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Entrevista

“Todas as obras da Olimpíada terminaram no custo e no prazo”

“Todas as obras da Olimpíada terminaram no custo e no prazo”

Luís Artur Nogueira
Edição 29.07.2016 - nº 978

Após sete anos e meio de mandato na Prefeitura do Rio de Janeiro, o peemedebista Eduardo Paes, 46 anos, já iniciou uma contagem regressiva rumo a 2017, quando terá um ano sabático na Universidade Columbia, em Nova York, onde dará cursos e palestras. “O meu futuro político é pensar em sair vivo até 31 de dezembro”, disse Paes ao receber a DINHEIRO em seu gabinete dias antes da chegada das primeiras delegações estrangeiras à cidade. O prefeito sabe que o ápice da sua carreira política será atingido nas próximas semanas, durante os Jogos Olímpicos. Otimista, ele aposta no sucesso do evento para, quem sabe, colher os dividendos. “Todo mundo na vida gosta de ser reconhecido”, admite. Conhecido por proferir frases apimentadas, Paes afirma que os brasileiros têm “complexo de vira-lata” e garante que o Rio será o lugar “mais seguro do mundo” durante o evento. “Não quer ter problema de segurança, nem atentado, nem assalto? Venha para o Rio de Janeiro.”

DINHEIRO – Os recentes atentados na Europa aumentaram a preocupação com os Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro. O sr. está preocupado? 
EDUARDO PAES –
 A segurança talvez seja a única área das Olimpíadas em que a minha interferência é mínima. É algo sob o comando do governo federal – Forças Armadas, Abin, Polícia Federal. Eu tenho visto essa preparação e tenho muita confiança no esquema de segurança. Várias agências de inteligência do mundo estarão aqui. Sabemos que o Brasil não é um alvo natural de atentados terroristas, mas as circunstâncias requerem muita atenção.

DINHEIRO – Na Eurocopa, realizada na França, o aparato de segurança era enorme e não houve problemas. Mas, dias depois, em Nice, houve um atentado…
PAES – 
Nesse tipo de atentado, o sujeito não precisa de muita circunstância para provocar uma tragédia. Não há excesso de zelo, mas um zelo no limite para a segurança do Rio. Eu diria que o Rio será o lugar mais seguro do mundo durante a Olimpíada. Não quer ter problema de segurança, nem atentado, nem assalto? Venha para o Rio de Janeiro.

DINHEIRO – Qual será o legado da Olimpíada para o Rio de Janeiro?
PAES –
 Tudo foi entregue. Isso é uma coisa curiosa. Há uma velha frase que diz que comunicação não é aquilo que se diz, mas o que os outros querem ouvir. Acho que as pessoas querem ouvir que não tem legado e que as obras foram superfaturadas. É uma loucura. Todas as obras de legado foram entregues, sendo que a Prefeitura é responsável por 90% delas. Todas as obras da Olimpíada terminaram no custo e no prazo. São 150 quilômetros de BRT, um VLT no centro da cidade, a revitalização da zona portuária, o saneamento da região de Deodoro, o fechamento do aterro do lixão de Gramacho às margens da Baía de Guanabara, os piscinões da Praça da Bandeira em torno do Maracanã etc. Na candidatura olímpica, havia 17 legados. Entregamos 27 projetos.

DINHEIRO – Obras no custo e no prazo não são tradições no Brasil. O que mudou desta vez?
PAES – 
A gente fez direito. Foi algo que a gente perseguiu o tempo todo. Outro dia eu fui interpretado de maneira equivocada quando disse que o Brasil perdia uma oportunidade com a Olimpíada. Era um pouco isso. A Olimpíada não pode ser apenas a celebração. A festa é incrível, mas é também uma oportunidade de mostrar que o País consegue fazer as coisas no custo e no prazo. Foi o que fizemos com a Olimpíada do Rio. Não tem Olimpíada com tanto dinheiro privado como a do Rio. Do custo das Olimpíadas, incluindo estádio e vila olímpica, 60% é privado. O estádio olímpico de Londres custou mais dinheiro público do que todos os estádios que estamos fazendo. É um super case para termos orgulho, mas o nosso complexo de vira-lata está exacerbado.

DINHEIRO – Passada a Olimpíada, quem arcará com a manutenção dos equipamentos?
PAES –
 Nós construímos a Olimpíada do Rio pensando no legado. O estádio de handebol, por exemplo, foi montado como um lego. Depois da Olimpíada, a gente desmonta e o transforma em quatro escolas municipais. O estádio aquático é outro lego em que se desmonta inclusive a piscina e vira dois ginásios para a cidade. Uma arena com PPP (Parceria Público-Privada) vira uma escola, outra arena vira centro de esporte de alto rendimento e outra arena é concedida à iniciativa privada para ser um local de shows e espetáculos. Todo o legado está definido. O piscinão, onde se disputará a canoagem, já foi inclusive usado neste verão como área de lazer pela população.

DINHEIRO – Os Jogos Olímpicos são sobretudo na cidade do Rio de Janeiro. O sr., como prefeito, acha que será reconhecido?
PAES –
 Seria ridículo eu dizer que não tenho preocupação com isso. Todo mundo na vida gosta de ser reconhecido. Mas a minha prioridade é que a cidade ganhe com isso. Esse é o meu esforço. Se o Rio ganhar com isso, já valeu a pena. E está ganhando. Eu posso afirmar que a cidade avançou muito. Não é uma cidade perfeita, não é Londres, nem Paris, nem Nova York. A Olimpíada não pode ser a responsável por transformar a cidade no local mais perfeito do mundo. Estamos no Brasil, um país desigual, com os problemas que a gente conhece. E muito menos é responsável por qualquer problema que o Rio enfrente. A violência não aumentou por causa da Olimpíada. O Estado não quebrou por causa da Olimpíada. A Olimpíada ajudou muito a cidade.

DINHEIRO – Qual é a oportunidade para o setor de turismo? 
PAES –
 Mais do que o turista que vem, há uma supervisibilidade internacional. Nós dobramos a rede hoteleira da cidade. O Rio não tinha um Hilton, um Hyatt, um Emiliano, um Meliá. Temos uma infraestrutura hoteleira e de eventos de negócios muito melhor.

DINHEIRO – Desde 2009, quando o Rio foi escolhido, até hoje, o Brasil piorou. Éramos o Cristo Redentor decolando nas páginas da The Economist. O que fizemos de errado?
PAES –
 Erramos na política e na economia, com duas super crises. Parece que começamos a sair delas. Quando eu me referi à oportunidade perdida é um pouco isso. Que pena que o Brasil, no foco do mundo, não esteja no seu melhor momento político e econômico. Foi isso que eu quis dizer. É uma constatação. Uma curiosidade: em 2012, fizemos a Rio+20. O Paulo Skaf veio aqui meses antes, o Brasil estava bombando e nós montamos a casa da Fiesp no Forte de Copacabana, que foi o lugar mais visitado pela população. Era o Brasil pujante e forte. Agora, o Paulo Skaf não me ligou nem para pedir ingresso na Olimpíada. Isso mostra um pouco do momento econômico que a gente vive. Isso é evidente.

DINHEIRO – O sr. teme que o foco da imprensa mundial não seja a disputa esportiva?
PAES –
 Não tem como. Não há risco de isso acontecer. Quando começa a competição é uma celebração linda. Até a Copa do Mundo, que eu não diria que tenha sido uma experiência bem sucedida de planejamento e legado, mostrou um País capaz.

DINHEIRO – O sr. vê algum problema de o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff ser concluído somente após a Olimpíada? 
PAES – 
Não. A vida é como ela é. É um fato. Eu me preocupo com as coisas que a gente pode mudar. Não é o caso.

DINHEIRO – Dilma deveria ir à cerimônia de abertura ou geraria um constrangimento? 
PAES – 
Não tenho opinião. É uma decisão exclusiva dela.

DINHEIRO – O deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), que foi seu adversário na eleição municipal de 2012, venceu a eleição para a Presidência da Câmara dos Deputados. Foi uma boa escolha?
PAES – 
Ele já é meu aliado há um bom tempo. O Rodrigo representa o fim da falta de diálogo. Pelo estilo do presidente da Câmara (Eduardo Cunha) e da presidente da República (Dilma Rousseff), a política se transformou num ringue de luta, num galo de briga. O Rodrigo é da base do governo, mas dialoga com a oposição. Aquilo não é um jogo de inimigos, adversários que se xingam loucamente e dizem ‘Vossa Excelência é um filho daquilo’. Era melhor até tirar o ‘Vossa Excelência’. O Brasil entrou nesse buraco essencialmente por isso.

DINHEIRO – Após o impeachment, o governo Temer terá condições de fazer as reformas estruturais?
PAES – 
Um governo que tem capacidade de dialogar sempre terá mais facilidade. Fazer política é buscar consensos mínimos. Num clima beligerante, em que você quer que o outro morra, que o País se dane, é impossível fazer reformas que mexem com interesses. Por isso, é preciso estabelecer consensos majoritários, que não são unanimidades.

DINHEIRO – Qual seria a prioridade?
PAES –
 No campo da economia, a questão fiscal é a mais importante. Há o teto de gastos e a reforma do sistema previdenciário. Já a reforma política, solta, é fácil de falar. Está na hora de a gente acabar com esse exagero de partidos, adotando cláusula de barreira ou cláusula de desempenho.

DINHEIRO – Por que a situação das finanças da Prefeitura é diferente da situação do Estado, que decretou calamidade pública?
PAES – 
Aqui, na Prefeitura, reduzimos a folha de pagamento em relação a 2009. Nossa taxa de investimento é uma média de 20%, a maior do Brasil. Nosso custeio aumentou porque cresceu a prestação de serviços, mas abaixo da inflação. Nossa dívida caiu de 90% para 30% das receitas correntes. 

DINHEIRO – Mas, ao contrário do governo estadual, a Prefeitura não depende tanto dos royalties do petróleo…
PAES – 
Quase nada. Isso nos blindou. E também tratamos custo como unha, sempre cortando.

DINHEIRO – Os governadores conseguiram renegociar as dívidas estaduais com a União. Os prefeitos querem o mesmo tratamento?
PAES – 
Quero reconhecer aqui que a presidente Dilma tomou medidas que reduziram enormemente as dívidas dos municípios. São Paulo, por exemplo, saiu duma proporção de 300% das receitas para 70%. Então os municípios já foram contemplados.

DINHEIRO – O governo Temer vai apresentar um programa de privatizações e concessões, que pode incluir o aeroporto de Santos Dumont. O sr. é favorável? 
PAES –
 Claro. A cidade do Rio de Janeiro tem as três maiores PPPs do Brasil e a maior concessão rodoviária urbana. Aqui a gente faz tudo com PPP e concessão.

DINHEIRO – Inclusive o Santos Dumont? 
PAES – 
Claro. Por que o Estado precisa ficar administrando aeroporto? Não é papel dele. O papel é oferecer saúde e educação.

DINHEIRO – Por que as concessionárias que ganharam a concessão de aeroportos no governo Dilma querem a revisão dos contratos? 
PAES –
 Acho que há duas questões. Uma crise econômica misturada com uma crise de credibilidade dessas empresas, que são grandes empreiteiras passando por problemas conhecidos (Operação Lava Jato).

DINHEIRO – O governo Temer sinaliza um BNDES mais enxuto. É correto? 
PAES – 
Acho que o governo tem de ter a sua agência de desenvolvimento que, no caso do Brasil, é o BNDES. Nós tivemos exageros? Será que o Brasil suportava essa história dos campeões nacionais? Suportava o modelo que exportava os serviços das empresas brasileiras? Eu não acho isso ruim desde que a conta possa ser paga. Hoje as pessoas tratam tudo como pecado. Vou dar um exemplo: o VLT do Rio de Janeiro é da Alstom, que á francesa. O Hollande (presidente da França) vem para a Olimpíada e pediu para andar de VLT comigo. Ou seja, ele está ali vendendo o produto francês. Aqui iriam dizer que o sujeito era sócio da Alstom.

DINHEIRO – E o seu futuro político?
PAES – 
Vou tirar um ano sabático, em 2017, na Universidade Columbia, em Nova York (EUA). O meu futuro político é pensar em sair vivo daqui até 31 de dezembro.

—–

Confira as demais matérias do Especial “Rio 2016”:

A caminho do legado olímpico
Os negócios de ouro da Olimpíada
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