Finanças

FÁBRICA DE MINISTROS

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC chegou ao poder com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas nenhuma outra categoria é uma fábrica de servidores de primeiro escalão, governadores e ministros como a dos bancários. Luiz Gushiken, ministro da Comunicação, e Ricardo Berzoini, da Previdência, dirigiram o sindicato em São Paulo. O ex-governador e ministro das Cidades, Olívio Dutra, presidiu a organização no Rio Grande do Sul. Zeca do PT, governador do Mato Grosso do Sul, e Wellington Dias, do Piauí, comandaram greves em bancos. Dois dos maiores fundos de pensão do País, Previ e Petros, estão nas mãos dos sindicalistas Sérgio Rosa e Wagner Pinheiro. O que levou os bancários a concentrar tanto poder?

Uma razão óbvia é que eles acompanharam a ascensão de Lula, do PT e de todo o sindicalismo. Mas mesmo dentro dos movimentos sociais, os bancários se destacaram como uma vanguarda financeira e intelectual. Cerca de 40% dos funcionários de bancos de São Paulo têm nível superior completo. João Vaccari Neto, presidente do sindicato de São Paulo, comparece às assembléias de terno e gravata ? para não destoar. A renda dos bancários também é maior do que a maioria das outras categorias importantes no meio sindical. Em média, recebem R$ 2.224 por mês. A própria natureza da profissão ajuda: desde cedo, eles aprendem a administrar e desenvolvem maior capacidade de análise técnica. ?Com mais instrução e um meio que estimula o desenvolvimento profissional, é natural que eles ocupem posições de destaque?, diz Liliana Segnini, professora de sociologia do Trabalho na Unicamp.

Mas não bastava ser a elite financeira do sindicalismo se a categoria não fosse politizada. Os bancários participaram de agressivas campanhas salariais, como mostram as periódicas batalhas com a polícia na rua Boa Vista, no centro de
São Paulo, na década de 90. Mas
foram além de questões financeiras. Participaram de movimentos nacionais, atacando as privatizações, cobrando o reajuste do salário mínimo e sendo a primeira categoria a vestir a camisa preta para protestar contra o então presidente Fernando Collor. ?O sindicato de São Paulo foi fundamental nas lutas democráticas, na constituição da CUT, no fortalecimento do PT?, diz Ricardo Berzoini, que presidiu o sindicato no início dos anos 90.

Uma das explicações para tanta politização pode ser buscada nos guichês do Banco do Brasil ou da Caixa Econômica Federal. Todos os bancários que hoje ocupam cargos de primeiro escalão no governo foram funcionários de bancos públicos. Quando Olívio Dutra entrou para o Banrisul e Gushiken para o Banespa, trabalhar em instituições financeiras oficiais dava grande prestígio. Os bancos públicos eram conhecidos por emprestar dinheiro com objetivos sociais e para projetos de desenvolvimento produtivo. ?Havia muita satisfação em trabalhar num banco que tinha cunho social?, diz a professora Segnini.

Com o passar do tempo, os funcionários dos bancos públicos entraram para os sindicatos e, nos embates diários, desenvolveram as técnicas de negociação e comando. ?Avancei politicamente e desenvolvi minha capacidade de lidar com as questões em público?, diz o governador Zeca do PT. ?O sindicato foi uma escola de política e administração?, completa Berzoini. ?Era preciso manter boa relação com outros sindicatos, com os bancos e administrar uma organização com 70 mil associados.? Luiz Gushiken liderou a maior greve da história da categoria, em 1985, e articulou a criação da lei que estendeu os direitos obtidos em São Paulo aos bancários de todo o País.

Hoje, os sindicatos dos bancários não são tão grandes nem poderosos como nas décadas de 80 e de 90 ? quando realizavam greves que metiam medo nos bancos. Com os programas de corte de gastos, dezenas de milhares de bancários perderam o emprego. Mesmo assim, a categoria continua entre as mais fortes e politizadas do movimento sindical. Em São Paulo, a organização dispensou os recursos do famigerado imposto sindical (descontado dos salários) e vive de contribuições espontâneas dos bancários. Além disso, está envolvido em campanhas mais amplas, como o Projeto Travessia para tirar crianças das ruas. Esse programa foi criado por Berzoini em parceria com o então presidente do BankBoston, Henrique Meirelles ? um bancário que chegou ao poder por caminhos diferentes. ?Desde os anos 40, a categoria se destaca por brigar por questões que vão além do trabalho?, diz Vaccari. ?E isso não vai mudar, ainda mais agora que os bancários exercem maior influência na vida do País.?