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Visão de longo prazo

A fusão entre a italiana Luxottica e a francesa Essilor cria um império do mercado de óculos, avaliado em € 46,3 bilhões e com tentáculos em toda a cadeia do setor

Visão de longo prazo

Foco: Leonardo Del Vecchio (à dir.), fundador da Luxottica, e Hubert Sagnières, CEO da Essilor (foto: Divulgação)

Da infância pobre em um orfanato em Milão ao posto de homem mais rico da Itália. A trilha do empresário Leonardo Del Vecchio, 81 anos, para alcançar uma fortuna de US$ 18,7 bilhões, é singular. Ainda adolescente, ele começou a trabalhar em uma indústria de componentes para óculos. Em 1961, aos 25 anos, fundou sua própria ótica. Nas décadas seguintes, o pequeno comércio batizado de Luxottica transformou-se no maior nome mundial do setor, com uma receita de € 8,8 bilhões.

Um dos passos para a construção desse império foi dado em 1988, quando Del Vecchio firmou um contrato de licenciamento para fabricar os óculos da marca do estilista e compatriota Giorgio Armani. Na sequência, a Luxottica fechou acordos similares com boa parte das principais grifes de luxo, como Chanel, Prada, Versace e Bulgari. Uma série de aquisições trouxe a Ray-Ban, a Oakley e outros ícones do mercado premium para o portfólio de marcas próprias da companhia. Na segunda-feira, 16, Del Vecchio deu mais uma mostra de sua visão apurada para os negócios.

A Luxottica anunciou uma fusão com a francesa Essilor, segunda maior empresa global do setor. O acordo cria a EssilorLuxottica, uma gigante com valor de mercado de € 46,3 bilhões e uma receita superior a € 15 bilhões. “Meu sonho de criar uma empresa global, totalmente integrada e excelente em todas as áreas tornou-se, enfim, realidade”, disse Del Vecchio, em teleconferência com analistas. “Finalmente, armações e lentes, dois produtos naturalmente complementares, vão ser concebidos, fabricados e distribuídos sob um mesmo teto.”

CEO e presidente do conselho da Essilor, Hubert Sagnières reforçou: “Vamos acelerar nossa expansão global para benefício dos clientes, funcionários, acionistas e da indústria como um todo.” O domínio de toda a cadeia do setor – da fabricação até o varejo – é o principal fator destacado pelos analistas ouvidos pela DINHEIRO. A Luxottica é a principal produtora de armações e domina ainda o mercado global de óculos de sol, com uma participação de mais de 50%. A Essilor, por sua vez, é a líder global em fabricação de lentes, com marcas como Varilux e Transitions.

“O fato de a fusão privilegiar a verticalização é um aspecto extremamente raro no mercado de luxo”, diz Amnon Armoni, coordenador do MBA de Gestão Estratégica de Negócios da FAAP. No médio prazo, a companhia estima ganhos com sinergias entre € 400 milhões e € 600 milhões. Analista de acessórios pessoais da consultoria Euromonitor, Jasmine Sang ressalta os desdobramentos dessa estratégia. “A fusão cria uma potência dominante em todas as subcategorias do mercado”, diz. Segundo a Euromonitor, a nova operação terá uma fatia global de 32% no setor, bem à frente da Johnson & Johnson, com 3,9%.

“Trata-se de uma grande ameaça para os rivais globais e locais.” No Brasil, a gigante ficará com 28,3%, e a Chilli Beans, segunda colocada, terá 4,5%. A Luxottica e a Essilor já possuíam operações relevantes no Brasil. A empresa italiana, por exemplo, chegou oficialmente ao País, em 2011, quando comprou a Tecnol, por € 110 milhões. Entre outros recursos, a aquisição incluiu uma fábrica, um laboratório e um centro de distribuição em Campinas, no interior paulista. Atualmente, além de vender seus produtos para outras óticas, a empresa mantém uma rede própria no varejo, sob a marca Sunglass Hut. Já a Essilor possui fabricação em Manaus, entre outros ativos.

“O Brasil é um mercado-chave para as duas companhias e representa cerca de 4% da receita da nova operação”, diz Cedric Rossi, analista do mercado de luxo e de bens de consumo do banco britânico de investimentos Bryan Garnier. Ele acredita que as sinergias operacionais podem resultar em preços mais atraentes para as óticas e para os consumidores locais. Armoni, da FAAP, ressalta: “A concentração, no entanto, é perigosa.” Os analistas apontam outro benefício da fusão. Depois de um hiato de dez anos fora do dia a dia da Luxottica, Del Vecchio retornou ao comando da companhia em 2014.

No entanto, a falta de perspectiva de um sucessor do empresário é apontada como a razão por trás da queda de 9% das ações da empresa no último ano. Após a conclusão do acordo, ele será o acionista majoritário, com uma fatia entre 31% e 38%, e acumulará os cargos de CEO e presidente do conselho. Sagnière será o vice-presidente da operação e do conselho, que será formado por 16 membros, igualmente divididos entre executivos da Essilor e da Luxottica. “Essa composição dilui a preocupação do mercado”, diz Rossi. “De qualquer forma, a empresa estará em boas mãos no futuro.”