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Entrevista

O relacionamento entre empresas e políticos sempre foi incestuoso

O relacionamento entre empresas e políticos sempre foi incestuoso

André Jankavski
Edição 20/01/2017 - nº 1002

O executivo Claudio Galeazzi é considerado um especialista em crises no meio corporativo. Foi responsável por comandar reestruturações ou “transformações”, como gosta de chamar, em gigantes como Lojas Americanas, Pão de Açúcar e, mais recentemente, BRF. Apesar de ter obtido êxito na maioria de seus trabalhos, recebeu a alcunha de “mãos de tesoura” por conta de sua fama de promover cortes agressivos, especialmente na folha de pagamentos. Atualmente, segundo ele, o apelido não o incomoda mais. “Os culpados são os que contratam desordenadamente em um momento de euforia, sem pensar nas consequências que isso trará em momento de crise”, diz. Em entrevista à DINHEIRO, na sede do banco BTG Pactual, onde atua como conselheiro, o executivo, que também comanda a consultoria Galeazzi & Associados, comenta a reestruturação do BTG após a prisão do ex-presidente André Esteves e sobre a relação entre empresas brasileiras e políticos. Confira, a seguir, a sua entrevista:

DINHEIRO – Como o senhor avalia a relação entre empresas e políticos?
CLAUDIO GALEAZZI – 
O Brasil está passando por uma enorme mudança de ética e moral. O relacionamento entre empresas e políticos sempre foi incestuoso. Eu tenho a impressão de que isso irá mudar. Caixa dois, por exemplo, está mais difícil de ocorrer. O relacionamento entre mercado e políticos já está mudando muito. Na Galeazzi & Associados, por exemplo, jamais trabalhamos para governos, seja diretamente ou indiretamente. É muito difícil implementar transformações ou reestruturações em uma empresa que possui interesses partidários.

DINHEIRO – A reestruturação nas estatais está no caminho certo?
GALEAZZI – 
Na Petrobras, o Pedro Parente é um executivo excepcional e que está tendo um momento ímpar. Ele está conseguindo deixar de fora interesses político-partidários e vem se cercando de pessoas excepcionais. O Parente vem fazendo o tipo de gestão que permite implementar as mudanças necessárias. Mudanças, que apesar de relevantes, seriam impossíveis lá atrás. Só não sei se no futuro pós-Parente, a Petrobras continuará sem as interferências políticas e partidárias.

DINHEIRO – Isso significa um início de uma nova era na gestão pública?
GALEAZZI – 
Sem dúvida, seria desejável que fosse o início de uma nova era. Quando a empresa não tem esse tipo de interferência, a tendência é que traga resultados, seja mais transparente e tenha mais responsabilidades morais e éticas.

DINHEIRO – Qual o papel que as companhias podem ter na transição?
GALEAZZI –
 Primeiro de tudo, ter uma postura ética. A justificativa de algumas das empresas é que se não entrar no esquema, acaba morrendo. Isso não é válido. Há empresas éticas e que não permitem serem envolvidas nesse tipo de processo e estão muito bem.

DINHEIRO – Como foi a transformação do BTG, desde que o André Esteves foi preso? Qual foi a sua participação?
GALEAZZI – 
O BTG foi um exemplo de transformação e reestruturação diante de uma crise externa. Um grupo especial foi formado para fazer um levantamento se o BTG e o Esteves tiveram, de alguma forma, participação. Foram contratadas consultorias internacionais que examinaram mais de um milhão de documentos. Dá para se imaginar o tamanho da pesquisa? Foi feito todo um levantamento de e-mails e contratos para saber se havia alguma indicação de algo errado. E, mesmo assim, não encontraram nada do Esteves e nem da empresa. O BTG não quis jogar para debaixo de tapete. Qualquer outra empresa poderia ter ficado em uma situação mais complicada, ainda mais um banco, que vive de credibilidade.

DINHEIRO – Como o senhor define o BTG antes e depois da prisão do André Esteves?
GALEAZZI – 
A diferença entre o que era antes e o que é agora é a ambição de crescimento. O banco estava crescendo muito rapidamente em todas as áreas, inclusive internacionalmente. O que ocorreu foi um banho de uma nova cultura. O banco diminuiu, mas é extremamente sólido e com uma rentabilidade para crescer de uma forma diferente. Hoje em dia, o BTG faz uma análise muito mais profunda de investimentos e ativos do que era feita antes. O banco tem bastante disponibilidade de crédito externo para poder ampliar o seu tamanho. Será um processo mais lento, porém, com muita solidez.

DINHEIRO – Crescer muito rápido foi o principal erro do BTG?
GALEAZZI – 
A alta disponibilidade de dinheiro permitiu que o banco crescesse daquela forma. Quando você cresce muito rápido, acaba gerando outros problemas. Não existe só um erro, mas um acúmulo de várias pequenas falhas. Porém, a ambição de crescimento muito rápido e a facilidade que o mercado oferecia na época resultaram nisso. Eu acredito em crescimento rápido, mas não excessivamente rápido.

DINHEIRO – A reestruturação no BTG foi uma das mais difíceis pela qual o senhor passou?
GALEAZZI – 
Foi a mais bonita. O André teve a prisão decretada no dia 25 de novembro do ano passado e, nos primeiros dias de dezembro, as medidas já estavam sendo tomadas. Houve corrida ao banco para resgate do dinheiro, mas os principais acionistas deram a própria garantia pessoal para evitar problemas. Toda a demonstração de uma reestruturação perfeita. Vendemos ativos importantes, mudamos o pensamento de crescimento externo, tivemos de cortar pessoas. Honramos todas as solicitações na mesma hora. A cautela foi total. Eu considero isso um exemplo de reestruturação.

DINHEIRO – O senhor acredita que o BTG possa ser um exemplo para outras empresas?
GALEAZZI – 
Sim. Por mais difícil e complicado que é uma situação de crise em uma empresa, eu acredito que existe possibilidade e probabilidade significativa de se reverter a crise. Depende muito da sua vontade, da coragem de implementar essas grandes transformações. Por pior que seja, sempre tem saída. Provavelmente, a empresa não será como antigamente, mas será muito mais sólida lá na frente. 

DINHEIRO – Se o senhor fosse o CEO responsável por alguma das empresas diretamente envolvidas em escândalos de corrupção, como atuaria?
GALEAZZI –
 As medidas precisariam ser draconianas para que as companhias sobrevivam e recuperem a credibilidade. Não é algo fácil.Provavelmente, essas empresas precisarão reduzir significativamente o seu tamanho e conviver com uma nova realidade. 

DINHEIRO – Quais seriam as medidas?
GALEAZZI –
 Principalmente a redução de tamanho da empresa. Viver em um mercado muito mais competitivo, já que não terá mais as facilidades de acordos. As empresas envolvidas na Lava Jato precisarão sobreviver por conta de suas competências e serviços prestados, o que é algo muito mais difícil. Se a empresa sobrevive somente com corrupção, ela não deve perdurar.

DINHEIRO – Na sua visão, assistiremos ao fechamento de algumas empresas que estão envolvidas na Lava Jato?
GALEAZZI –
 Algumas vão sobreviver e outras não. É um ambiente totalmente diferente do que estavam acostumadas. Terão algumas saídas efetivas do mercado e outras vão morrer. As que sobrarem terão que reduzir seu tamanho e sua própria importância para sobreviver.

DINHEIRO – Essas empresas podem recuperar a credibilidade? Algumas estão envolvidas em escândalos há décadas.
GALEAZZI – 
Eu não sei, pois é um problema endêmico, infelizmente. Faz parte da cultura brasileira.

DINHEIRO – É possível mudar?
GALEAZZI –
 Quando eu vejo o pensamento da anistia a crimes no Congresso, acho difícil mudar. Sempre haverá corrupção, mas não é possível que seja nesse nível envolvendo a elite política e empresarial. Eu acredito muito que as medidas que estão sendo tomadas pela Lava Jato irão contribuir para mudar o Brasil, mas agora já se falam até em punir juízes e procuradores.

DINHEIRO – O senhor sempre reclamou da alcunha de “mãos de tesoura”. Com o Brasil em crise, as gestões enxutas estão sendo mais valorizadas agora do que antes?
GALEAZZI – 
Sem dúvida o meu tipo de gestão é mais valorizado hoje. Essa gestão apresenta resultados. É só observar as ações. Quando eu entrei no Pão de Açúcar, a ação estava em R$ 36, quando eu saí, valia
R$ 60. Na BRF foi a mesma coisa.

DINHEIRO – O senhor sente que o seu desempenho também é mais valorizado hoje?
GALEAZZI – 
A imprensa sabe que colocar que 10 mil pessoas mantiveram seus empregos não chama a atenção. A audiência vem das 300 pessoas demitidas. A necessidade de sangue para vender notícia. Eu costumo dizer que os culpados são os que contratam desordenadamente em um momento de euforia e sem pensar nas consequências que isso trará em momento de crise, que é algo inevitável.

DINHEIRO – Hoje é tempo de ser conservador na gestão?
GALEAZZI – 
Se existir uma melhora econômica, que eu acho que vai demorar até 2018 e olhe lá, eu manteria uma postura cautelosa. Qualquer crescimento em função de melhora de mercado, eu teria certo cuidado. A tendência dos empresários brasileiros é maximizar tudo o que você puder para ter o lucro do momento. Muitas vezes, pensando no hoje, a empresa se prejudica lá na frente. É necessário sacrificar o presente para consolidar o futuro. Aí sim, a empresa terá um futuro de fato. Esta é a minha política.

DINHEIRO – Como o senhor está avaliando o governo de Michel Temer e a gestão de Henrique Meirelles na Fazenda?
GALEAZZI – 
Só posso dizer que eu gosto na medida em que eu comparo. É um mundo ideal? Não. Mas parece que Ilan Goldfajn, no Banco Central, e o próprio Meirelles, na Fazenda, estão bem intencionados em promover a economia e a credibilidade brasileira. Comparado ao que estava, é infinitamente melhor. Não sei se poderia ser melhor, diante de um cenário com tantas ameaças e incertezas, mas está sendo um governo bom nesse ambiente que estamos vivendo.

DINHEIRO – Neste momento de crise, a Galeazzi & Associados está tendo mais demanda?
GALEAZZI –
 Há uma demanda maior, mas devido ao tamanho dos pedidos, nós não temos como atendê-los por conta da nossa cultura. Desde nossa fundação, definimos que trabalharíamos com um número contido, de até 90 profissionais, para dar um atendimento mais personalizado. Para conseguir uma transformação ou melhora de performance, é necessário um time de muita qualidade para colocar em prática as mudanças necessárias. Então, não é que a empresa ampliou a sua participação em termos de mercado, ela simplesmente está tendo uma demanda maior, mas recusando projetos.

DINHEIRO – Quantas empresas estão atendendo?
GALEAZZI – 
Não estou tão presente. Considero-me uma rainha da Inglaterra e só vou para solenidades. Mas a consultoria deve manter perto de 20 a 25 companhias, no máximo. Quatro ou cinco funcionários por negócio.

DINHEIRO – Os pedidos estão vindo por conta da má condução do negócio ou pelo cenário ruim econômico?
GALEAZZI –
 O grande problema das empresas é sempre a gestão. Uma boa direção faz a empresa entrar na crise mais bem preparada para manter os seus resultados, se não da mesma forma, melhor que os da concorrência.

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