Entrevista

“Quem gasta mais água tem de pagar mais”

“Quem gasta mais água tem de pagar mais”

Luciele Velluto
Edição 15/08/2014 - nº 878

Engana-se quem acredita que São Paulo é uma região farta de água. A terra da garoa, há muito tempo, deixou de ter esse clima que lhe era tão peculiar. A maior região industrial do País e seu entorno vivem uma crise hídrica que ameaça não só a produção como o gigantesco mercado consumidor paulista. Se nada for feito, tudo isso pode piorar. Segundo o ex-presidente do conselho da Sabesp e ex-secretário de Recursos Hídricos, Saneamento e Obras de São Paulo no governo Covas (1995 a 1998), Hugo Marques da Rosa, a oferta desse recurso por habitante na região metropolitana de São Paulo é, atualmente, semelhante à das regiões consideradas as mais secas do País, como o agreste nordestino.

“É preciso ter consciência que há escassez.” O crescimento da população na região metropolitana de São Paulo, a melhora de renda e ainda a impermeabilização do solo são fatores que levaram esse elemento da natureza a se tornar cada vez mais raro e precioso para os paulistas. Na visão de Rosa, que hoje comanda sua empresa, a Método Engenharia, uma das soluções para o iminente colapso dos recursos hídricos está em diminuir a demanda. A saída proposta pelo engenheiro é elevar o custo para os maiores consumidores e, assim, através de sanção econômica, reduzir o consumo de água. Leia, a seguir, sua entrevista:

DINHEIRO – A cidade de São Paulo já enfrentou problemas de racionamento na década de 1990. Pode-se comparar com a situação atual?
HUGO DA ROSA –
A situação era diferente. O reservatório que estava ameaçando entrar em colapso era o de Guarapiranga, um sistema menor que o da Cantareira. Houve uma escassez. A Sabesp não produzia e distribuía a quantidade necessária de água para toda a região metropolitana. Então, havia rodízio permanente, independentemente de ter chuva ou não.

DINHEIRO – A questão geográfica de São Paulo atrapalha?
DA ROSA –
A região metropolitana está no lugar errado. Todos os rios que passam nessa região nascem aqui. É a única área urbana do mundo desse porte que está na nascente de um rio. O Tietê nasce em Salesópolis, na região metropolitana de São Paulo. Londres está na foz do rio Tâmisa. Há uma enorme bacia e uma vazão muito maior para abastecer a cidade. Paris está no meio do Sena. Esse fator em São Paulo faz com que a disponibilidade hídrica por habitante seja menor que a de muitas regiões do Nordeste, comparável às regiões mais secas, como o agreste nordestino.

DINHEIRO – Não há fontes próximas a São Paulo? Qual é a solução?
DA ROSA –
No norte, só a Cantareira é disponível. No sul, tem a Serra do Mar. Não dá para captar em Cubatão e bombear a 700 metros de altura. No leste, tem o rio Paraíba, mas este abastece o Rio de Janeiro e fazer a transferência dessa bacia pode provocar conflitos com esse Estado. A oeste, não há mananciais disponíveis. Estamos usando o que temos. Os dois últimos recursos são a Bacia do Ribeira (onde há o projeto São Lourenço) e a represa Billings, que já abastece a região do ABC e também reverte para a Guarapiranga.

DINHEIRO – O rio do Vale do Ribeira seria uma fonte alternativa viável?
DA ROSA –
Teria de bombear, pois está mais baixo que a região metropolitana. Tem de vencer a serra. E tudo isso num cenário de mudanças climáticas.

DINHEIRO – Só a falta de chuva causou a escassez ou há problema de planejamento urbano?
DA ROSA –
Há dados sobre chuva nessa região nos últimos 84 anos. É um período historicamente curto para prever os ciclos hidrológicos. Essa estiagem é a mais forte de todas. As ações que precisam ser feitas estão planejadas, como o Projeto São Lourenço. Não é simples e precisa ter viabilidade, que pode ser feita através de uma parceria público-privada. Não vejo falta de planejamento. Houve um fato muito difícil de prever, porque é inédito. É preciso ter consciência de que há escassez. Nós impermeabilizamos a região metropolitana. Quando chove, a água escorre rapidamente, vai para os córregos, inunda e não infiltra no solo. Ela não abastece os mananciais subterrâneos e não alimenta os rios na época de estiagem. Se não houvesse esgoto, os rios da região metropolitana ficariam secos.

DINHEIRO – Os mananciais do entorno da Grande São Paulo precisam passar por uma recuperação?
DA ROSA –
Mais de 50% da região metropolitana fica na área de proteção de mananciais. A legislação criada para protegê-la colocou enormes restrições ao uso desses terrenos. Com isso, houve uma desvalorização muito grande das propriedades. Se há população que não tem como morar na região central, ela vai para onde o terreno é barato. E onde estão os terrenos? Nas áreas de mananciais. Houve muito loteamento clandestino nessas áreas, como entre as represas de Guarapiranga e Billings, feito pelos próprios donos. A lei causou o efeito contrário do que se pretendia.

DINHEIRO – Faltou controle para conter o avanço da população para essas áreas?
DA ROSA –
Os planos diretores de São Paulo ficaram sempre focados na questão do coeficiente de construção, quanto vai pagar, se adensa ou não. Mas o plano diretor tinha de ser para toda a região metropolitana. Nessa área, nenhum problema é estritamente da cidade. Seja emprego, seja transporte, saúde. O mosquito da dengue não respeita limite de município. mananciais e água, também não.

DINHEIRO – Mas isso não deveria ser feito pelo Estado?
DA ROSA –
Em tese, é o governo do Estado que deveria cuidar. Mas não há instrumentos para isso. É preciso pensar em habitação, emprego e saneamento em conjunto.

DINHEIRO – O que pode ser feito, na prática, para proteger os reservatórios?
DA ROSA –
Não podemos retirar tanta água da Cantareira. Não é sustentável. Teremos de trabalhar com a oferta e a demanda. Aumentar o reúso de água e as estações de tratamento. E garantir que a água para as necessidades básicas das pessoas seja acessível, que elas possam pagar. Mas a água que é usada para lavar carro, calçada ou regar o jardim tem de ser muito cara. A tarifa já é progressiva, mas precisa ser mais para penalizar o consumo em excesso. Com a melhoria da distribuição de renda, houve mais consumo. Quem ganha mais gasta mais água. A oferta é finita e estamos próximo do limite que é possível produzir. A população precisa ter consciência de que não existe mais água.

DINHEIRO – E os grandes consumidores? Deveriam sair do sistema?
DA ROSA –
Os grandes consumidores precisam pensar em água de reúso. Muitas empresas já saíram de São Paulo. Mas a indústria pode resolver com água de reúso. No cinturão ver­de, como na nascente do Tietê, já existe um processo de racionalização para economia de água. Também precisamos de equipamentos, como chuveiros e torneiras, que utilizem menos água. É preciso fazer um pouco de cada coisa. Não existe uma bala de prata que seja a solução. Todos têm de fazer sua parte.

DINHEIRO – Existe incentivo real para que as empresas e os condomínios residenciais adotem reúso?
DA ROSA –
Isso deveria ser exigência. Em regiões como a Grande São Paulo, o reúso deveria ser compulsório, não depender da vontade do empreendedor. Nos Estados Unidos, há requisitos de eficiência energética. Aqui, só se a empresa quiser uma certificação ambiental. Quando tivemos problemas de abastecimento de energia, banimos a lâmpada incandescente. Porém, não banimos a válvula hidra dos banheiros. Temos muitos equipamentos que desperdiçam água. Não dá para esperar que só as pessoas façam alguma coisa.

DINHEIRO – Quais outros produtos poderiam sair do mercado?
DA ROSA –
Há outros, mas acho que a sanção econômica é mais eficaz nesse momento. Quem gasta mais já paga mais. No entanto, atualmente, a água não sai tão caro para quem tem poder aquisitivo mais alto.

DINHEIRO – A Sabesp não admite racionamento, apenas incentivo para os consumidores gastarem menos. A transparência do governo sobre a crise da água não seria importante?
DA ROSA –
Estamos numa situação crítica e isso é de conhecimento de todos. Essa escassez pode ser reflexo de mudança climática. O regime de chuvas é diferente, a garoa não existe mais, não existe inverno com cara de inverno. As mudanças no clima estão acontecendo e as previsões são de que haverá redução do nível de chuvas do norte da Argentina ao Sudeste brasileiro. Não sabemos com que velocidade, mas vai acontecer. A disponibilidade hídrica pode ser ainda menor no futuro. É o prenúncio de situações mais sérias no futuro.

DINHEIRO – Com previsões como essa para a América Latina, a Sabesp já não sabia que haveria menos chuva?
DA ROSA –
Não é um problema único do Brasil. Participei do conselho consultivo da Suez Environnement, que administra os recursos hídricos de Barcelona. Toda a região da Catalunha sofreu um problema de escassez tremendo, a ponto de ter de vir água de navio abastecer a cidade. E lá já é feito o reúso de água, com muitos recursos contra perdas. Em Cingapura, o abastecimento é catastrófico. Eles já tentaram comprar esgotos da Malásia para abastecer a população. A escassez não é própria do agreste nordestino ou de países subdesenvolvidos. Há locais com problemas sérios.

DINHEIRO – O esgoto poderia ser aproveitado em São Paulo?
DA ROSA –
É caro, mas chega um momento em que é a única saída. Já a dessalinização não é opção, pois estamos a 700 metros acima do nível do mar. O que temos de confrontar é o custo do reúso versus a captação cada vez mais longe.

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