Entrevista

“A economia vai definir a eleição”

“A economia vai definir a eleição”



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“FHC nos legou uma inflação sem controle, juros altos e balança comercial negativa”

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“O procurador Antônio Fernando teve liberdade para agir. E sua denúncia é forte”


 

DINHEIRO ? A política econômica tende a mudar com a entrada de Guido Mantega no Ministério da Fazenda?
TARSO
? Desde o início do governo, fiz uma série de manifestações à política econômica. E não mudei minha posição. A estabilidade macroeconômica não é um fim em si mesmo. E nem uma mera satisfação para o mercado. A estabilidade é uma necessidade para um projeto de desenvolvimento e de inclusão social. O trabalho técnico do ministro Antonio Palocci conquistou a estabilidade. A polêmica que se deu fora do governo foi de ritmos e prazos que versavam sobre as conseqüências da política econômica sobre o crescimento. Quando tivemos no terceiro ano um crescimento de 2,34%, a razão das pessoas que criticavam o ritmo ficou comprovada. O discurso do governo após a entrada do ministro Guido é pegar a estabilidade e colocá-la como base de um projeto de crescimento que nos permita responder, desde já, com taxas de 4,5% ou mais.

DINHEIRO ? O que está sendo feito para que isso ocorra?
TARSO
? O que posso dizer é que há uma orientação do governo e do presidente. Nosso discurso não é só a estabilidade. É a estabilidade como conquista e o crescimento como fundamento de um processo de combate à desigualdade.

DINHEIRO ? O senhor quer dizer que a economia vai melhorar com Mantega?
TARSO
? O que estou dizendo é que o Guido tem boas chances de aproveitar a conquista dos últimos anos. Ele tem sob comando um processo que nos permite ver boas chances de crescimento de 4,5%.

DINHEIRO ? Isso é uma meta?
TARSO
? É objetivo.

DINHEIRO ? E os juros?
TARSO
? Não vou falar sobre juros, como diria o José Alencar. A taxa está declinante e não vou comentar questões técnicas.

DINHEIRO ? Há risco de fuga de capital com juro menor?
TARSO
? A questão de investimentos externos não é só resolvida por operações matemático-financeiras. É o ambiente político, social e econômico que propicia a vinda de investimentos. Nossas instituições, mesmo em meio a uma crise política, estão funcionando de uma maneira adequada. O Brasil tem um ambiente positivo. A taxa de crescimento, apesar de ter sido medíocre no ano passado, tem uma média positiva e vai crescer. Mantendo o equilíbrio fiscal e um superávit primário razoável, não tememos que haja fuga de capitais.

DINHEIRO ? Há a impressão de que o governo pode abusar dos gastos em um ano eleitoral. Como fica esta situação?
TARSO
? O ministro Guido é muito duro nessa questão. Seguramente, ele se compromete com a meta fiscal e esta será realizada plenamente. Nem para baixo e nem para cima. Isso é importante para nós.

DINHEIRO ? A reação tranqüila do mercado com a indicação de Guido Mantega traz uma expectativa de continuidade da gestão Palocci. Mas há também um receio …
TARSO
? Do Guido Mantega ser uma espécie de Carlos Lessa com tintura genovesa …

DINHEIRO ? Exatamente. Ele seria o homem da guinada econômica num segundo governo Lula?
TARSO
? Essa não é uma questão do partido, nem ainda do governo. Posso abordar essa relação do ministro com o mercado de duas formas. Uma é como se o mercado fosse um ente politizado que se move de maneira demiúrgica, como se observasse as pessoas pelo seu comportamento e a partir daí punisse ou acolhesse. Essa visão é uma bobagem que determinados setores neoliberais tentam infligir, sob os interesses de agências financeiras privadas. O mercado não reage segundo as ideologias, mas em uma cadeia objetiva realizando determinados interesses. Tanto que o mercado vê a China muito bem. E a China é um país estatista, socialista. O mercado analisou o ministro Guido e viu que a política é do presidente da República e quem tem a confiabilidade conquistada até agora é o presidente. O ministro Guido não fará nenhum gesto de desestabilização. Obviamente, ele tem uma visão já manifestada de que vai comandar um crescimento acima de 4%. E é isso, o bom desempenho da economia, somado à eficácia dos programas sociais implantados pelo governo Lula, que vai definir a sucessão presidencial em 2006. Pensar diferente, é ingenuidade. No fim do governo Fernando Henrique, tínhamos inflação descontrolada, juros altos e balança comercial negativa…

DINHEIRO ? Muito disso era o risco Lula. Medo de um radicalismo na economia.
TARSO
? Eu penso que não. E acho que o eleitor irá comparar o desempenho dos dois governos.

DINHEIRO ? O ministro Palocci era o principal conselheiro econômico do presidente. Quem é o conselheiro agora?
TARSO
? O ministro Guido.

DINHEIRO ? Mas os perfis não são opostos?
TARSO
? Obviamente, o presidente conversa sobre economia com vários ministros do governo. Com a ministra Dilma Rousseff, com o Henrique Meirelles, mas o ministro Guido é o interlocutor da economia. É natural e importante que o principal conselheiro econômico de um presidente seja o seu ministro da Fazenda. E assim é. O Guido tem toda a confiança do presidente.

DINHEIRO ? O governo tem tido problemas em avançar na votação para o Orçamento. Como fica a situação do País?
TARSO
? Acabamos de editar uma medida provisória para que o País não pare e estamos estudando a necessidade de outra. Mas elas vão perder a eficácia com a aprovação do Orçamento. Confio num acordo. Mas não podemos deixar de governar por causa de um embate político.

DINHEIRO ? E por que não se vota?
TARSO
? Por conta de meia dúzia de questões regionais, de vários partidos. Mas são demandas que teriam de mudar, e muito, o perfil do Orçamento que foi apresentado.

DINHEIRO ? Em quanto?
TARSO
? Esses números são da Fazenda. Mas a decisão de votar o Orçamento é do Congresso. Eles podem votar o Orçamento que eles quiserem, inclusive, fazendo o entendimento que têm entre si. O governo deu uma enorme contribuição ao sinalizar com um acordo com os governadores.

DINHEIRO ? Votando o Orçamento, o que ainda dá para fazer este ano?
TARSO
? Muita coisa. Queremos cumprir os programas de cada ministério. E o governo não pode ficar paralisado.

DINHEIRO ? Há mais de R$ 10 bilhões de restos a pagar. Já ouvimos falar em trem-bala, hidrelétrica, ferrovias. O que sairá do papel serão obras ou tapa-buracos?
TARSO
? Se o Orçamento for votado, o governo poderá deslanchar com toda tranqüilidade todo o seu plano de investimentos. Temos obras planejadas.

DINHEIRO ? Quais?
TARSO
? Isso é com a ministra Dilma e o Ministério dos Transportes.

DINHEIRO ? O governo vai aumentar a bolsa-família?
TARSO
? Vamos aumentar sim. Estamos discutindo isso.

DINHEIRO ? Isso vai refletir direto na eleição, não vai?
TARSO
? Tudo que o governo faz de bom tem impacto.

Roberto Castro

   

?O procurador Antônio Fernando teve liberdade para agir. E sua denúncia é forte?

 
 

DINHEIRO ? Mas coisas ruins também irão para a eleição. Como fica o PT após a denúncia do Ministério Público?
TARSO
? O procurador-geral Antônio Fernando de Souza, nomeado pelo presidente, teve completa liberdade de suas funções para fazer o que fez. O presidente não se arrepende da nomeação. A denúncia não é feita contra uma pessoa jurídica, uma comunidade partidária determinada. Mas contra indivíduos que serão responsabilizados por seus atos. O procurador cumpriu suas funções. Esses cidadãos, que eram integrantes do nosso partido ou não, terão pleno direito de defesa e serão absolvidos ou condenados. Do ponto de vista partidário isso é bom porque se eles forem absolvidos vão receber um atestado de idoneidade. Se forem condenados, o partido ficará advertido de maneira dura. Isso será incorporado ao patrimônio do partido e jamais se repetirá. A denúncia é forte.

DINHEIRO ? Mas como fica a bandeira do PT nas eleições?
TARSO
? Lamentavelmente, uma ilegalidade dessa natureza é sistêmica no Brasil. Como o PT é uma experiência nova no Brasil, usaremos isso para recuperar o partido e não para enterrar. Nenhum partido é uma comunidade de anjos e o PT não é perfeito. Se houver algum resquício de caixa dois para estas eleições, garanto que será muito pequeno.

DINHEIRO ? José Dirceu não manda mais no partido?
TARSO
? O Dirceu não controla o PT.

DINHEIRO ? Como se explica que dois dos principais indiciados, José Dirceu e Luiz Gushiken, façam parte do círculo íntimo do presidente Lula e ele não tenha sabido?
TARSO
? As pessoas não são feitas só de erros, são feitas de militância, de grandeza política, de dedicação à causa do País. Se essas denúncias forem comprovadas, eles deverão responder. O fato de eles serem próximos não quer dizer que o presidente tenha tido qualquer conhecimento.

DINHEIRO ? Seria, numa analogia, uma relação de marido traído?
TARSO
? Não creio. As relações políticas não desfrutam desse tipo de intimidade subjetiva, da amizade. Se você analisar a biografia de qualquer figura histórica, vai verificar que sempre existem problemas. Ninguém tem uma biografia absolutamente isenta de relacionamentos que possam trazer problemas no futuro, como ocorreu com o presidente.

DINHEIRO ? Por que o presidente Lula quer um segundo mandato, se está tendo tantos problemas no primeiro?
TARSO
? Para fazer mais e melhor do que fez. Criamos uma estabilidade sólida e temos programas sociais importantes. Agora temos que ter um novo modelo de desenvolvimento, com altas taxas de crescimento ….

DINHEIRO ? Mas não foi para isso o primeiro governo?
TARSO
? FHC criava oito mil empregos por mês e nós criamos 100 mil. Mas em quatro anos não foi possível resolver a questão da desigualdade. O crescimento de 17% foi conseguido por Stalin numa ditadura. Na democracia as coisas são mais difíceis de conquistar, mas são sólidas.

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