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Jorge Gerdau

orge Gerdau Johannpeter costuma ver o mundo do alto. Nenhuma relação com uma atitude pessoal de soberba, ao contrário. Aos 64 anos, com uma média de 12 horas trabalhadas a cada dia, ele aperta a agenda em nome de uma boa conversa e gosta de ter seus argumentos testados num debate franco. Sabe falar e, na mesma proporção, ouvir. Sua visão superior do mundo é uma simples questão de física. Quando está em terra, Gerdau quase sempre precisa decolar em seguida, à bordo de um avião com destino a uma das 19 usinas siderúrgicas que comanda em seis países. É assim que age como diretor-presidente do Grupo Gerdau, o mais perto possível das bases de seus negócios.
 

?Há muito sacrifício pessoal, mas quando o trabalho é um prazer, torna-se leve?, disse ele a DINHEIRO em sua sala na sede da companhia em São Paulo, numa tarde em que se preparava para, à noite, voar em direção aos Estados Unidos. O passageiro de carreira com alta milhagem Jorge Gerdau é, também, às vésperas do conglomerado que dirige completar 100 anos, em abril de 2001, um piloto de números espetaculares. Ele comanda uma genuína multinacional brasileira, com fábricas nas Américas do Sul e do Norte e exportações para todo o planeta. ?Gerdau é o mais globalizado dos nossos empresários?, define o presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva.

Apertem os cintos: enquanto a economia brasileira pode crescer cerca de 5% em 2000, as vendas de aço produzido pelo Grupo Gerdau até setembro foram alavancadas em 56% sobre o resultado do ano passado. O faturamento ultrapassou em 78% a marca anterior, houve uma elevação de 85% na receita líquida e, céu de brigadeiro para qualquer empresário, lucro líquido quase 15% maior. Traduzidos em reais, esses porcentuais são de causar vertigem. O faturamento consolidado no Brasil e no exterior foi, nos primeiros nove meses do ano, de R$ 4,6 bilhões.

A prosseguir no mesmo ritmo, conforme calcula a direção do grupo, a barreira de R$ 6 bilhões poderá ser rompida até o final do ano. O lucro bruto, medido na altura em que estava em setembro, atingiu estratosféricos R$ 1 bilhão, a atividade operacional gerou um caixa líquido de R$ 397,4 milhões e, na qualidade de lucro líquido, a companhia aterrissa suavemente com R$ 321 milhões em seus cofres. Um vôo sem dúvida bastante promissor para quem, em 1901, era apenas uma fábrica de pregos em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. ?Tivemos um ótimo ano e estamos otimistas para 2001?, diz o empresário.

A reluzente coleção de números seria suficiente para justificar por que DINHEIRO escolheu Jorge Gerdau como Empreendedor do Ano na Indústria. Mas há mais. Além de fazer a lição de casa, ele encontrou tempo para exercer com ênfase e, simultaneamente, elegância um papel que há tempos recai em exata medida sobre sua figura: o de líder empresarial. Gerdau vocalizou ao longo do ano, à frente da Ação Empresarial, um movimento que aglutinou representantes de todos os setores produtivos do País, a reivindicação unânime da reforma tributária. ?Mais que os outros, Jorge Gerdau se preocupa com qualidade, produtividade e um Brasil mais moderno?, reconhece o empresário Rolim Adolfo Amaro, presidente da TAM.

O governo, interlocutor do empresário gaúcho no outro lado da mesa, ora endureceu, ora despistou, e por fim cortou bruscamente o debate sobre a mudança na tributação. A reforma, assim, não saiu, mas os resultados da polêmica provocada este ano mostram que o processo para chegar até ela é irreversível. ?Uma fábrica não é uma ilha isolada?, ensina Gerdau. ?É preciso ter eficiência interna, mas também ao redor, na cadeia produtiva.? Com esse tipo de posições, mesmo quando faz o papel de adversário, Gerdau desperta elogios. ?Ele é o principal industrial do Brasil?, julga o secretário de Comunicação do governo federal, Andrea Matarazzo. ?Tem posições modernas, avançadas e transparentes.?

Ao tratar de produção, Gerdau sabe bem do que está falando. No grupo fundado pelo avô, João Gerdau, e dirigido pelo pai, Curt Johannpeter, até o início dos anos 70, Jorge cumpriu todas as etapas, do estágio à presidência. Menino de 14 anos, podia ser visto na linha de produção decifrando os segredos das máquinas de regular pregos. Manteve sempre um pé na fábrica e foi estudar contabilidade, ciências jurídicas, sociais e se especializar em administração. No Rio Grande do Sul, onde nasceu e mora, ele é uma espécie de lenda viva para todos os setores da economia. ?O que Gerdau diz é lei para nós?, conta o empresário gaúcho Nestor de Paula, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Calçados. ?Sua atuação dinamiza todos os elos da nossa economia.?

Nos anos 80, quando o grupo decidiu acelerar na direção do crescimento interno e da industrialização, lá estava Gerdau como diretor-presidente. ?A chave do sucesso que estamos obtendo hoje foi cunhada naquela época, quando percebemos que tínhamos de adaptar nossos custos aos padrões mundiais de competitividade da indústria?, diz. ?Se não crescêssemos, seríamos engolidos. Afinal, a vida é uma competição permanente.?

O grupo levou esta ordem ao pé da letra. Ao ponto de, em 2000, ampliar sua posição que já era majoritária na poderosa AmeriSteel, a segunda maior siderúrgica dos Estados Unidos. Por US$ 35,6 milhões pagos à vista, a Gerdau arrebatou mais 12% de ações da japonesa Kyoei Steel, antiga controladora da empresa, e fecha o ano com 85% da siderúrgica com sede administrativa em Tampa, na Flórida, e unidades industriais e de pesquisa espalhadas pelas regiões sudeste e leste dos EUA. Esse investimento integra o total de US$ 174,8 milhões colocados pelo grupo entre janeiro a setembro no próprio negócio. Desses recursos, US$ 126 milhões foram dirigidos à abertura, ampliação e atualização tecnológica de plantas industriais no Brasil, contra US$ 48,8 milhões no exterior. Apenas no terceiro trimestre, quando o grupo abriu duas unidades industriais em Simões Filho, no interior da Bahia, os investimentos chegaram a US$ 61,4 milhões.

Pelo ângulo que se mire, o Grupo Gerdau é um exemplo acabado de eficiência e boa gestão. Com 8.500 funcionários, produziu nos primeiros noves meses do ano 5,3 milhões de toneladas de aço bruto e 4,4 milhões de toneladas de laminados. Um rendimento maior, respectivamente, em 56,6% e 52,3% sobre o alcançado no ano passado. No exterior, onde, além dos EUA, o grupo controla duas siderúrgicas no Canadá e unidades na Argentina, Chile e Uruguai, o aumento da produção foi simplesmente assombroso. A evolução em aço bruto foi de 281,4% ao chegar, em 2000, a 2 milhões de toneladas. Para laminados, o crescimento atingiu 258,5%, com 1,9 milhão de toneladas. Mais? Apenas a AmeriSteel deu um salto este ano sobre o ano passado de 351,3% em produção de aço bruto e 357,2% em laminados. No Brasil, a partir da Gerdau S.A. e da Açominas, da qual o grupo é controlador, foram exportados US$ 163,4 milhões, ou mais 46,5% do que no ano passado.

?Nossa estratégia no exterior se mostrou acertada?, conta Gerdau. ?Mas o excelente momento da economia brasileira foi o grande responsável pelo nosso desempenho.? Ele explica que os setores industrial e de construção civil exigiram de suas empresas uma resposta imediata ao momento de crescimento da economia. ?Estamos preparados para atender a demanda porque sempre acreditamos que a vocação do Brasil é crescer.?

Todo esse desempenho foi bem visto no mercado financeiro. Em 1999, a Gerdau lançou ações na Bolsa de Nova York e, este ano, colheu bons frutos. Foram negociados 2,4 milhões de ADRs da Gerdau S.A, equivalentes a 2,4 bilhões de ações preferenciais. ?O preço da nossa ação está estável; o importante é que conseguimos dar liquidez ao nosso acionista?, interpreta o diretor-presidente. No Brasil, a Gerdau S.A. ganhou status de blue chip, ao ser incluída pela primeira vez no índice Bovespa. Até setembro haviam sido registrados mais de 20 mil negócios com papéis da companhia, num movimento de R$ 807,1 milhões, valor 118,1% maior do que no ano passado.

?O DEBATE É IMPORTANTE?

DINHEIRO ? Apesar dos históricos bons resultados do Grupo Gerdau, o sr. é visto como um empresário de oposição aos governos em geral. Confere?
JORGE GERDAU ?
Não. Acho importante participar do debate sobre os grande temas nacionais, manifestar uma posição de classe. É da minha formação e faz parte de uma prática saudável e democrática. Mas não sou um oposicionista sistemático. Sei elogiar medidas que dão bons resultados.

DINHEIRO ? O que o sr. pode dizer do atual governo?
GERDAU ?
O presidente Fernando Henrique é um estadista. Ele está encaminhando o Brasil para o rumo certo. Vai entrar para a história como líder de um período de desenvolvimento, não tenho dúvidas.

DINHEIRO ? Este ano o sr. divergiu do governo ao brigar publicamente pela reforma tributária. O que mudou?
GERDAU ?
Há visões diferentes dentro do governo sobre esse tema. Nem tudo o que falamos foi compreendido.

DINHEIRO ? Qual é a sua previsão para a economia em 2001?
GERDAU ?
Estou muito otimista. O Brasil é um país repleto de oportunidades para novos investimentos. O fluxo de recursos estrangeiros vai continuar alto e teremos mais um período de crescimento.

DINHEIRO ? A Gerdau é uma multinacional brasileira, mas sofre críticas dentro do Brasil pelo seu gigantismo. Houve, até mesmo, acusações de formação de monopólio.
GERDAU ?
Isso passou. Nossa argumentação prevaleceu e hoje não sofremos qualquer processo neste sentido. Lá fora, temos de competir com grupos bem maiores e, graças a uma política de adaptação de custos e à nossa tecnologia empresarial, temos nos saído bem.