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A ARTE DE GASTAR DINHEIRO

As notas fiscais da casa comercial Aux Tuileries, na rua da Quitanda, 13, no centro do Rio, não deixavam dúvidas do que vendiam os amigos gaúchos Eduardo Palassin Guinle e Cândido Gaffrée ao redor de 1870. No canto esquerdo superior lia-se: ?Modas, novidades e artigos de Paris?. À direita: ?Sedas, rendas, linhos e fazendas brancas?. De retalhistas, Gaffrée & Guinle transformaram-se em construtores de estrada de ferro. Em 1882, a dupla recebeu da Princesa Isabel a concessão durante 92 anos do porto de Santos. Fundaram a Companhia Docas no auge da exportação de café. Ao morrer, em 1912, Eduardo deixou uma fortuna estimada em US$ 2 bilhões, em valores atuais. Na semana passada, um de seus netos, Jorge, o Jorginho Guinle, de 87 anos, comemorava o reajuste da aposentadoria do INSS a que tem direito, agora de R$ 1.588.

Os 90 anos de dilapidação da fortuna contam uma das mais fascinantes trajetórias de um brasileiro. Virou sinônimo de playboy. É o derradeiro de uma espécie em extinção, construída por personagens como Porfírio Rubirosa, Ali Khan e Baby Pignatari. Tinham, na vida, um único objetivo: torrar dinheiro. ?O segredo do bem viver é morrer sem um centavo no bolso, mas acho que errei o cálculo e o dinheiro acabou antes da hora.? Assim Jorginho define a doutrina que o levou aos salões mais respeitados e aos braços das mulheres mais espetaculares, numa galeria que passa por Rita Hayworth, Romy Schneider, Kim Novak, Anita Ekberg e Marilyn Monroe. Os olhos azuis atentos e o charme suave, apoiados num salto alto de 10 centímetros para disfarçar a baixa estatura, de 1m63, convidam a um mundo que já não existe. É tolice compará-lo aos playboys de hoje, como Alexandre Accioly ou Ricardo Mansur. ?Eles cometem um grande pecado, trabalham?, diz Jorginho. E não é apenas isso. ?Meu currículo de mulheres é muito melhor.?

Bem-vindos ao universo de Jorginho. É o único em todo o País, e talvez no mundo, hoje, capaz de escrever um livro ? Um século de boa vida, de 1997, esgotado, encontrado em sebos apenas por refinados farejadores ? em que o índice onomástico, com 500 nomes, começa com Abraham Lincoln e termina com Zutty Singleton, um dos grandes bateristas do jazz de Nova Orleans. A aposentadoria, miúda, é a constatação de um mito. Jorginho já trabalhou, sim. Bateu ponto, ao redor dos 50 anos, na Companhia Internacional de Seguros, no Rio. O presidente era um velho amigo da família. Um de seus irmãos era o vice-presidente. Ao longo de 30 anos esteve na folha de pagamento da empresa. ?Na verdade mal aparecia por lá?, frisa. A labuta, há que se recordar, não é atividade que caia bem num homem de seu gênero. A aposentadoria, a rigor, o incomoda. ?Não fiz nada de produtivo na vida e tenho esse direito. Há tanta gente pobre que trabalhou mais do que eu e recebe quantias vergonhosas?, diz. ?Isso diz muito da injustiça do País.?

Filosofia. Como não soube poupar, e errou o cálculo que o levou a viver mais que o dinheiro, Jorginho vive de favor no apartamento de uma socialite, Ruth de Almeida Prado. Dorme num quarto com duas camas de solteiro. No chão, há uma edição de bolso, em francês, de Nietzche e a Filosofia, de Gilles Deleuze. Duas fitas K-7 com as melhores interpretações de Louis Armstrong e Charlie ?Bird? Parker e uma fotografia ao lado do leão da Metro dividem a prateleira com um folheto do Beverly Hills Hotel, de Los Angeles. São lembranças de um tempo em que ele gastava a rodo, e os dólares não terminavam. Jorginho estima ter desembolsado, em sete décadas de farra, algo em torno de US$ 15 ou 20 milhões. Tinha uma regra a respeitar. ?Mulher não pagava nada quando estava comigo.? Ao perceber que logo lhe exigiriam um diamante, ou extravagância parecida, dava um jeito de inventar uma viagem e se escafedia. Nos anos 40, quando viveu nos EUA como diplomata informal dos interesses culturais do governo de Vargas, recebia da mãe US$ 60 mil mensais. Hoje, além da aposentadoria, vive com R$ 12 mil que pingam em sua conta do Banco Itaú por meio da família de Joaquim Monteiro de Carvalho, o Baby, parceiro de noitadas e festas desde 13 de agosto de 1923, quando se conheceram na pérgula do Copacabana Palace. Jorginho tinha 7 anos. Joaquim, 10. As famílias eram amigas. Em agosto, promete, farão uma festa de oito décadas de parceria ? se a recuperação de uma cirurgia cardíaca de Jorginho permitir que
saia de casa.

Boteco. Jorginho reconhece que nunca teve a fortuna dos Rockefeller ou dos Vanderbilt. O truque era parecer um deles. Gastava com viagens na primeira classe, hotéis e jantares. Desembarcava em Paris e Nova York com a fama de dono do Copacabana Palace (construído por seu tio Octávio em 1923 e vendido, em 1989, por US$ 23 milhões a James Sherwood, do Orient-Express). Circulava ao lado de Nelson Rockefeller com desenvoltura porque carregava o rótulo de bilionário, que não era, fruto do lucro com o café embarcado em Santos. ?A cada cinco cafezinhos vendidos no mundo, três iam para o meu bolso?, brinca. No boteco embaixo do prédio onde mora, atrás do ?Copa?, o café (ruim) sai por 60 centavos. Nenhum deles vai dar no bolso de Jorginho. Isso não o incomoda e não produz rancores nos herdeiros que nada herdarão. Georgiana, filha de seu segundo casamento, com Ionita Salles Pinto, nem liga para o fato de chegarem onde estão. ?Como reclamar, diante de um homem digno como ele??. Jorginho rompeu de vez com a primeira mulher, Dolores Sherwood, porque ela se recusou a acatar uma decisão da Justiça que dava ao namorado do filho morto em decorrência de Aids, o artista Jorge Guinle, o direito de herdar os bens do companheiro. ?Foi preconceito ?, resume. Não ter preconceitos, eis um dos segredos da gastança.

Jorginho, como todo playboy histórico, nunca pagou para ter as mulheres que quis. Há uma exceção: Marilyn Monroe. Em 1947, ela ainda era Norma Jean. Tinha 20 anos e era selecionada para animar festas de Hollywood. Jorginho contava 31. Numa casa alugada por Howard Hughes, lembra ter dado US$ 100 a um rapaz chamado All Davies, a ponte com as garotas. Não há testemunhas vivas. Em maio, numa reportagem do New York Times que o exibia como o último dos moicanos e especialista em jazz (Jazz Panorama, livro de sua autoria, lançado em 1953 e reeditado recentemente, é um clássico) celebrou a conquista. ?Passamos um terço de nossas vidas dormindo e, de olhos fechados, somos todos iguais?, disse. ?Mas apenas eu, entre os vivos, posso sonhar com Marilyn.? Arrependimentos? ?Nenhum?, diz. ?Aprendi com uma babá suíça, cujo irmão fora amigo de Lênin, a tratar dinheiro como algo transitório.? Ele pára, pensa e corrige. ?Tenho sim um arrependimento, o de não ter aprendido a tocar saxofone.? Por isso, talvez, tenha levado a vida na flauta.