Finanças

MARINHO RETOMA RÉDEAS

O casamento não durou sete meses. O divórcio envolveu, de um lado, as Organizações Globo, maior conglomerado de mídia da América Latina, e de outro, Henri Philippe Reichstul, executivo com uma passagem gloriosa pela Petrobras, onde deixou um lucro monumental de R$ 10 bilhões. Na última terça-feira 24, em um comunicado lacônico, a família Marinho avisou ao mercado financeiro que a criação da Globo S/A ? a holding que iria agregar várias empresas do grupo e teria ações lançadas na Bolsa ? seria adiada por tempo indeterminado. Mais: Reichstul participará apenas do Conselho de Administração e deixará a presidência executiva do grupo, para a qual foi contratado no dia 28 de fevereiro deste ano. Roberto Irineu, primogênito do clã dos Marinho, acumulará a presidência do Conselho com a presidência executiva da Globo. A holding Globopar, com atribuições reduzidas, será comandada por Ronnie Vaz Moreira, ex-diretor financeiro da Petrobras.

Reichstul simbolizava o maior passo já dado pela Globo rumo a uma gestão financeira totalmente profissionalizada. Com endividamento de US$ 2,5 bilhões, o conglomerado, assim como o setor de comunicação de uma forma geral, vem sendo duramente atingido pela desvalorização do real. Reichstul desembarcou na companhia com o aval e a simpatia do mercado financeiro. Os bancos viam nele o comandante capaz de cortar custos, vender ativos e preparar uma nova estrutura acionária para o grupo. O passo final seria a criação da Globo S/A, empresa com ações negociadas em bolsa e pronta para receber capitais estrangeiros. Ao longo da curta trajetória de Reichstul, porém, um muro de dificuldades teria sido erguido por três diferentes motivos: resistências internas, instabilidade econômica e o cenário político às vésperas da eleição. ?O problema maior da Globo não é a gestão, mas sim as condições que tomaram conta do Brasil?, diz Lars Schonander, analista do ING Barings em Nova York, que acompanha os papéis da Globopar.?Com o dólar na casa de R$ 3,80, não há muito o que fazer.? A instabilidade sepultou qualquer possibilidade de interesse imediato dos investidores. Diante desse quadro, Reichstul teria apresentado então uma espécie de Plano B. O receituário era duro. ?Duríssimo?, na avaliação de alguns próximos colaboradores. Cortes profundos nos custos seriam realizados e algumas atividades seriam encerradas. Os Marinho teriam considerado precipitada uma ação radical como essa. Foi a gota d?água no relacionamento de Reichstul com a família. Reichstul foi convidado a se unir a eles no conselho de administração e deixar as funções executivas.

Não houve desavenças fortes ou atritos mais ruidosos entre as duas partes. Mas, antes mesmo do ex-presidente da Petrobras apresentar o Plano B, outras considerações já rondavam as conversas dos três irmãos. Em sua avaliação, o momento econômico requer que a família esteja à frente do grupo ? sobretudo diante da eventual vitória de Lula, o que mudaria completamente o quadro político . ?Eles sabem que os contatos com um novo governo não poderia ser delegada a um executivo?, diz um ex-assessor da Globo. ?Reichstul tem a imagem associada ao atual governo.? Comentada em sussurros no mercado, a avaliação tornou-se pública em uma entrevista do empresário Antônio Ermírio de Moraes. ?Com a saída de Reichstul da Globo, José Serra perdeu um parceiro importante?, disse ele à Folha de S. Paulo.

 

Reichstul teria também enfrentado resistências internas. Um embate particular teria sido travado com Marluce Dias da Silva, a toda-poderosa comandante da TV Globo ? que dias atrás se afastou da emissora em função de uma doença. Quando Reichstul foi contratado, ela não teria visto com bons olhos a existência de um intermediário entre ela e a família Marinho. Experiente e habituado ao jogo político, Reichstul acreditava que poderia superar esses obstáculos quando os resultados de seu trabalho aparecessem. Não foi bem assim. Durante sua estada na Globo, ele colheu alguns sucessos, mas também protagonizou tropeços. Em abril, a Globo Cabo anunciou um aporte de seus sócios de R$ 1,4 bilhão ? dos quais R$ 284 milhões viriam do BNDES. A operação ainda está pendente e, só neste ano, as ações da empresa caíram 96%. Daquilo a que se propôs, Reichstul vendeu o controle da NetSat para o empresário Rupert Murdoch e repassou participações da empresa em algumas das afiliadas.

Reichstul passa, mas seus planos, de certa forma, ficam. O ajuste na estrutura é tarefa que Roberto Irineu, talvez em um ritmo mais lento, colocará em prática. ?O projeto de ajuste da Globo é coerente e não pode depender de uma só pessoa?, avalia Petrônio Cançado, analista do Unibanco. ?O mercado espera que esse projeto seja mantido.? Não há perspectivas de outra saída. Além da dívida em dólar, as empresas do grupo têm custos em dólar, como o papel dos jornais e o conteúdo da programação da Net. A receita, porém, é quase toda em reais e muito vulnerável à atividade econômica. O resultado dessa situação aparece no balanço. Em 2001, o prejuízo atingiu R$ 1,2 bilhão. As agências internacionais de classificação de risco, como a Moody?s e a Standard & Poors continuaram reduzindo o rating da Globopar. A saída, esperada pelo mercado, é a entrada de novos sócios ? um projeto por enquanto adiado.