Finanças

Baratinho, baratinho

Há três anos, os franceses do grupo Crédit Agricole e os portugueses do Banco Espirito Santo adquiriram o Banco Boavista, do Rio de Janeiro, pela quantia simbólica de R$ 1. Sabiam que se tratava de uma instituição em dificuldades, mas acharam que faziam um bom negócio. Abrir a caixa-preta e tapar os buracos no caixa seria o pedágio a pagar pela entrada no mercado brasileiro. Na semana passada, depois de enterrar quase US$ 1 bilhão no banco, os representantes dos sócios estrangeiros visitaram a sede do Bradesco, o maior banco privado do País, dispostos a passar o Boavista adiante. O grupo da Cidade de Deus se disse disposto a fechar negócio, desde que não tivesse que desembolsar dinheiro. Há alguns dias, despachou uma equipe de economistas para a sede do banco carioca, para checar suas contas e garantir que não havia nenhuma outra bomba-relógio armada ali. Enquanto isso, os diretores das instituições já discutem a engenharia financeira da aquisição ? e, na quinta-feira à noite, conversaram para rascunhar uma nota oficial, na qual admitiam as negociações mas avisavam que elas ainda não estão concluídas.

Entre as fórmulas que foram colocadas na mesa, a que faz mais sucesso até agora é a da troca de ações. O Crédit Agricole e o Banco Espirito Santo, que possuem cada um 40% do Boavista, receberiam pacotes com cerca de 2% de participação no Bradesco. O grupo Monteiro Aranha, o terceiro acionista da instituição carioca, ficaria com uma parcela um pouco menor.

Foi Olavo Monteiro de Carvalho, presidente do grupo Monteiro Aranha e ele próprio um acionista minoritário do Bradesco, quem fez a aproximação entre os estrangeiros e o possível comprador. O presidente do Boavista, Roberto do Valle, havia assumido o banco no ano passado, com a missão de pôr ordem na casa. Foi escolhido a dedo pelos sócios europeus, irritados com o buraco em que haviam se metido. Nos últimos meses, ele próprio passou a defender a venda, depois de defrontar-se com brigas entre os acionistas, que não conseguiam chegar a um consenso sobre como tocar o banco. Se o negócio for realmente fechado, será um alívio para os portugueses do Espírito Santo. Desde o ano passado eles se queixavam que o Boavista era o pior negócio do qual já haviam participado.

A avaliação dos diretores do Bradesco é que, comprando o Boavista, poderão intensificar sua participação no Rio de Janeiro. A instituição tem autorização do BC para abrir 100 agências, além das 75 que já possui. Com ativos de R$ 5 bilhões e depois de uma série de aportes financeiros, a instituição parece mais palatável ao Bradesco ? que, na primeira vez em que o banco foi posto à venda, não se interessou. No mercado, comenta-se que um dos itens que tornaria o Boavista mais digerível seriam os créditos fiscais, da ordem de R$ 400 milhões, acumulados ao longo de anos de prejuízo. Eles seriam, na prática, uma espécie de desconto para o eventual comprador.