Finanças

Abacaxi na garganta

Os controladores do Banco Boavista estão contendo a respiração para não soltar um suspiro de alívio. Adquirida em 1997 por apenas R$ 1, a instituição tinha mais furos que uma peneira e consumiu US$ 850 milhões em aportes de capital. Na semana passada, seus diretores torciam para que o Bradesco fechasse acordo sobre o valor para passá-lo adiante: R$ 470 milhões. Essa cifra é suficiente para cobrir o valor de alguns compromissos que foram transferidos para os atuais proprietários, o grupo Interatlântico. E permite também que o banco paulista recupere quase tudo o que pagar, através dos créditos fiscais em poder do Boavista. Se o Bradesco topar, os portugueses do Banco Espírito Santo, os franceses do Crédit Agricole e o grupo Monteiro Aranha soltarão fogos para comemorar a venda de um banco que, por pouco, não desistiram de comprar três anos atrás.

Uma fonte próxima ao banco Espírito Santo contou a DINHEIRO, na semana passada, que a intenção original do grupo português era comprar o Banco Meridional, no leilão de privatização. Porém, numa reunião com Claudio Mauch, do BC, um dos diretores da holding Interatlântico comentou que estava de olho em outros bancos à venda no País. Em julho de 1997, os portugueses haviam sido procurados por representantes do Banco Garantia, que lhes ofereceram o Boavista. Mas o interesse pela instituição, notoriamente mal das pernas, foi pequeno. Semanas depois, porém, o presidente do BC, Gustavo Franco, convidou José Luiz Miranda, presidente da Interatlântico, para uma reunião. Propôs que o grupo comprasse o Boavista. Uma fiscalização havia mostrado que o banco estava quebrado e, se não fosse vendido, seria liquidado.

Miranda gostou da idéia e prometeu vendê-la aos acionistas, desde que seus economistas pudessem analisar em detalhe os números do Boavista ? processo chamado de due diligence, e que pode levar meses. Franco, porém, argumentou que não havia tempo para isso. Os acionistas se interessaram. Mas, ao saber do valor estimado do rombo (na época, menos de um terço do que viria a ser descoberto), ameaçaram desistir e insistiram em fazer a análise. Franco repetiu que não havia tempo. ?Vende-se o banco por R$ 1, e depois fazem-se as correções necessárias?, propôs ele. Para tranqüilizar os compradores, permitiu que tivessem acesso aos dados das últimas fiscalizações do BC. Só que, nessas investigações, não havia sido feita uma apuração detalhada das operações do banco no exterior – estranhíssimas, e responsáveis pela maior parte do rombo. O fim da história é conhecido ? quando abriram a caixa-preta, os compradores encontraram um abacaxi bilionário.