Entrevista

“Existe espaço na telefonia para a consolidação entre os pesos-pesados”

“Existe espaço na telefonia para a consolidação entre os pesos-pesados”

André Jankavski
Edição 17/07/2015 - nº 925

O setor de telefonia no Brasil é superlativo em todos os quesitos. O número de linhas de celulares, por exemplo, já ultrapassou os 280 milhões, maior mesmo que a população total do País. Os investimentos das maiores empresas do setor, no ano passado, chegaram a R$ 30 bilhões. O volume de reclamações, no entanto, cresce na mesma velocidade, mostrando que os serviços deixam a desejar. Uma das protagonistas nessa área é a Claro, do grupo mexicano América Móvil, controlado pelo bilionário Carlos Slim, também dono da Embratel e da NET. Presidida pelo executivo Carlos Zenteno, homem de confiança de seu patrício Slim, a empresa tenta se reinventar para driblar a crise brasileira e diminuir o prejuízo de sua controladora, que chegou a R$ 2 bilhões, de janeiro a março deste ano. “O consumidor está mais cuidadoso e menos confiante, e isso está piorando a crise no País”, afirma Zenteno, que ainda enxerga espaço para a consolidação dentro do mercado brasileiro de telefonia.

DINHEIRO – O senhor chegou ao comando da Claro, em 2010, como o homem forte de Carlos Slim. Como os mexicanos e o próprio Slim estão vendo a atual situação do Brasil?
CARLOS ZENTENO –
 O grupo sempre tem sido otimista e muito positivo em qualquer situação nos países em que opera. Temos a filosofia de investir nos momentos complicados. Continuaremos com o foco de melhorar a tecnologia, o atendimento e em criar novos serviços para os nossos clientes. Carlos Slim sabe que existem crises nos mais diversos países e que precisamos aproveitar oportunidades como essa, para crescermos.

DINHEIRO – Como o senhor vê a condução da política econômica promovida pela presidente Dilma Rousseff?
ZENTENO – 
O País tem de fazer as mudanças necessárias para sair dessa situação. Como estrangeiro, eu entendo e vejo que o País tem tudo para dar certo e sei da dimensão dele para o mundo. O consumidor está mais cuidadoso e menos confiante, o que complica a situação. Ele está tendo uma mudança de conduta. As empresas têm que entrar na cabeça do cliente para entender o que ele quer e precisa em um período como este.

DINHEIRO – Como está o ano de 2015, em que é esperada uma recessão, para a Claro e para o setor de telefonia?
ZENTENO –
 O mercado está em uma situação de contração e redução de consumo. Isso é um fato. Então, temos de ser criativos para compensar essa situação. As pessoas estão muito preocupadas com suas despesas, em como manter seu nível de vida, considerando o contexto atual. Por isso, até lançamos pacotes de ofertas, como o acesso a diversas redes sociais de forma gratuita, observando a mudança dos consumidores. As pessoas não usam mais tanto voz como antigamente, mas dados. Diferentemente de outros tempos, as comunidades não são baseadas mais em números telefônicos, mas em aplicativos, seja de mensagens ou redes sociais.

DINHEIRO – O setor pode crescer nesse período de crise?
ZENTENO – 
Eu sou otimista quanto ao avanço do setor. Comunicação, entretenimento e informação, que são três pilares do consumo, são o nosso negócio. Não temos porque temer a crise. As empresas de telefonia, contudo, não podem se preocupar simplesmente em vender seus serviços. É preciso entender as necessidades do cliente. Às vezes, uma TV a cabo não resolve, mas uma opção por satélite pode suprir as suas necessidades, pois ele gosta de levar sua antena para a casa da praia, por exemplo. Assim como oferecer a melhor velocidade, plano de internet e telefone para as pessoas. Cada uma tem uma necessidade diferente. Não é só chegar e vender.

DINHEIRO – Mas a Claro diminuiu o investimento, em 2015. No ano passado foram aplicados R$ 10 bilhões na operação brasileira e, agora, a previsão é de R$ 8 bilhões…
ZENTENO –
 Esses números tiveram algumas diferenças porque investimos nas compras das frequências de 4G, no leilão promovido pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Mas, em tecnologia e infraestrutura, especificamente, estamos investindo a mesma quantia do ano passado. Existe essa diferença, de fato, mas mantivemos os investimentos, mesmo tendo uma cultura austera. Isso pode ser visto no nosso prédio, que não tem nenhuma extravagância. Faz parte da nossa filosofia de controlar os recursos. Colocamos dinheiro apenas onde vemos possibilidade de retorno, então isso evidencia o otimismo com o País, mesmo em um período difícil.

DINHEIRO – O senhor acredita que os desdobramentos da Operação Lava Jato podem impactar os negócios e a expansão da infraestrutura do setor de telefonia?
ZENTENO – 
O setor conta com uma rede de fornecedores internacionais e nacionais, com os quais todas as operadoras já trabalham há tempos. A Lava Jato não tem interferência na nossa expansão. Neste ano, temos o desafio de fazer a migração da tevê analógica para a digital, entre todos os operadores. Para isso, foi criada uma entidade, a EAD, que vai fazer todo o trabalho de mudança. Fazemos parte de um setor muito profissionalizado. Vamos cumprir as metas para liberar as frequências de 700 Mhz. Então, podemos afirmar que o setor de telefonia está realizando o seu trabalho, pois temos compromisso com a qualidade e com Anatel.

DINHEIRO – O que as companhias de telefonia podem fazer para ter um papel importante na recuperação da economia brasileira?
ZENTENO –
 As empresas de telecomunicações podem ser pilares para a volta do crescimento. Podem contribuir para que as empresas sejam mais produtivas e mais bem capacitadas a se comunicar. As companhias do setor podem, inclusive, criar plataformas para ajudar seus clientes, corporativos ou pessoas físicas, a reduzirem seus custos.

DINHEIRO – De que forma?
ZENTENO –
 As pessoas estão relutantes em gastar dinheiro, até mesmo para ir ao cinema e comer fora. Quando se tem uma economia turbulenta, percebemos que os brasileiros tendem a ficar em casa assistindo a filmes ou na internet. Já os empresários vêm evitando viagens e estimulando a comunicação por meio de conferências internacionais. O setor é o melhor aliado para agradar qualquer tipo de consumidor em busca de redução de gastos.

DINHEIRO – E como o senhor avalia a concorrência no Brasil? 
ZENTENO –
 Há dois operadores que são convergentes em todos os segmentos de telefonia, a América Móvil e a Vivo. A Oi pode ser considerada, mas em menor escala, mesmo com os problemas que a cercam. A TIM, a despeito dos problemas de sua controladora, é uma operadora muito mais focada em telefonia e que faz investimentos pesados no principal produto. Todos os operadores são pesos-pesados de alguma maneira. Não existe empresa que não consiga manter o ritmo de crescimento e a competição no País é uma das mais acirradas em comparação com qualquer mercado do mundo. Temos até a Nextel, que corre por fora. Ainda podemos citar as companhias com atuação regional, como a Sercomtel, no Paraná.

DINHEIRO – O momento turbulento da Oi e da Telecom Italia, controladora da TIM, evidencia a existência de oportunidades para consolidações de grande porte no setor?
ZENTENO – 
Existe espaço na telefonia para a consolidação entre os pesos-pesados. Isso, porém, é um movimento mundial, como foi visto na compra da DirecTV pela AT&T, nos Estados Unidos. O Brasil conta com um mercado gigante e com uma concorrência acirradíssima, sem consolidação. Isso chama a atenção de muita gente.

DINHEIRO – A Claro fez uma promoção oferecendo o acesso sem cobrança às redes sociais para seus usuários. Isso não causa uma canibalização com a voz? Segundo dados da Anatel, as chamadas de voz caíram 16,6%, no primeiro trimestre.
ZENTENO – 
Também tentamos fazer ofertas parecidas com voz. A promoção foi mais para trazer uma tranquilidade aos nossos clientes, mostrando que eles podem pagar um valor aceitável e continuar utilizando os dados. Isso, consequentemente, estimula-os a continuarem usando o serviço de voz. Há coisas que você consegue resolver seguramente com uma mensagem, uma foto ou qualquer arquivo, mas há assuntos que requerem ligações. Não tem jeito. De qualquer forma, as pessoas estão mudando e precisamos mudar com elas.

DINHEIRO – A rede brasileira pode ser considerada atrasada em comparação ao restante do mundo, já que o 4G ainda é pouco difundido?
ZENTENO –
 É preciso desmistificar essa percepção de que o Brasil está atrasado em relação ao restante do mundo. Fomos o primeiro País da América Latina a lançar o 4G. Por quê? Porque todos os elementos de avanço estão sendo acompanhados pela Anatel. Isso tem levado os operadores a estar sempre à frente da tecnologia mais atualizada. Expandir qualquer tipo de serviço no Brasil, no entanto, é um desafio e leva tempo. Trata-se de um País de dimensões continentais e que precisa de investimentos monumentais. No começo ano, assumimos a meta de dar cobertura 4G em regiões como São Paulo e Salvador. Já parou para imaginar a distância entre essas regiões? Mesmo com as dificuldades, o setor está alinhado com as metas esperadas.

DINHEIRO – Como o senhor vê o trabalho da Anatel? Tem havido um excesso de intervenção, na sua opinião?
ZENTENO –
 A Anatel é um dos reguladores mais profissionais do mundo. É muito técnica e os funcionários são de carreira e conhecedores de tecnologia. Eles têm um controle muito grande do setor, ainda mais no quesito de qualidade. Desde 2012, quando tivemos a suspensão das vendas, cumprimos todas as medidas da Anatel. A Claro, por exemplo, encerrou aquele ano com 93% da meta concluída.

DINHEIRO – O bloqueio de 2012, então, foi bom para o setor?
ZENTENO –
 Foi um aprendizado para todos. Era uma situação que pedia uma reinvenção e todos tiveram de mudar os seus planos.

DINHEIRO – O bloqueio após o término da franquia do celular tem sido um assunto frequente nas discussões sobre o setor. Qual é a sua visão sobre o tema?
ZENTENO – 
O bloqueio da internet, após o término da franquia, é uma tendência mundial. Todos têm o pacote contratado, independentemente do tamanho dele, e se acabar, terminou. A infraestrutura para o 3G e 4G é cara de se manter. Para piorar, os clientes tinham uma percepção errada de qualidade. Quando tinham a redução de velocidade, os consumidores reclamavam pensando que era problema da operadora.

DINHEIRO – No primeiro trimestre deste ano, a operação brasileira da América Móvil teve um prejuízo de R$ 2 bilhões, ante um lucro de R$ 400 milhões registrado no mesmo período do ano anterior. Isso tem algo a ver com a desaceleração da economia?
ZENTENO – 
Estamos trabalhando para melhorar o nosso resultado, mas foi mais por conta do processo de integração das empresas. Continuaremos a fazer um trabalho para voltar ao azul. Toda a empresa precisa entregar rentabilidade aos seus acionistas, além do serviço aos clientes. Entregar lucro no Brasil, neste ano, é ainda mais desafiador.

Copyright © 2020 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.