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AS REVELAÇÕES DE ABILIO DINIZ

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“Posso dizer que minha vida foi tudo, menos comum”

 

 

Abilio Diniz em dois números: 6,5% e US$ 1,3 bilhão. O primeiro indica sua taxa de gordura no corpo. O segundo aponta a fortuna de um dos homens mais ricos do planeta, a quarta maior riqueza do Brasil. Ambas as cifras, cada uma a seu modo, ajudam a definir esse homem de 1m80, 64 anos e pele eternamente bronzeada de sol: a obsessão com o esporte e a revolução administrativa que tirou o Pão de Açúcar da quase insolvência para o posto de campeão do varejo no País. Abilio era gordinho e costumava apanhar dos amigos de infância (hoje corre 10 quilômetros todas as manhãs e faz pelo menos três horas de ginástica diárias). No auge da crise, entre 1988 e 1992, o grupo chegou a reduzir o quadro de funcionários de 45 mil para apenas 17 mil pessoas. Hoje são 70 mil empregados e um faturamento, em 2003, de R$ 12,8 bilhões. Essas duas facetas brotam do livro Caminhos e Escolhas ? O Equilíbrio para uma Vida mais Feliz (Editora Campus/Elsevier, 208 páginas, R$ 29,90).

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“Não me façam morder a língua que eu não sinto gosto de sangue”

 

 

É o livro do Abilio, misto de biografia com auto-ajuda.?Quero transmitir o que passei em momentos decisivos da minha vida, e de que modo eles me transformaram?, disse à DINHEIRO. ?É didático na medida em que conto meus erros para que outras pessoas não os repitam.? Os instantes seminais na carreira de Abilio, a matriz do que ele diz ter sido a travessia da arrogância para a humildade, são três: os sete dias de seqüestro em dezembro de 1989, a guerra fratricida com os irmãos pelo controle do Pão de Açúcar e a quase falência da empresa. ?O sofrimento que esses três acontecimentos me trouxeram foi imenso?, diz Abilio. ?Principalmente em seu período crítico, entre o fim de 1989 e o de 1992?.

A partir deles, o empresário desenvolve uma espécie de manual de sobrevivência. Trata de atividade física, de alimentação, de estresse, auto-conhecimento, amor e fé. Atrairá o interesse, evidentemente, dos brasileiros adeptos desse tipo de publicação, e eles são muitos. O volume chega às livrarias com tiragem de 30 mil exemplares, patamar de best-seller. Mas o que o faz especial são as confissões a respeito de assuntos que ele sempre evitou, especialmente o trauma do cativeiro e o combate nada fraternal dos Diniz (leia trechos ao longo desta reportagem). Foi escrito a quatro mãos pelos jornalistas Mariella Lazaretti e Ricardo Galuppo. Durante um ano, desde fevereiro do ano passado, eles tiveram reuniões semanais, sempre às sextas-feiras, a partir das 15 horas, e durante 120 minutos, num recinto de reuniões contíguo à antiga sala de Abilio, onde ele guardava os troféus esportivos (hoje ele trabalha num salão sem divisórias, com outros diretores). Gravaram os depoimentos, cada um escreveu um capítulo, cruzaram informações e textos para depois submetê-lo, por meio de leituras em voz alta, à aprovação de Abilio.

Depressão. O resultado é quase uma autocrítica de um homem
que caiu em depressão, fez terapia e teve que tomar medicamentos. ?Esse aprendizado me transformou num homem mais sereno, mais tranqüilo e mais humilde do que eu jamais tinha sido até os meus 52 anos?, diz. Num dos relatos, Abilio narra uma discussão acalorada com um vizinho de prédio por causa da demarcação das vagas na garagem. Quase saíram no tapa. Um belo dia, anos depois de muito refletir, encontrou o homem no elevador. Esticou as mãos, cumprimentaram-se, pediu desculpas e o perdoou. A questão: e se encontrasse num elevador com os seqüestradores, os perdoaria?
?Não cabe a mim perdoar ou culpar?, diz. Induzido a comentar mais a fundo essa situação, Abilio franze a sobrancelha, fica ligeiramente rubro e prossegue. ?Não me façam morder a língua que eu não sinto gosto de sangue?, resume. ?Ainda sou rápido, tenho destreza, e estando armado, certamente atiraria.? É o velho Abilio, para quem a distância entre intenção e gesto é curtíssima. DINHEIRO conversou com Humberto Paz, o líder da operação de dezembro de 1989, hoje morando na Argentina, próximo a Buenos Aires, onde estuda pintura a óleo, ofício aprendido em nove anos no Carandiru. ?Compreendo a mágoa de Abilio, sobretudo para alguém como ele, que foi sempre
o líder, seguro de si, dono das ações. Mas nunca tivemos nada pessoal contra o homem. E é preciso ficar claro: fomos julgados, condenados e já cumprimos a nossa sentença.?

A surpresa: Abilio considera a briga fratricida pelo controle do grupo Pão de Açúcar mais grave que o próprio seqüestro. ?Um seqüestro, no limite, termina em morte, a briga com os irmãos, não, é apenas o início do sofrimento?, afirma. Ao final da queda-de-braço, ele ficou com 51% das ações. Outros 41% estão com o pai, Valentim, hoje com 90 anos de idade, e 8% com a irmã, Lucilia. Os outros irmãos, Alcides, Arnaldo, Sônia e Vera saíram do jogo com o bolso cheio de dinheiro. Em troca de 10% das ações, Alcides, o Cidão, levou US$ 120 milhões
em 1988. Arnaldo, estima-se, recebeu cerca de US$ 60 milhões ao se desfazer de sua fatia. Para o manda-chuva do Pão de Açúcar, hoje afastado das funções executivas, numa iniciativa de modernização da empresa, entregue a um profissional, a reunião em que o tiroteio com os irmãos chegou ao ápice foi ?a tarde de São Bartolomeu?. É uma referência ao episódio histórico, na noite de 24 de agosto de 1572, na França, em que 20 mil huguenotes, como eram chamados os protestantes, foram massacrados pelas forças comandadas por Catherine de Médicis, viúva do rei Henri II. Nos momentos mais duros, sabe-se que os Diniz quase se estranharam fisicamente, no muque. São águas passadas que agora repousam no papel.

Deus. O Abilio de hoje, revela-se no texto, é carola. Direto ao ponto: ele fala com Deus. ?Tenho certeza de que sou ouvido. Com Santa Rita chego a ter mesmo uma relação de amizade sincera e camarada, como se ela fosse alguém de carne e osso para quem dou um telefonema. Com Deus não é diferente, embora nossa relação seja um pouco menos informal?, escreve. Reza o tempo todo, sobretudo na solidão das atividades esportivas, correndo, nadando ou nos aparelhos de musculação, orientado por um personal trainer, Paulo Storti, que o acompanha há 12 anos e hoje dirige a academia Pão de Açúcar, instalada num edifício em frente à sede da companhia, em São Paulo. Distante das responsabilidades executivas, Abilio toca a empresa com a influência de seu jeito de ser. ?De algum modo meu DNA, e o de meus filhos, passou para o dia-a-dia do Pão de Açúcar?, diz. Volte-se, então, ao que o define mais que tudo atualmente: o zelo com o corpo e a alma. Nesse aspecto, o livro é uma espécie de evangelho de Abilio. Exagero? Não.

Na segunda-feira da semana passada ele abriu a tradicional plenária das 7h30, encontro ritual com cerca de 250 diretores do Pão de Açúcar, com o seguinte comentário: ?Sentia-me frustrado como pastor, porque minhas ovelhas estavam rebeldes?, disse. Referia-se, em tom de brincadeira, aos funcionários que não aderiram à atividade esportiva. Comentou, em seguida, um e-mail de agradecimento do diretor comercial, o sedentário Sérgio Noia, que tivera uma conversa com Abilio a respeito da pressão alta e que fora levado a praticar ginástica. Naquela mesma segunda, Noia iniciaria as atividades com halteres. Os dois se encontraram na hora do almoço, na academia. Abilio aproximou-se do diretor. ?É isso aí, gostei de ver.? Virou-se para o personal trainer, apontou o dedo para Noia e disse: ?Quero vê-lo, daqui uns dois meses, com o corpo de um bebê?. Não falaram de negócios. O negócio de Abilio já é outro.

A TERAPIA DEPOIS DO SEQÜESTRO
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DEZEMBRO DE 1989: Sete dias no cativeiro em São Paulo

“Fui libertado na tarde de domingo e retomei minha rotina. Minha vida havia voltado ao normal. Pelo menos era o que eu pensava (…). E mantive a situação sob controle até que um episódio corriqueiro me obrigou a enxergar o óbvio: ou eu procurava ajuda para enfrentar aquela situação ou o fantasma do seqüestro me perseguiria pela vida inteira (…). Faço aniversário no dia 28 de dezembro. Durante pelo menos dez anos mantive o hábito de deixar São Paulo logo após o Natal e passar meu aniversário e o réveillon em companhia de dois ou três casais amigos no Arco Íris ? barco que tenho já há muitos anos (…). Alguém, provavelmente um marinheiro da embarcação, caminhava pelo convés ? e o barulho de seus passos acima de minha cabeça devolveu à minha memória os sons que escutava no cativeiro. Tive medo. ?Preciso voltar à terapia?, foi minha conclusão. “

 

 

 

 

 

O ROMPIMENTO COM OS IRMÃOS
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FRATRICÍDIO: O patriarca Valentim não impediu o racha

“O fato de eu haver dado o sangue pela empresa e de ter contribuído muito mais que qualquer um de meus irmãos para a expansão do Pão de Açúcar não me conferia qualquer vantagem dentro da sociedade. Em 1978, meu pai resolveu dividir a companhia naquilo que eu chamava de ?capitanias hereditárias? e deu uma delas para cada filho. Aquilo me desagradou muito e comecei a me interessar por outros assuntos (…). A tarde da briga em que se selou o rompimento da família foi um dos meus piores momentos. Aquilo me fez questionar seriamente algumas das atitudes que tomei ao longo da vida: havia trabalhado duro para construir o Pão de Açúcar. Nunca parei para pensar na fragilidade de minha situação dentro da empresa.”

 

HUMILHAÇÕES NA INFÂNCIA
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A FAMÍLIA NO GLICÉRIO: Problemas com os amigos de rua

“A mudança de bairro transformou minha vida. Passei a viver num outro mundo, nada amistoso, agressivo e até violento. Muitos de meus novos colegas eram autênticos moleques de rua. Foi naquele ?paraíso? que cheguei do jeito que eu era: baixinho, gordinho, filho único até os sete anos. Logo me transformei numa espécie de saco de pancadas da molecada. Eu era perseguido dentro e fora da sala de aula (…). Não havia dia em que eu voltasse para casa sem ter levado algum tipo de pancada, sem ter sofrido algum tipo de humilhação (…). Passei a ser respeitado na Várzea do Glicério. E no dia em que acertei as contas com um de meus algozes mais freqüentes, você pode imaginar o prazer que senti em revidar, após tanto tempo e tanto sofrimento.”
 

 

 

ARROGÂNCIA NOS MENORES DETALHES
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ANOS 70: A auto-suficiência do tamanho de um jumbo

“Tudo isso quer dizer o seguinte: a partir do momento em que eu decidi que nunca mais apanharia de ninguém, as coisas passaram a dar certo na minha vida de uma forma mais do que eloqüente. Não fazia idéia do que era fracasso nem admitia a hipótese de que uma única derrota viesse bater à minha porta. Eu me tornei cada vez mais auto-suficiente e, daí para a arrogância, foi um passo (…). Na época, cos-
tumava dizer a meus amigos que nunca ligava a seta do meu carro porque não tinha de prestar contas a ninguém sobre o lado para o qual estava indo. Era assim que minha cabeça funcionava (…) Humildade. Essa é a palavra-chave em torno da qual se organiza todo o processo de mudança pelo qual passei nos últimos anos.”
 

 

 

A SAÚDE DO PÃO DE AÇÚCAR
As vendas brutas em 2003 atingiram R$ 12,8 bilhões
O lucro líquido foi de R$ 225,5 milhões
O grupo opera 497 lojas em 12 Estados do País
São mais de 70 mil funcionários
Abilio Diniz aparece na lista dos homens mais ricos do
planeta, com uma fortuna estimada em US$ 1,3 bilhão