Finanças

Bancos – ser ou não ser, eis a questão

O Brasil é um país coalhado de bancos. Antes do Plano Real contavam-se 261 deles, entre os múltiplos, comerciais e os de investimento. Hoje, depois de quebradeiras e fusões, restam 220, mas esse número deve encolher nos próximos meses. Várias instituições já fizeram consulta ao Banco Central para operar a transformação de seu status para o de simples corretoras ? o que, no caso de muitos, significa voltar às origens. Além de corretagem de títulos, algumas cogitam mudar a situação jurídica para a de ?companhia de investimentos?, o que permitiria drástica redução de custos. Poucas organizações, como o Síntese, de São Paulo, já abdicaram de fato da condição de banco. Mas, entre os possíveis candidatos, há peixes grandes, como o Matrix e o Icatu, e instituições menores, como o Prósper e o Prime, do Rio.

Há vários motivos para esperar a virada. A primeira é que, até 31 de agosto, os bancos precisam se enquadrar nas novas normas do Banco Central que estabelecem limites mínimos de capital e de patrimônio para as instituições. O capital mínimo para um banco comercial, por exemplo, passa a ser 32% maior do que é hoje. De acordo com a última estimativa do BC, feita em meados do ano passado, 89 instituições ainda não tinham condições de se enquadrar nesses limites. Soma-se a isso uma outra resolução, que exige um volume maior de provisões para os créditos de liquidação duvidosa. O resultado é que, para os pequenos e para boa parte dos grandes, ser banco se tornará um negócio menos compensador. ?A tendência é clara. A maioria das corretoras que viraram bancos nos últimos anos tende a virar corretora novamente?, explica Alberto Borges Matias, sócio da Austin Asis Consultoria. ?A estrutura ficou pesada. E os pequenos quase sempre podem continuar fazendo a mesma coisa que fazem hoje, sem a carta de banco?, diz Paulo Roberto Simões da Cunha, diretor da KPMG.

Para muitos, as exigências de estrutura de controle do Banco Central se tornaram sufocantes. Apenas o Cadoc, o Catálogo de Documentos que o BC exige de cada instituição financeira, possui 40 páginas. O diretor de um banco de investimentos carioca conta que preenchia um dos questionários exigidos pelo BC quando descobriu que somente uma das perguntas tinha 25 sub-itens. ?Levei uma semana para preencher. É muito ônus para um banco pequeno?, reclama. Nessa situação, pode ser mais negócio se transformar em companhia de investimento, que, por não ser classificada como instituição financeira, fica fora da alçada de fiscalização do BC.

Na sede do Matrix, em São Paulo, os executivos admitem que o título de banco pode não ser necessário para o funcionamento da empresa. Mas dizem que ainda não há consenso entre os sócios sobre se vale a pena devolver a carta-patente. ?Temos muitas análises a fazer antes de chegar a uma conclusão?, explica um diretor. O mercado especula sobre a possibilidade de o carioca Icatu, da família Almeida Braga, transformar-se também em companhia de investimentos. Mas os executivos da empresa negam a possibilidade.

Pelo menos um banco múltiplo carioca admite a idéia de mudar de status. O Prime, dissidência da antiga corretora Marka, existe como banco desde 1990, mas ainda tem a corretagem como maior fonte de lucro. A tesouraria (que aplica no mercado os recursos próprios de uma instituição) tira algum proveito da condição de banco para conseguir crédito no mercado, e se beneficia da liberdade para captar recursos emitindo certificados de depósitos. Mas não são mecanismos vitais. ?Se concluirmos que o custo não compensa, voltamos atrás?, resume Leonel Machado, superintendente administrativo e financeiro. A diferença entre o patrimônio do banco e necessário para se enquadrar às novas regras do BC é de cerca de R$ 1 milhão. Caberá ao controlador, o presidente da Bolsa do Rio, Carlos Reis, decidir se o negócio vale o preço.

A dúvida sobre as vantagens de continuar como banco surgiu também no Prosper, da família Peixoto de Castro. As fontes de receita do banco podem ser mantidas sem uma carta-patente nas mãos: gestão de recursos, corretagem, tesouraria e crédito para pequenas e médias empresas. Essa atividade, mesmo envolvendo crédito, pode ser feita com uma empresa de factoring, que dá dinheiro em troca de recebíveis e duplicatas. Mas os sócios dizem que manter o banco valoriza o passe na negociação da entrada de um sócio estrangeiro. ?Prefiro me associar a alguém que traga uma placa forte e me permita ganhar escala?, diz o diretor executivo André Petersen. Ele admite, porém, que se isso não ocorrer, a desativação da patente entra no cardápio. ?Se a carta só implicar custo, seria uma alternativa espetacular. Mas ainda não fizemos a conta?, afirma.