Finanças

Batalha pelo ouro da Previ

Poucas cidades do País terão uma campanha eleitoral tão tensa, este ano, quanto a que sacode a Previ desde a semana passada. Um eleitorado de 118 mil pessoas, igual a de uma cidade do porte de Americana, em São Paulo, tem até terça-feira para escolher os diretores que representam os funcionários do Banco do Brasil no comando do maior investidor institucional do País, com ativos de R$ 32 bilhões. O gigantismo da fundação levou o amadorismo das disputas sindicais para longe da campanha. As quatro chapas no páreo saíram em busca de apoio político e de dinheiro. Grandes grupos privados, atraídos pelo poder de uma das diretorias em jogo, a de Participações, capaz de transformar pequenas empresas em grandes potências, não quiseram ficar de fora e se ofereceram para financiar chapas. É assunto delicado. Fernando Amaral, candidato da chapa 3, afirma ter sido procurado por uma empresa que ofereceu uma ?cortesia? de R$ 250 mil e que sustentou já ter negociado com outros competidores. A proposta, diz, foi rechaçada na hora. As demais chapas, porém, não querem admitir publicamente sequer ter sido procuradas. ?Há muita hipocrisia sobre financiamento de campanhas?, diz o deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), bancário e defensor fervoroso da chapa 5, a favorita dos sindicatos.

Regras frouxas. A regulamentação eleitoral da Previ, frouxa para os padrões da democracia brasileira, está na raiz do tabu. Receber dinheiro de fora não é proibido, mas as chapas não são obrigadas a declarar quanto gastam, nem a origem dos recursos. É tudo legal. Aos olhos dos votantes, porém, o dinheiro das empresas é imoral e pode acabar em compromissos indevidos. Uma canetada do diretor de Participações pode capitalizar uma empresa de uma hora para outra ou incluí-la em uma privatização. Grupos do porte de Vicunha, La Fonte, Opportunity, Inepar e até Bradespar deram suas maiores tacadas nos últimos cinco anos em parceria com a Previ. O primeiro passo para se montar uma campanha, que é escolher um caixa, todos deram, embora neguem em público. Mesmo a chapa 1, pobre e sem ligações com política partidária ou sindical, chegou a convidar pessoas para a função. Mas seu projeto, visto como sem ambições reais de vitória, acabou sem dinheiro. Já quem conhece as campanhas por dentro afirma que as chapas 3 e 5, apoiadas por sindicalistas, e 7, mantida por associações atléticas do banco, foram alvo do interesse dos empresários. Uma pessoa com acesso ao caixa de todas afirma que a 7, de Vitor Paulo Gonçalves, o atual diretor de Participações da Previ, fez orçamento para uma campanha de R$ 2 milhões. A 3, de Fernando Amaral, teria previsto gastos de R$ 1,3 milhão, e a 5, do diretor de Planejamento, Arlindo Magno de Oliveira, de R$ 1 milhão. Tudo oficioso. E negado categoricamente pelos candidatos.

De certo, apenas o fato de que a Previ dá R$ 20 mil para cada chapa custear viagens. O resto é por conta de cada um. Cada folheto enviado por mala direta, por exemplo, custa R$ 0,40 nos Correios. Para 118 mil votantes, o custo por remessa é de R$ 47,2 mil. Isnard Kosby, da chapa 1, diz que o grupo de Vitor Paulo fez mais de dez remessas. O candidato minimiza. ?Pagamos mais barato. Temos gente na nossa base que é franqueada dos Correios?, diz Vitor.

Os eleitores, curiosamente, observaram a briga com relativa indiferença. Antes do início da votação havia 60% de indecisos, segundo pesquisa da Toledo & Associados, feita para sindicatos que apóiam a chapa 5. A pesquisa serviu indevidamente de munição para sindicatos que apóiam a chapa 3: eles publicaram anúncio atribuindo a pesquisa ao BB e dizendo que apontava vitória da chapa, com 43% dos votos. O caso foi à Justiça: a Toledo processou o sindicato.

Enquanto os funcionários votam, a parte da diretoria da Previ indicada pelo BB também está à beira de uma mudança. O diretor de investimentos, Gilberto Audelino, está a um passo de subir para a presidência da fundação. O único fator que pode impedir isso é se o presidente do BB, Paolo Zaghen, considerar o quadro político inoportuno para afastar Luís Tarquínio, atual presidente. A ascensão de Audelino abriria espaço para Luís Luz, superintendente da BB DTVM até a semana passada, assumir a diretoria de investimentos.