Finanças

O endereço de grandes fortunas

Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2277, Edifício Plaza Iguatemi, Jardim Paulistano. Hábitat de tribos tão distintas como a turma descolada da África Publicidade e os engravatados da Aracruz Papel e Celulose, este endereço ? numa das áreas mais nobres de São Paulo ? esconde um centro financeiro peculiar. Ali não há bancões de varejo nem financeiras. Nada de guichês de atendimento nem caixas eletrônicos. A torre de 106 metros de altura, bem em frente ao Shopping Iguatemi, abriga em seus 21 andares personagens quase invisíveis do mundo das finanças, como o banqueiro Edmundo Safdié, antigo dono do Banco Cidade, com prestígio (e discrição) comparável ao de mitos como os irmãos Joseph e Moise Safra. Moise, aliás, está por ali também, com a M.Safra & Co., a gestora de recursos de seu lado da família, pilotada pelos seus três filhos homens. Fazem companhia a eles grifes financeiras nacionais, como o Opportunity de Daniel Dantas e a Mauá do ex-BC Luiz Fernando Figueiredo. Além de um seleto grupo de multinacionais, que inclui o alemão Dresdner Bank, o hoje americano Credit Suisse e o sul-africano Standard Bank. A partir de março, a área private do ABN Amro, para clientes de altíssima renda, instala-se no nono andar do condomínio. Na semana passada, caixas de bombons foram distribuídas pelos holandeses aos futuros vizinhos ? concorrentes incluídos. ?Nesse tipo de prédio tem tanto banqueiro que você pára de falar de negócios quando entra no elevador?, brinca Alexandre Borensztein, sócio do Banco Pátria responsável pela área de investimentos imobiliários. ?A Faria Lima é hoje o centro financeiro que importa em São Paulo, e o Plaza é um dos prédios TOP?, avalia.

Subsidiária brasileira do Banque Safdié (instituição com sede na Suíça que concentra os negócios de Edmundo Safdié desde 2002, quando ele vendeu o Banco Cidade ao Bradesco por R$ 366 milhões), a Multi Bank DTVM é a cara do Plaza Iguatemi: low profile e milionária. Seu escritório no vigésimo primeiro andar do banco é privilegiado. Nenhum outro tem a mesma varanda, com uma vista estonteante da cidade. Primeiro inquilino do edifício, Safdié pôde escolher o melhor ponto. O foco da Multi Bank é a gestão de grandes fortunas, a partir de R$ 5 milhões. Funcionando desde 2003, a empresa já cuida de um patrimônio de R$ 300 milhões e está comprando mais um quarto de andar para acomodar a expansão de sua estrutura. ?Este é o prédio mais bonito da América Latina?, diz Safdié, especializado em assessorar clientes europeus interessados em investir no Brasil. Seu escritório é uma pequena galeria de arte, com uma impressionante coleção de relógios, esculturas, estatuetas e pinturas, trazidas em sua maioria de Paris. Há um Di Cavalcanti numa das paredes e uma predileção por representações de três personagens históricos: Joana d?Arc, Napoleão Bonaparte e Golbery do Couto e Silva, braço direito do general-presidente Ernesto Geisel durante a ditadura militar. ?Ele foi o Napoleão brasileiro, fez a nossa revolução?, diz o banqueiro, que era amigo chegado de Golbery.

Por mais que goste do prédio, Safdié nunca fez alarde da localização de seu escritório. Sua preocupação é preservar a privacidade de sua rica clientela. O mesmo vale para muitos de seus vizinhos: empresas sem clientes, que administram recursos próprios, como é o caso de diversos family offices, escritórios de finanças privadas, com analistas financeiros, contadores e advogados que funcionam como bancos com uma conta só. Eles formam um grupo de potenciais clientes cobiçados por gestoras de recursos
como a Mauá, que administra R$ 1,2 bilhão em três fundos de investimento. Para elas, o Plaza é
antes de tudo uma vitrine. ?Estar aqui nos dá uma exposição interessante e nos aproxima do nosso público?, diz Figueiredo, da Mauá. ?Além disso, estou a 7 minutos da minha casa.?

Mesmo para quem está a uma ponte aérea de distância, o Plaza tem suas conveniências. Dono do quarto maior private bank do País, com R$ 5 bilhões sob sua responsabilidade, o carioca Opportunity tem cerca de 40% de sua base de clientes em São Paulo e usa o 17o andar do edifício para atendê-la. ?Este prédio tem umas facilidades que fazem a diferença?, resume Fernando Rodrigues, diretor do banco. Ele já recebeu clientes VIPs no heliponto do Plaza, desceu com eles pelo elevador privativo até o escritório e levou-os para almoçar no badalado Leopoldo (que fica no térreo) antes de devolvê-los à aeronave. Este heliponto, aliás, é uma das vedetes do edifício. Ele é o único do País projetado para suportar cargas de até 10 toneladas, o suficiente para receber o helicóptero do presidente dos Estados Unidos, que pesa 8 mil quilos.

Segurança e sigilo são regras de ouro do lado de dentro desta construção de estilo dito neorenascentista, cuja fachada é adornada por réplicas de moedas de 25 centavos. José Roberto Auriemo, construtor do edifício e dono de 50% dele, é amigo de vários de seus quase 40 inquilinos, mas não está autorizado a revelar seus nomes. Segundo ele, aproximadamente 70% deles são financistas. O aluguel de escritórios no Plaza Iguatemi custa, oficialmente, R$ 85 por metro quadrado. Na prática, fecha-se negócio por algo entre R$ 70 e R$ 75 o metro ? pouco acima da média de R$ 69 calculada pela consultoria Jones Lang LaSalle para prédios comerciais do mais alto padrão.

Com 95% de sua área útil ocupada, por um dos mais exclusivos grupos de inquilinos do País, o Plaza Iguatemi é um sucesso de rentabilidade. Paira sobre ele, no entanto, uma nuvem carregada: o racha entre os sócios da IGW Trust, a empresa controladora do prédio. Exatos 50% das ações são de Auriemo; 25% da Partage Empreendimentos, controlada pelo empresário Adalmiro Dellape Baptista, do laboratório Aché, e 25% dos três filhos do falecido banqueiro Pedro Conde, ex-dono do Banco BCN ? vendido para o Bradesco em 1997 por US$ 1,2 bilhão. O mais velho dos irmãos, Pedro Conde Filho, responsável pela vinda da rede de fast food KFC para o Brasil, nos anos 90, foi amigo íntimo de Auriemo por 35 anos. Um desentendimento pessoal, iniciado há dois anos, fez deles inimigos ? e transformou a sociedade em uma batalha judicial. ?Tivemos uma briga boba, por causa do horário de uma reunião, e nunca mais nos falamos?, relata Auriemo. ?Ele acha que eu poso de dono do prédio.?

Pedro Conde Filho e seu irmão Francisco, donos de 16,6% da IGW, querem sair da sociedade. A irmã deles, Albertina, quer ficar. Problema: Auriemo tem direito de preferência na compra das ações e pretende exercê-lo. ?Por seis vezes estivemos perto de um acordo, mas na hora agá eles sobem o preço?, queixa-se o construtor. Com o metro quadrado do edifício avaliado em aproximadamente R$ 8 mil, o Plaza Iguatemi valeria cerca de R$ 320 milhões. E a participação dos dois irmãos, R$ 53 milhões. O desenrolar do imbróglio, acompanhado de perto por gente com olhos de águia para negócios e dedos rápidos na calculadora, está nas mãos da Justiça.