Entrevista

“É hora de as economias avançadas ajudarem as emergentes”

“É hora de as economias avançadas ajudarem as emergentes”

Paula Bezerra
Edição 26/02/2016 - nº 956

As belas praias de Aracaju, em Sergipe, não fazem mais parte do cotidiano do economista Otaviano Canuto. Há pelo menos 12 anos, o economista de 60 anos trocou as altas temperaturas de seu estado natal pelo frio próximo de zero grau de Washington, nos Estados Unidos. Em 2004, ele foi nomeado diretor-executivo do Banco Mundial e, a partir de 2007, passou a ocupar a cadeira da vice-presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID. Esse amplo contato com economias em dificuldade, assim como a liderança de projetos voltados para a erradicação da pobreza global, pode ter contribuído para que Canuto se tornasse um otimista incorrigível, como ele mesmo se define. Há menos de um ano como diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional, ele avalia que, embora dura, a maior recessão no Brasil desde os anos 1990 deixará um legado, principalmente se reformas estruturais importantes, como a tributária, forem realizadas. De seu escritório na capital americana, o economista falou à DINHEIRO.

DINHEIRO – A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) classifica o atual momento global como a terceira fase da crise mundial de 2008. O sr. concorda? 
OTAVIANO CANUTO –
 Estamos, sim, em um terceiro estágio pós-crise de 2008. Enquanto há um esboço de recuperação da economia americana e uma recuperação mais lenta da Europa, o desempenho macroeconômico decepcionante está com as principais economias emergentes. Então, o quadro global continua sendo de crescimento moderado. A economia mundial só não mergulhou numa situação de crise mais profunda, após 2008, porque os emergentes tinham espaço para adotar políticas anticíclicas. Nesse sentido, até alguns mais entusiasmados, como eu, falavam da possibilidade de os emergentes assumirem um papel de locomotivas do crescimento global, resgatando as economias avançadas dos problemas de expansão.

DINHEIRO – Mas os emergentes não escaparam da crise.
CANUTO –
 Com o benefício de poder olhar para trás, precisávamos entender que, se por um lado as economias emergentes evitaram um colapso mundial, por outro, não ocorreu o mito da possibilidade de descolamento integral. O fato é que, depois desse primeiro momento em que o foco das atenções estava no epicentro da crise, no caso os Estados Unidos, vem uma segunda fase que pode se localizar principalmente na Zona do Euro. Ficou claro que os mesmos fatores que levaram a um boom frágil na economia americana pré-2008 tinham sido equivalentes na Europa, com crescimento artificialmente sustentável por meio de financiamento insustentável aos países do Sul do continente. Essa foi a segunda fase da crise global. Agora, em um terceiro momento, ainda que a recuperação europeia tenha sido tímida e a economia americana não tenha voltado ao ritmo de crescimento pré-crise, faz cinco anos consecutivos que as economias emergentes desaceleraram. O eixo do crescimento mundial volta a depender das mais avançadas. Portanto, é hora de as economias avançadas ajudarem as emergentes a se recuperar.

DINHEIRO – Alguns especialistas afirmam que é o fim do acrônimo Brics. Ainda é cedo para essa conclusão? 
CANUTO –
 Sim, ainda é cedo para afirmar isso. Os agrupamentos de países são criados na extensão em que eles tenham interesses em comum. A agenda dos Brics se materializou em eventos, como a criação de um banco, e arranjos de compartilhamento de reservas. A partir do momento em que haja novos temas e que a cooperação seja favorável, esses itens irão para a agenda. É dessa forma que o mundo se move. O mesmo se aplica a todo e qualquer agrupamento de países.

DINHEIRO – Quais são os motivos para a desaceleração chinesa? 
CANUTO – 
A China é um caso a parte, pois ela já vinha desacelerando antes da crise de 2008. Boa parte do estado chinês e da gerência macroeconômica do país sabia que o crescimento anterior, que era extremamente exitoso, não poderia perdurar para sempre. Porém, o movimento de saída do modelo antigo foi muito mais lento do que o desejável. Nesse ponto é onde entra a prontidão de regulação financeira que permitiu um novo ciclo de investimentos, ampliando a capacidade de setores industriais que já estavam atuando com a capacidade ociosa. Isso permitiu um boom imobiliário puxado pelas empresas públicas, que se financiaram através de um sistema de financiamento paralelo. Nesse momento, o Shadow Bank chinês floresce para evitar um colapso total na demanda agregada. Se, por um lado, isso teve êxito em impedir uma queda dramática na taxa de crescimento, por outro deixou um legado preocupante, com excesso de capacidade ociosa em alguns setores.

DINHEIRO – E onde erraram os demais emergentes? 
CANUTO – 
Pode-se dizer que houve o mesmo receio de desacelerar o crescimento. Ao invés de adotar reformas estruturais que fazem sentido em cada país, eles estenderam o modelo de crescimento usado anteriormente, como forma anticíclica. Isso se replicou em várias economias, como no Brasil, Rússia, Índia, África do Sul, Indonésia e México. Porém, a medida anticíclica é muito limitada e serve uma única vez. Não adianta tentar repetir a dose, pois seus efeitos serão cada vez menores. De certa maneira, a desaceleração passou a ocorrer não apenas no Brasil, mas em todos os emergentes a partir de 2011. Essas economias iniciaram um novo ciclo e a resposta usada pelos governos deixou um rastro de problemas fiscais e de excesso de capacidade em setores produtivos, como é o caso dos que continuaram investindo pesadamente em commodities. 

DINHEIRO – Como será o esboço da nova economia mundial? 
CANUTO – 
Certamente, o peso na balança mudará e não voltaremos para o modelo que tivemos após a crise de 2008, em que o incremento do PIB mundial dependia do mundo emergente em quase 80%. Teremos uma distribuição de responsabilidade no crescimento mundial um pouco mais balanceada. No entanto, ainda muito provavelmente o mundo emergente continuará exibindo a médio e longo prazos um crescimento maior que as economias já desenvolvidas. A convergência do mundo em desenvolvimento em direção às economias avançadas ainda tende a ser uma característica central da economia global.

DINHEIRO – A crise no Brasil justifica a redução da expectativa de crescimento para a América Latina e para o País, feita pelo FMI?
CANUTO – 
Não dá para entender a profundidade da crise econômica brasileira sem levar em conta alguns pontos. O primeiro começa a se desdobrar depois do início dos anos 1990, com um padrão que intrinsecamente iria apresentar sintomas de exaustão, já que é um padrão de crescimento com resultados em termos de redução de pobreza e de melhora da distribuição de renda. O problema é que o setor público adquiriu várias atribuições, sem que privilégios anteriores tivessem sido revisitados. Simplesmente adicionaram-se a gastos públicos anteriores novos gastos. Então, não é por acaso que a despesa pública continuou crescendo.

DINHEIRO – Esse foi o principal erro do Brasil?
CANUTO – 
A presidente Dilma já reconheceu que os mecanismos anticíclicos foram estendidos por tempo demais. Posteriormente, já em meados de 2012, houve uma tentativa de revitalização do crescimento por meio da inauguração de um novo ciclo, dessa vez baseado em investimentos privados e públicos. Mas não se chegou a um padrão de investimento para dar confiança ao setor privado. No segundo mandato de Dilma já era sabido que 2015 seria um ano duro em alguns aspectos, que a inflação subiria com choque de preços e que o Banco Central aumentaria os juros. Porém, o que ninguém previu era que o declínio do PIB chegaria a esse nível. A verdade é que a crise de governança e a descoberta de esquemas de corrupção dificultaram o financiamento e paralisaram o interesse no País.

DINHEIRO – A recessão vai aumentar a desigualdade?
CANUTO – 
Não, se estiver certo na percepção de que o resultado sobre as atuais investigações sobre a corrupção será algo benigno. As investigações e a ruptura nas estruturas de mercado estão sendo dolorosas macroeconomicamente no curto prazo, mas no médio e longo prazos têm algo totalmente benigno. Haverá mais competição no setor privado e em todas as estruturas de mercado, porque condições privilegiadas não existirão mais. Com menos pedágio, a relação entre resultados e gastos públicos vai ser melhor.

DINHEIRO – Há outros fatores positivos em meio a essa crise?
CANUTO – 
Sim, a nossa arrecadação tributária vinha pelo consumo e agora ela passa por um processo benigno. A carga de tributos em relação ao PIB caiu no ano passado. A economia transita de um déficit volumoso de conta corrente para um equilíbrio do comércio. O consumo tem de cair em relação à produção. Ora, se cai o consumo como proporção do PIB brasileiro, um sistema tributário que dependa do consumo vai ter de cair. Com isso, entra a proposta da CPMF. Por enquanto, eu a entendo como algo para cobrir esse buraco temporariamente deixado pela queda da arrecadação, até que se faça a revisão do gasto público, de modo que não seja mais necessária uma carga tributária como a que se tinha em 2014.

DINHEIRO – As agências de classificação de risco enxergam a possibilidade de calote?
CANUTO – 
Não creio. Essa hipótese de algum tipo de não cumprimento é uma hipótese com a probabilidade próxima de zero. Estamos longe de encarar um cenário desse. É claro que, se a deterioração fiscal dos últimos anos continuar, a situação mudará de figura. No entanto, é preciso ter claro que o rebaixamento da dívida pública brasileira pelas três grandes agências de classificação de risco nada mais é do que uma alteração no grau de probabilidade atribuída a um evento negativo. Claro que o rebaixamento não é uma boa notícia, principalmente por aumentar o custo de financiamento da dívida pública, mas não é algum tipo de previsão de que a economia esteja à beira de um abismo. Eu quero crer que isso aumentará a percepção da sociedade brasileira sobre a necessidade de implementar o ajuste fiscal. Sou um otimista em última instância e acredito que isso irá gerar uma discussão e a aprovação de uma agenda de reformas, a tributária, a da previdência, entre outras pequenas, para melhorar o ambiente de negócios.

DINHEIRO – Como o mundo avalia os escândalos de corrupção no Brasil? 
CANUTO – 
O processo pelo qual o mundo está vendo o Brasil reforça a imagem de que a lei é cumprida no País. Isso, no futuro, reduzirá o prêmio de risco que os agentes privados incorporam ao cálculo de investimento em relação ao País.

DINHEIRO – O sr. acredita que a presidente Dilma terminará o mandato?
CANUTO – 
Se me perguntar como indivíduo e cidadão, creio que sim. Agora, quanto à capacidade de análise do processo jurídico, eu me recolho à minha ignorância.

DINHEIRO – O sr. foi convidado para ser ministro da Fazenda. Por que recusou? 
CANUTO –
 Não, não teve isso. Eu não consigo imaginar um ministro da Fazenda melhor que o Nelson Barbosa para o momento atual do Brasil.

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