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Entrevista

“Chegamos ao fundo do poço e precisamos reagir”

“Chegamos ao fundo do poço e precisamos reagir”

Carlos Dias
Edição 16.12.2016 - nº 998

Existem posições ímpares para quem deseja compreender e dissecar as entranhas da economia brasileira. Um mirante privilegiado é ocupado pelo empresário e engenheiro mecânico Robson Braga de Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). À frente de um sistema de representação com um exército de 27 federações, que reúne mais de 1.250 sindicatos e 350 mil empresas, o executivo está em seu sexto ano na CNI, seu segundo mandato. Interlocutor de um séquito de empresários, junto ao governo Temer, Robson Andrade mostra-se preocupado com o desempenho da indústria e a velocidade para destravar reformas importantes como as tributária e trabalhista. Sem elas, afirma, 2017 estará em xeque, período chave para uma retomada do crescimento mais adiante. Ele atesta que se chegou ao fundo do poço, com uma queda 3,9% do PIB industrial neste ano. Ele falou à DINHEIRO sobre o desempenho da indústria e o que está por vir.

DINHEIRO – Qual será o resultado da indústria em 2016? 
ROBSON BRAGA DE ANDRADE – 
Infelizmente, não temos boas notícias. Hoje, todo o setor industrial representa algo em torno de 22,1% do PIB brasileiro, muito pouco se olharmos para trás. O ponto é que a indústria de transformação, aquela que transforma matéria-prima em produto final, responsável por uma parcela relevante do segmento, deve ter um recuo entre 4,8% e 5% neste ano, o que é muito. Assistimos a um encolhimento dessa parcela desde 2009, com baixas consecutivas e crescentes. Nos últimos três anos, a queda acumulada somente na área de transformação foi de 20%.

DINHEIRO – O que aconteceu para que isso ocorresse?
ANDRADE –
 Foi um processo, uma queda gradativa. É preciso olhar o contexto para compreender e ter uma análise correta. Houve queda no consumo das famílias, doze milhões de trabalhadores desempregados, aumento dos juros e crédito cada vez mais escasso para a indústria e para o comércio. Paralelamente a isso, uma série de problemas de ordem trabalhista e tributária, que impediram uma retomada do crescimento. No campo da Justiça do Trabalho, assistimos hoje uma jurisprudência de um tribunal de São Paulo que é completamente diferente de outra sobre a mesma matéria, em Minas Gerais. São vários fatores que, conjugados, trouxeram uma série de dificuldades.

DINHEIRO – Chegamos ao fundo do poço?
ANDRADE –
 Na indústria, em geral, chegamos ao fundo do poço e precisamos reagir. Não vejo como piorar ainda mais. A indústria já fez um ajuste severo de custos, demitiu e enxugou. Houve também, é preciso lembrar, o impacto do setor externo, da queda do preço das commodities que o Brasil exporta. Há poucos anos, o preço médio por tonelada do minério de ferro girava em torno de 160 dólares a tonelada. Hoje, não chega a metade deste valor.

DINHEIRO – O que se pode esperar de 2017?
ANDRADE – 
Sem motores para crescer, o desempenho de 2017 será fraco. No máximo teremos algum equilíbrio e a base que precisamos para crescer no ano seguinte. Digo isso porque o quadro é ainda preocupante. A ociosidade em alguns setores da indústria chega a 40%. É altíssima. Apesar disso, estou otimista, creio que demos passos importantes como a PEC do Teto de Gastos Públicos, aprovada no Senado. Agora precisamos enfrentar a reforma da Previdência, que é crucial. Paralelamente, há outras reformas que precisam ser tomadas, que não implicam em gastos, mas em vontade política.

DINHEIRO – Qual agenda seria esta?
ANDRADE –
 A microeconômica, que já está em curso, e principalmente a tributária. Não faz o menor sentido, por exemplo, termos uma legislação que trata de impostos e contribuições como o PIS/Cofins com quase duas mil páginas. É tão absurdo que nem mesmo os auditores fiscais entendem a legislação. Além disso, uma agenda desenvolvimentista. Até agora, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, fizeram o correto: deram sinais para o equilíbrio orçamentário e indicaram que poderão baixar os juros. Mas falta uma agenda que dê condições para retomarmos o crescimento econômico. Ainda estamos carentes de uma equipe no governo que pense nisso.

DINHEIRO –A CNI tem feito regularmente sondagens junto aos empresários e parece que há uma mudança de humor. Isto tem de fato tem ocorrido?
ANDRADE –
 Sim, é verdade. Com a mudança do governo Dilma para o de Temer houve uma melhora do otimismo do empresariado em relação à economia e, consequentemente, para se investir. Em uma escala de zero a 100, em março, registramos 34 pontos junto aos empresários. Hoje, está na casa dos 51 pontos o otimismo dos empresários, sendo que acima dos 50 representa já um apetite maior em investir.

DINHEIRO – O senhor citou a queda do preço das commodities, mas a indústria foi muito beneficiada indiretamente por um câmbio desvalorizado no governo Dilma. Agora o quadro se inverteu. O que mudou para os empresários? 
ANDRADE – 
De fato, tivemos um longo período do real fortalecido em relação ao dólar, como instrumento de política econômica, no governo anterior. Isso prejudicou muito nossas exportações e beneficiou setores específicos da indústria, para importação de componentes dentro da cadeia produtiva. A consequência foi o desemprego nas empresas brasileiras que forneciam esses componentes. O quadro hoje é outro, mas este não é ponto central. O que precisamos observar é que o País nunca valorizou ou privilegiou acordos internacionais. O mundo fez vários acordos, mas nós não fizemos quase nenhum nas últimas décadas. De 2015 para cá ficamos um pouco mais atentos a isso, refiro-me a entendimentos com Colômbia, México, Peru, Chile. Mas ainda é muito pouco.

DINHEIRO – Uma crítica que se faz à indústria é que vários setores, como a indústria automobilística, por exemplo, receberam uma série de incentivos diretos, via BNDES, ou indiretos. E que não surtiu o efeito desejado em geração de renda e empregos. Concorda com esta análise?
ANDRADE – 
Em parte, porque se você não der algum tipo de incentivo para uma indústria se instalar no Nordeste ou se não prestigiar a Zona Franca de Manaus, ninguém vai querer investir nesses locais. O que faltou foi uma política que propiciasse a competitividade e aumentasse a infraestrutura no Brasil, que ainda é péssima. E, principalmente, melhorar as condições tributárias, desburocratizar uma série de processos que ainda atrapalham quem produz. Para se ter uma ideia, em um comparativo que fizemos recentemente entre os dez países com maior PIB do mundo, o Brasil é um dos piores em carga tributária, gastos públicos e taxas de juros. Com o detalhe de que pagamos caro por impostos sem a contrapartida em serviços.

DINHEIRO – O que precisaria ser mudado que ainda não foi?
ANDRADE – 
Uma série de coisas. O Brasil é uma das poucas nações no mundo que não conseguiu gerar créditos tributários na sua fase produtiva. Tentou-se isto com o Reintegra, que compensa impostos para exportação, mas não deu certo. No caso da indústria automobilística, para citar um exemplo, nossos cálculos mostram que o carro exportado do Brasil carrega um custo de 10% de impostos daqui de dentro. Refiro-me desde a energia elétrica até o consumo de matérias-primas, que deveriam ser abatidos pelo governo na hora de pagar impostos da indústria, e não são.

DINHEIRO – Uma crítica que se faz ao empresariado é que quando receberam incentivos e benefícios à produção, do governo federal, não reclamaram. Mas quando a situação é adversa, como agora, reclamam. Isto procede? 
ANDRADE – 
É preciso ter uma política fiscal que não penalize quem produz. Não há nada de errado em políticas de incentivo que gerem riqueza e emprego. Aqui na CNI há uma obsessão pela questão do emprego, para reverter este quadro de 12 milhões de desempregados no País. Olhar o que ocorre lá fora é importante. Veja o houve em 2008 nos Estados Unidos, quando o governo concedeu US$ 80 bilhões para salvar a GM.

DINHEIRO – Quer dizer que os incentivos foram de alguma forma corretos? 
ANDRADE – 
Sim, claro que foram. Hoje temos uma frota de caminhões moderna graças ao financiamento dado pelo BNDES. Da mesma forma na agricultura, para compra de tratores e maquinário. O que se pode questionar, legítimo, é a qualidade do incentivo, o prazo e os seus efeitos. Houve alguns equívocos nesse sentido, sem dúvida.

DINHEIRO – Quais os equívocos?
ANDRADE – 
Cito o exemplo polêmico da indústria naval em função do pré-sal e da Petrobras. Fez-se uma política para construção de estaleiros navais muito acima do necessário. Não há planejamento, que é o grande problema brasileiro. As escolhas neste caso foram 
inadequadas.

DINHEIRO – E a Operação Lava Jato? O senhor confia no juiz Sérgio Moro? Compraria um carro usado dele?
ANDRADE – 
Confio, compraria sim (risos). O Moro tem feito um grande trabalho, fala pelos autos, não precisa de holofote. Mas é preciso avançar como se faz no resto do mundo. O Brasil necessita de um acordo de leniência (uma espécie de delação premiada para empresas) que dê confiança às companhias. Sou do time dos que pregam que os de má conduta paguem pelos seus erros. Mas isso não implica que o País deixe de funcionar, não avance. Muito ao contrário.

DINHEIRO – Não estamos avançando na sua visão?
ANDRADE – 
Na própria Justiça estamos vendo confrontos hoje, o que é ruim. Este embate entre os três Poderes da República contamina a sociedade e afeta nossa imagem lá fora. É como se fosse uma cadeia que se retroalimenta. Tenho viajado muito para fora e ouço de empresários estrangeiros que o Brasil é uma grande oportunidade para investir, principalmente na área de infraestrutura. O problema é a insegurança jurídica, as questões envolvendo justiça do trabalho, ambiental e tributária. Esses são os pontos que precisam ser atacados de alguma forma. No meu ponto de vista, há uma única solução para o País.

DINHEIRO – Que solução seria esta?
ANDRADE –
 A solução é exclusivamente política. É somente a política que tem de colocar ordem na casa. Só avançaremos a partir de medidas legais. Por isso precisamos da classe política para nos representar. No final do ano passado, o PMDB lançou um documento importante chamado “Uma Ponte para o Futuro”, em que é feito um excelente diagnóstico da nossa situação e do que precisamos fazer. Este é um trabalho que merece atenção do governo federal e do Congresso.


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