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Mandela chique


Foram 17 minutos que fizeram história. O francês Yves Carcelle, presidente mundial da Louis Vuitton, sentou-se diante de uma lenda, o líder sul-africano Nelson Mandela, o homem que derrotou uma idéia, o racismo como forma de poder. Durante o encontro na Fundação Mandela, no bairro de Hougton, na cidade de Johannesburgo, na África do Sul, foi selada a entrada da marca de luxo no país onde até 1994 imperava o apartheid. A breve conversa, para Carcelle, representou uma espécie de bênção do homem mais reverenciado da nação, um dos grandes de todos os tempos, no dia da inauguração da grife em terras africanas. ?É emocionante estar aqui justamente na consolidação da liberdade racial da África do Sul?, disse Carcelle à DINHEIRO. Neste ano celebra-se uma década do fim do regime de apartheid.

Naquela mesma manhã de sexta-feira, 22 de outubro, no terceiro andar do moderno Sandton City Shopping Center, as portas da Louis Vuitton sul-africana abriram-se para receber um grupo seleto de convidados. Foi um desfile de celebridades, autoridades, empresários e executivos ? brancos e negros. É uma fascinante parábola. Aos 150 anos de idade, são raras as marcas a representar com tanta força a aristocracia e o poder econômico como a Louis Vuitton. No catálogo que narra a longa história da grife não aparece um único negro. Despontam, em tímidas aparições, hindus. Eles carregam as malas dos ricos. O próximo folheto publicitário será diferente, sociologicamente diferente. Basta, para isso, que registre o que ocorreu em Johannesburgo em outubro de 2004. Na noite da quinta-feira, durante o jantar que celebrou a chegada da primeira loja LV à África, a 335a do mundo, via-se negros elegantes, com ternos e gravatas ? Louis Vuitton, como manda o figurino ?, batas e colares tipicamente africanos. Dividiam as mesas com os brancos e brindavam com champanhe. Era o avesso do racismo. O espaço, o requintado salão de festa do hotel Saxon, não podia ser melhor. Lá, Nelson Mandela morou, em 1994, logo depois de deixar a prisão de Robben Island, onde passou 27 anos de seus 86 anos.

Nas primeiras cinco horas, a loja faturou US$ 100 mil, com a venda de carteiras, bolsas, malas, sapatos, jóias e relógios. A cada ano um percentual, não divulgado, será destinado à Fundação Mandela, ancorada em projetos sociais, prioritariamente no combate ao flagelo da Aids. Há ainda, evidentemente, na África do Sul, como no resto do planeta, uma segregação dissimulada. Na festa, por exemplo, a grande maioria era branca, apesar de 79% da população da cidade ser de negros.

A abertura da LV em Johannesburgo, contudo, celebrada com pompa e circunstância, traz duas vitórias. Uma é a do próprio ex-presidente Mandela. A outra é da grife. O símbolo do luxo evitou abrir loja no tempo em que ser branco era lei na África do Sul. ?Era um incômodo, tanto que a economia deslanchou com o fim do apartheid?, diz Carcelle. A companhia francesa aposta nesta estratégia, hoje, porque o racismo foi pisoteado. Apesar do crescimento, a situação econômica ainda é típica de um país em desenvolvimento e tem problemas ? como a dependência de recursos estrangeiros ? semelhantes aos do Brasil. Tanto que a nova loja foi incluída na unidade de negócios da América Latina da Louis Vuitton. ?Estou convencido que existe espaço para o mercado de luxo na África?, afirma o presidente da Louis Vuitton, que já planeja abrir uma segunda loja na Cidade do Cabo, ímã de turistas no país. ?Lá, vamos aproveitar a disposição dos forasteiros para fazer compras.? Este ano, os investimentos globais da Louis Vuitton já totalizam US$ 385 milhões. A parceria com Mandela pode não significar muita coisa nesse mar de dinheiro ? mas é evidentemente um namoro digno, sem preconceitos, uma elegante idéia comercial. Nas palavras do próprio Carcelle, tudo deve ser entendido por meio de um simples raciocínio: ?Chique é quando você ganha um objeto e ele enche seus olhos?. Como encheram seus olhos, de emoção, as palavras do líder negro, ao lembrar naqueles 17 minutos especiais os anos de prisão. ?Tive que controlar o choro?, reconhece Carcelle.

?ESTAMOS OTIMISTAS COM O BRASIL”
O presidente mundial da Louis Vuitton anuncia novos investimentos para o País

ENCONTRO: Carcelle
e Mandela logo depois
do acordo selado


O francês Yves Carcelle comanda a Louis Vuitton em todo o mundo há 15 anos. Durante esse período, o número de lojas passou de 55 para 335. Ele fez mais: pôs roupas e jóias num catálogo onde antes havia apenas malas e bolsas. ?O mercado de luxo tem espaço garantido em qualquer lugar do mundo?, afirma. Descontraído e sorridente, Carcelle falou com exclusividade à DINHEIRO.

DINHEIRO ? Quais são os planos da grife para a América Latina?
YVES CARCELLE ? ?A próxima inauguração será em Cancún, no México. No Brasil estamos bastante oti-
mistas, afinal somos líder no mercado de luxo brasileiro. Vamos ampliar a nossa loja no charmoso shopping Iguatemi, em São Paulo, e abriremos uma nova loja
na Daslu. Em breve lançaremos uma nova coleção
com fotos da Gisele Bündchen.?

Por que vocês juntaram a América Latina e a África do Sul numa única unidade?
?São mercados marcados por ciclos econômicos ? são, portanto, instáveis. Apresentam ondas de crescimento e de queda. O mercado de luxo, porém,
não é afetado diretamente por esses ciclos.?

Há uma explicação para o mercado de luxo não sofrer com esses ciclos dos países em desenvolvimento?
?Trabalhamos com uma classe da sociedade que não perde o poder aquisitivo no mesmo ritmo dos indicadores econômicos.?

Por que abrir uma loja na África do Sul?
?A economia do país está em franca expansão e estamos aproveitando oportunidades em todo o mundo. Estamos ampliando também nossa presença na Ásia.?