Finanças

Enquanto você competia…

Os australianos, sabidamente, tinham para a Olimpíada de Sydney sonhos maiores do que as 10 medalhas de ouro conquistadas até semana passada. Esperavam que o PIB deste ano crescesse 4,8%, contavam com que 35 mil pessoas ganhassem novos empregos com a expansão da economia e achavam que exportariam ao resto do mundo uma imagem de eficiência e dinamismo. Com os jogos a uma semana do final, pode-se dizer que isso tudo ocorreu. O que não aconteceu, e não deve acontecer, foi a promoção internacional de Sydney como possível capital financeira da Ásia e do Pacífico. Esse plano, ao qual a Olimpíada daria um empurrão, vem sendo sabotado nos últimos dias pela pior crise cambial jamais ocorrida no país. A moeda dos anfitriões olímpicos, o dólar australiano, está rolando ladeira abaixo na mesma velocidade em que Ian Thorpe cruza as piscinas. Nos últimos 30 dias, ela perdeu 2% do seu valor em relação à moeda americana, e fechou a semana valendo pouco mais do que US$ 0,53. Foi a pior marca da história, como tem acontecido a cada novo dia de operação dos mercados. Os otimistas acham que a derrocada vai parar em US$ 0,52. Os pessimistas temem que não.

Enquanto 1,5 milhão de turistas assistem aos jogos e os próprios australianos fazem um pausa para apreciar a festa que montaram, governo e operadores financeiros discutem as conseqüências da anemia cambial. Na quinta-feira, 20, o vice-primeiro-ministro, John Anderson, foi drástico. Avisou que a fraqueza da moeda, associada ao brutal encarecimento do petróleo, já havia provocado um recorde inflacionário em julho. Advertiu que isso poderia levar à elevação dos juros e a cortes nos gastos federais. ?Não é hora de pensar em tolerância fiscal. Temos de ser muito cônscios do que fazemos?, disse ele ao diário Financial Review, de Sydney. Como sempre ocorre nas crises cambiais, as origens do fenômeno não são claras. Sabe-se, por evidência estatística, que a queda do dólar australiano está associada ao esfacelamento do euro, a moeda da comunidade européia. Por que isso ocorre é um mistério. Especula-se, por outro lado, que o escorregão inicial da moeda tenha ocorrido porque o governo não foi suficientemente ortodoxo no trato das despesas públicas. O orçamento prevê superávit fiscal, mas o mercado o acha insuficiente. Além disso, há o débito externo aparentemente elevado e uma certa dificuldade do país em competir nos mercados de alta tecnologia. Mas tudo isso é bastante impreciso. O certo é que a crise cambial irá embora da forma como veio, um dia desses. Até lá, a Olimpíada terá acabado e, com ela, a oportunidade de vender a Austrália como novo e estável centro financeiro.