerca de 80% da clientela de 18 a 30 anos da corretora Concórdia, por exemplo, utilizam-no para comprar e vender ações.

A familiaridade com a informática e o distanciamento que ela proporciona do ambiente por vezes formal dos bancos e das corretoras tem estimulado a precocidade entre os investidores. Criador da comunidade ?mercado de ações/opções?, o analista de sistemas carioca Andrews Nobre começou a operar bem cedo, aos 18 anos, no complicado mercado de opções, no qual se negociam contratos futuros baseados no índice Ibovespa. Ali, volatilidade é palavra de ordem. Ou seja, altas e baixas bruscas são regras e não exceção. No primeiro ano de mercado, Nobre amargou um prejuízo de R$ 5 mil. ?O problema era que eu entrava e saía das posições nos momentos errados?, justifica. ?Mas o segredo é não desistir na primeira queda.? Hoje, entre trabalho, faculdade e uma festa ou outra, Nobre arranja tempo para ser o trader da família e dos amigos. Ele montou até um clube de investimentos, chamado Gold, cujo retorno médio tem sido de 3,5% ao mês.

É natural que os jovens exibam um perfil mais arrojado para os investimentos. Afinal, eles em geral ainda não têm contas a pagar nem filhos para criar. Quase por definição, o investidor no início da idade adulta, com a vida toda pela frente, tem capacidade de assumir riscos mais elevados. Com o passar do tempo, o poupador tende a tornar-se mais cauteloso, porque não tem mais tanto tempo para recuperar eventuais perdas. O excesso de otimismo com ganhos imediatos, por outro lado, pode ser perigoso. ?A bolsa é um investimento de longo prazo?, adverte o consultor Mauro Halfeld, autor de livros sobre finanças pessoais que estão entre os mais citados pelos aprendizes de financista. Para Halfeld, o surto de interesse juvenil pelo mercado financeiro coincide com os três últimos anos de altas quase ininterruptas na Bolsa. ?A questão é saber se esta tendência sobreviverá à primeira queda mais forte da Bovespa, que um dia virá.?

Atento a esta realidade, o produtor cultural Enio Martins, de 26 anos, optou por uma estréia mais conservadora na renda variável. ?Comprei só blue chips, como Petrobras e Vale, para não ter erro?, conta. Seu objetivo é ter, no longo prazo, um retorno que lhe garanta uma vida estável, mas simples, bem longe de São Paulo.

A moçada na Bolsa
Peso dos jovens de 21 a 30 anos na Bovespa

Contas abertas 38.755

Porcentagem* 7,63%

Valor aplicado R$ 3,16 bilhões

*em relação ao total de investidores pessoa física Fonte: Bovespa