Finanças

O futuro da Credicard


O destino da gigante Credicard está em jogo. Pioneira no negócio de cartão de crédito no Brasil, com uma base de 5 milhões de clientes e 18% de participação de mercado, a marca poderá desaparecer ou, no mínimo, mudar de mãos. Não por motivos financeiros, já que a empresa esbanja saúde. Mesmo com a concorrência acirrada, seu faturamento saiu de R$ 14,5 bilhões, em 2002, para R$ 17 bilhões no ano passado ? um crescimento de 17%. A razão das dúvidas quanto ao destino da marca Credicard é bem menos nobre: um atrito entre seus três sócios controladores, Itaú, Unibanco e Citibank, que se arrasta há quase uma década. Esse conflito teve um round decisivo na semana passada, quando o presidente da Credicard, Roberto Oliveira de Lima, comunicou a transformação da administradora de cartões em banco. A criação do Banco Credicard teria partido do Citibank, comandado por Gustavo Marin.

À primeira vista, a estratégia tem como objetivo ampliar a quantidade de produtos ofertados pela Credicard, como no promissor segmento de crédito pessoal. Mas há algo além disso. Segundo executivos que acompanham o mercado, a decisão pode fortalecer o Citibank. Explica-se: na condição de banco, a Credicard, com sua gigantesca base de 5 milhões de clientes, passa a competir em pé de igualdade com os sócios brasileiros ? Itaú tem 9 milhões de clientes e Unibanco, 6,5 milhões. Se o Citi levar adiante seu sonho de ser o único dono da Credicard, pode ganhar uma força descomunal no segmento. Mas diante de tal possibilidade, por que Itaú e Unibanco não barraram a operação? Apesar de cada sócio deter a mesma participação, de 33,3%, a gestão da empresa está sob o comando do Citibank, que criou a administradora, em 1970. Itaú e Unibanco chegaram no ano seguinte. Essa vantagem, de acordo com analistas, daria ao Citi uma margem de manobra maior nas decisões estratégicas. Procurados, Citibank, Itaú, Unibanco e Credicard não comentam sobre o assunto.

Há dois meses o Citibank já teria oferecido US$ 1,7 bilhão ao Unibanco e ao Itaú para ficar com todos os negócios da Credicard. A proposta foi rejeitada, não só por causa do preço, considerado baixo, mas também pela inclusão da Redecard (empresa do grupo responsável pela captura e transmissão das transações de crédito e débito) no pacote. A Redecard é tida, hoje, como o filé desse negócio. Seu faturamento no ano passado foi de R$ 43,5 bilhões, mais que o dobro dos R$ 17 bilhões de receita da Credicard no mesmo período. Por isso, apesar das inúmeras tentativas, é bem provável que a Redecard permaneça fora de negociação. Ela se tornaria independente do grupo Credicard, embora permanecesse nas mãos dos três atuais controladores. Já a Orbitall (processadora de cartões, que também pertence à Credicard) tem grandes chances de ser levada pelo Itaú, uma vez que falta ao banco presidido por Roberto Setubal uma processadora de cartões. A aquisição da empresa pelo Itaú poderia ocorrer em sociedade com a IBM, que tem interesse nesse mercado.

Difícil mesmo é prever o futuro da Credicard. Comenta-se que o Unibanco é o mais suscetível a abandonar a sociedade, dependendo somente de uma boa quantia de dinheiro e do sinal verde dos demais controladores. Assim, o páreo duro promete ser travado entre Citibank e Itaú. Em jogo estão uma marca forte e uma valiosa carteira de clientes. Há rumores de que a clientela seria dividida entre as duas instituições e a marca, simplesmente jogada fora. Álvaro Musa, sócio-diretor da Partner Consultoria, desconfia dessa hipótese. ?Alguém deverá vencer essa queda-de-braço e levar também a marca?, afirma. ?Só resta definir o preço.? Há, porém, aqueles que não enxergam tanto problema no fim da grife Credicard. ?As bandeiras mundiais Visa e Mastercad são mais fortes que uma marca tupiniquim?, diz um executivo do setor.

O imbróglio entre os sócios começou, no entanto, com o Unibanco, quando a instituição adquiriu, em 1996, o Banco Nacional e, junto com ele, cerca de 1 milhão de cartões de crédito. A instituição da família Moreira Salles decidiu então que não dividiria aquela carteira com os demais controladores da Credicard. Naquela época, apenas Bradesco e Credicard, além do Nacional, trabalhavam nesse segmento. O Itaú respondeu com a decisão de incorporar 90% do lucro obtido com a venda de cartões feita por meio de suas agências, repassando para a Credicard apenas os 10% restantes. Antes disso, os controladores repartiam igualmente as receitas.

Em outubro de 2002, a relação entre os três sócios azedou ainda mais com a posse de Lima na presidência da Credicard. Como também exercia o cargo de presidente do conselho de administração, Lima acabou assumindo as duas funções. Se houvesse algum conflito de interesse entre as três empresas do grupo, o presidente do conselho seria, teoricamente, o responsável por equilibrar as diversas forças. Detalhe: Lima é um executivo indicado pelo Citibank. Enquanto o tempo passava e o desentendimento permanecia, Unibanco, Itaú e Citibank desenvolveram know how e criaram, nessa ordem, suas próprias emissoras de cartão de crédito. Ao mesmo tempo, os bancos brasileiros investiram pesado no mercado de empréstimo pessoal e de crédito direto ao consumidor, com seus cartões private label (em geral, de uso exclusivo de uma determinada loja). Conclusão: se 30 anos atrás a parceria entre os três bancos era estratégica para o desbravamento do mercado de cartões, ainda inexistente no País, hoje em dia já não é mais. Dividir clientes deixou de ser interessante.

Esses episódios contribuíram não só para corroer o relacionamento entre os sócios como também para alimentar a imaginação do mercado com especulações a respeito do futuro da Credicard. E a transformação da administradora em banco passa a ser interpretada, nos bastidores, como a gota d?água desse mal-estar. Há rumores de diferentes espécies. Segundo uma fonte que preferiu não ser identificada na reportagem de DINHEIRO, a venda da Credicard já estaria sendo negociada para uma companhia que não pertence ao ramo financeiro e que também não está presente no Brasil. A suposição, no entanto, parece ser pouco provável. ?Eles estariam fornecendo munição para um novo concorrente?, diz um especialista. De qualquer forma, as cartas estão na mesa e as apostas sendo feitas.