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Entrevista

“Houve uma perda econômica grande, mas ainda estamos próximos do topo”

“Houve uma perda econômica grande, mas ainda estamos próximos do topo”

Paula Bezerra
Edição 12.08.2016 - nº 980

Pela janela do 9º andar do edifício Argen-tina, na Praia do Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, um dos endereços da FGV na capital fluminense, o economista Marcelo Neri consegue acompanhar a enorme movimentação provocada pelos Jogos Olímpicos. Embora grande parte da concentração do evento esteja na zona oeste do município, na Barra da Tijuca, o fluxo de turistas e amantes da maior festa do esporte mundial aumentou o ritmo de toda a região. “É só olhar pela janela, os Jogos Olímpicos estão acontecendo, a economia está aquecida.”

À frente do ministério de Assuntos Estratégicos de 2013 a fevereiro de 2015, presidente do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) de 2012 a 2014, Neri acompanhou de perto a ascensão e queda da renda da população, assim como realizou diversos estudos sobre a demografia social e do mercado de trabalho. A bagagem o fez chegar a uma conclusão: o Rio não é um lugar de jovens bronzeados, mas de idosos, o que mostra que o bônus demográfico no local já terminou. Em entrevista à DINHEIRO, o economista afirma que o País deixou a possibilidade de suicídio coletivo. “Não estamos mais à beira do abismo.”

DINHEIRO – Em  agosto de 2015, o sr. disse que o Brasil vivia um filme dramático. Passado um ano, qual a sua avaliação?
Marcelo Neri  –
 Para analisar, precisamos entender o contexto brasileiro. O País viveu, desde a recessão do PIB no final de 2003 em diante, um processo de crescimento inclusivo e que durou certo tempo. Se olharmos do ponto de vista da renda média da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), veremos um crescimento 62,2%. Porém, se analisarmos a renda dos 10% mais pobres, ela cresceu 149%. Já o ciclo de ouro foi até o final de 2014. Encerramos 2014 com a nossa menor taxa de desemprego. Até meados de 2015, o desemprego e a inflação explodiam. Mas, tanto a massa de salário e de rendimento do trabalho, como o salário médio e nível de ocupação, surpreendentemente, mantiveram-se estáveis. É como se estivéssemos no topo da montanha, porém, não tínhamos começado a descer. Até que, no terceiro trimestre de 2015, a renda sofreu a primeira queda. Já no último trimestre do ano passado, a queda da renda foi acompanhada com um aumento de desigualdade, quadro esse fortalecido no primeiro trimestre de 2016.

DINHEIRO – A renda da população regrediu a patamares históricos…
Neri  –
 Uma combinação de queda de renda como essa não acontecia nessa dimensão desde 1992. Já um aumento de desigualdade dessa magnitude não havia sido registrado no Brasil desde 1997. Foi um ponto fora da curva.  Descemos barranco nessas séries, mas ainda estamos surpreendentemente próximo do topo. A imagem de que estamos à beira do abismo, cheio de nuvens, que representaria incertezas do mercado, que nos impediam de enxergar um palmo a nossa frente, terminou. Estávamos em uma situação muito perigosa. Mas o fato é que talvez a gente tenha começado a dar passos nos afastando do abismo. As nuvens começaram a se dissipar. Os mercados financeiros, seja dólar, seja bolsa, dão sinais de melhora. Os mercados de trabalho e de consumo ainda não. Mas talvez eles sejam os últimos a reagir. As pessoas e a maioria dos analistas querem uma notícia boa e ela chegou ao mercado financeiro.

DINHEIRO – O Brasil passou por um longo processo de erradicação da pobreza. A recessão econômica nos fez regredir?  
Neri – 
Caminhamos, sim, alguns passos para trás. Porém, ainda não sabemos o quanto. O Brasil vivia esse período da nova classe média, do caminho do meio. Não era só redução de desigualdade, era uma redução de incerteza. Um conjunto de três componentes básicos: crescimento, não apenas da economia, mas da renda das pessoas, que era duas vezes mais forte que o da economia. No topo disso, houve a redução da desigualdade. A renda do primo pobre estava crescendo muito e a do primo rico crescendo pouco. Já a redução de incerteza favoreceu o crédito. No entanto, perdemos tudo isso. A situação ficou muito clara nesse período recente. A renda começou a cair. O último dado de renda mostra que ela caiu em 4,8% por brasileiro até março de 2016. É uma queda grande. Temos, de fato, dados novos preocupantes que são inversões de todas as tendências: de crescimento, de redução da desigualdade e da redução das incertezas. Mas, apesar disso, acho que perdemos alguma coisa, mas estamos falando de onze anos de ganhos contínuos. Houve uma perda econômica grande, mas ainda estamos próximos do topo.

DINHEIRO – Como conseguiremos recuperar tais perdas? 
Neri –
 A casa está muito desarrumada. Temos muitos problemas e ajustes para fazer. Há uma série de reformas que não foram feitas e que deverão sair do papel. A da Previdência, por exemplo, é a principal delas. Houve uma taxa de formalização muito forte. Então, a Previdência que já tinha um problema estrutural, passou a ter um problema conjuntural. A resposta é condicional: depende muito do que acontecerá e do que a sociedade e gestores farão.

DINHEIRO – O governo interino já indicou possíveis mudanças para a Previdência. O sr. acredita que estamos no caminho certo?
Neri –
 Precisamos fazer a reforma. A proposta já é uma direção correta, pois não adianta querermos dar um passo maior do que as pernas. Temos que dar o primeiro passo e colocar a caminhada em marcha. Acredito que as idades mínimas apresentadas foram os primeiros passos. Vários países adotaram um modelo parecido. O Brasil passa por uma transição demográfica muito rápida, comparável à chinesa em termos de velocidade.

DINHEIRO – Em uma análise recente, o sr. revelou que a cidade do Rio de Janeiro já saiu do bônus demográfico. 
Neri – 
O Rio de Janeiro pode ser um piloto importante, porque a partir de 2016, a população em idade ativa já começa a cair. Há muito mais idosos no Rio de Janeiro. O Brasil vai se tornar mais parecido com o que o bairro de Copacabana é hoje – que é o epicentro dos idosos -, em 2058. Locais como esses podem nos ajudar a compreender como será o País no futuro e o que estamos deixando para ele. Por isso, o Brasil precisa caminhar em direção da reforma da Previdência. O diabo mora nos detalhes. Aqueles que viram as costas para a reforma da previdência, estão virando as costas para o futuro. E nós – enquanto nação – teremos que encarar os nossos filhos e netos, e estamos deixando um legado pesado para eles. Agora é o momento de tentar tirar um pouco as pedras da mochila que eles terão de carregar. O bônus demográfico está em seu ápice, porém, termina em 2022. No Rio de Janeiro, por exemplo, já acabou. Nesse momento, o vento vai soprar contra. O bônus virou ônus.

DINHEIRO – Do ponto de vista econômico, como os Jogos Olímpicos contribuíram para amenizar esses problemas no Rio de Janeiro?
Neri – 
As contas municipais estão arrumadas e a renda continua crescendo. Uma coisa interage com a outra. No Brasil, esse problema de contas públicas contaminou todo o resto. O Estado do Rio de Janeiro está com problema fiscal e, desde 2013, a renda no resto da região metropolitana está parada. Diria que o município do Rio obteve todos os benefícios. O Estado está em uma situação intermediária entre a cidade e o País. E o Brasil encontra-se em uma situação difícil. Porém, o projeto olímpico está próximo de terminar e o Rio de Janeiro conta com uma população mais idosa e sem um projeto para o futuro. Os Jogos Olímpicos ajudaram muito o município. Não no sentido da infraestrutura ou do movimento turístico. Mas na vida das pessoas. O estilo de vida do carioca melhorou. Claro que ainda há uma série de problemas. O transporte piorou e o saneamento melhorou, mas foi não a revolução que precisávamos. No entanto, houve um progresso e uma inversão de tendências: a renda do carioca continuou crescendo, mesmo em um cenário nacional conturbado.

DINHEIRO – O que o carioca pode esperar para o futuro?
Neri –
 A taxa de investimento no município aumentou muito e a de capital humano também. Mas agora tem que haver um projeto. O que eu defendo é que o Rio de Janeiro saia dessa imagem de cidade e jovens bronzeados e assuma seu papel de uma cidade de idosos, igualmente bronzeados, porém, sem força de trabalho. Defendo a atração de jovens para a cidade, pois vai faltar mão de obra qualificada. Haverá um duplo problema: não teremos pessoas e precisamos criar um projeto para atração de jovens. Os jogos tiveram o mérito de tirar os cariocas do saudosismo da velha Guanabara, que era a capital. Foi um processo de decadência contínuo e os dados mostram que o evento trouxe essa mudança. Agora teremos que colocar outra agenda e não será fácil. O quadro é bem preocupante. 

DINHEIRO – Em decorrência da crise econômica, muitos falam que reduzir os programas sociais enxugaria os gastos públicos. O sr. acredita que programas como o Bolsa Família, por exemplo, precisam ser repensados? 
Neri –
 Repensar e reavaliar os cadastros das famílias é sempre importante. Mas eu não colocaria os programas sociais lado a lado. O Bolsa Família faz parte das soluções dos problemas fiscais e apresenta um gasto pequeno. Ele precisa ser aprimorado. O Bolsa Família gasta pouco, chega até a população pobre e faz a roda da economia girar muito mais que a transferência da previdência. Cada real que eu gasto com o Bolsa Família tem um impacto de R$ 1,68 no PIB, enquanto para a previdência é de R$ 0,68. Durante todo esse período, é como se o Brasil tivesse jogado dinheiro de cima do helicóptero sem avaliar direito o que estava sendo feito. Precisamos fazer o ajuste e a contabilidade de onde cada real rende mais. E, quando olhamos nessa ótica, alguns se destacam e outros devem ser diminuídos.

DINHEIRO – O desemprego passou a atingir os chamados chefes de família. Isso ajuda a explicar o retrocesso nos avanços sociais?
Neri – 
O desemprego é o principal problema trabalhista no Brasil, mas não é o principal problema social. A renda dos chefes de família está caindo 7,1% nos últimos doze meses. É preocupante, porque são os principais provedores. O principal fator que explica perda de renda é a inflação, que reflete nesse problema de produtividade. Obviamente, para quem está desempregado, é a pior coisa do mundo. Todavia, felizmente, a taxa de desemprego afeta uma minoria ainda. Temos que focar nos problemas estruturais. Mas desemprego não é o grande vilão da queda da renda dos brasileiros e nem dos chefes de família.

DINHEIRO – Como a alta no desemprego impactará no mercado de trabalho quando a economia retomar o ritmo de crescimento?
Neri –
 Tivemos um problema muito sério de produtividade até meados de 2014. Logo em seguida, passamos a ter um problema de desemprego e demanda, sem nos livrarmos dos problemas de produtividade. Então, na verdade, vamos precisar aumentar a produtividade. Mas, também, elevar o nível de ocupação, o que é difícil, porque a produtividade tende a diminuir a ocupação. Nesse caso, teremos que fazer os dois processos juntos. Para isso, será necessário que a economia cresça muito, algo que será bem difícil. Estamos, então, diante de algo muito sério.

DINHEIRO – O empresário Jorge Paulo Lemann deseja que sua fundação – a Fundação Estudar – ajude a formar um futuro presidente do Brasil. Qual será o papel dos jovens no setor público? 
Neri – 
Há uma linha de servidores públicos novos que tem uma missão na cabeça. Eles funcionam como uma brisa e oxigenam a máquina pública. É verdade que a população de jovens no Brasil nunca foi tão grande. No entanto, ela está altamente desempregada e sem oportunidades. Eu diria que a distância entre esse sonho de um jovem talentoso se tornar presidente do País ficou ainda maior, pois os jovens não estão sequer conseguindo arrumar uma vaga no mercado de trabalho. E essa frustração pode prejudicar o projeto nacional: uma juventude frustrada é um País que tende a ser frustrado no futuro.

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