Entrevista

“O BRASIL AVANÇOU”

“O BRASIL AVANÇOU”


DINHEIRO ? Como é ganhar o prêmio Nobel?
JAMES HECKMAN ?
Um prêmio Nobel você nunca espera. Eu não estudo com esse objetivo. Eu tinha esperanças, mas não este ano. Fiquei muito feliz e espero que as pessoas fiquem felizes por mim. Mas isso nem sempre acontece. Há alguns dias recebi um e-mail de uma pessoa dizendo que ele é que deveria ter ganho o prêmio Nobel. Recebi um da China que dizia: você é bom, mas eu sou melhor. Há um lado de virar celebridade do qual eu não gosto porque não é natural, não é o tipo de coisa que tem a ver com o meu trabalho. Recebo pedidos estranhos: gente querendo que eu autografe fotos minhas, etc. Isso me deixa muito desconfortável, não sou uma estrela do rock. Mas deve passar rápido, espero. Acho que neste caso, o prêmio foi dado para um conjunto de trabalhos. Eu e Daniel McFadden só fazemos parte disso, de um grupo de acadêmicos que estuda microeconometria há mais de 30 anos. Não ganhei sozinho.

DINHEIRO ? Depois de ganhar um prêmio Nobel, qual é o seu próximo desafio?
HECKMAN ?
Eu poderia ganhar um segundo prêmio… Duvido que isso aconteça, mas seria ótimo.

DINHEIRO ? Como o sr. constrói os seus modelos econômicos? Como transforma dados da realidade em matemática?
HECKMAN ?
Eu geralmente começo com uma idéia a priori. Há muita observação da realidade e tento tirar princípios gerais do que vejo. Desses princípios gerais, vejo quais funcionam em determinada realidade. Há muita relação entre observação e teorização e vice-versa.

DINHEIRO ? O que vem primeiro?
HECKMAN ?
A observação. Há muitos fatos mundo afora e diversas explicações para eles. A idéia é partir de uma simples teoria e ver até onde ela chega. E aí você tem uma teoria mais geral. É preciso ver se aquela simples teoria chega em modelos muito mais complicados.

DINHEIRO ? O sr. fez muitos estudos relacionando desregulamentação do mercado de trabalho e emprego. Qual a relação entre eles?
HECKMAN ?
Meu estudo mostra que quando se desregulamenta o mercado, reduz-se os custos do trabalho nas empresas. Seja por diminuição nos próprios salários ou pelos impostos. Todas essas reduções estimulam o emprego. E isso não é o mesmo que dizer que a desregulamentação aumenta ou diminui o desemprego. Porque desemprego envolve um aspecto que independe das demandas das empresas: depende também de decisões individuais de quando buscar um emprego. Falar sobre desemprego é mais complexo. Mas o conceito de emprego é muito claro. Não há dúvida de que a desregulamentação dos custos das empresas promove o emprego. Tudo o que facilita na hora de fazer negócios, tudo o que diminui os custos de contratar, custos de capital, ajudam no crescimento do nível de emprego.

DINHEIRO ? O sr. também tem estudos sobre desigualdade social. Quais são as melhores formas de combatê-la?
HECKMAN ?
A falta de educação é a principal fonte de desigualdade. Promover mudanças nesse sentido é fundamental, mesmo que no curto prazo a desigualdade possa aumentar. A explicação para isso é que durante os anos em que pessoas vão à escola elas trabalham menos e ganham menos. O Brasil já fez grandes avanços no seu nível de educação, mas tem ainda um longo caminho a seguir. Há dez ou quinze anos, os brasileiros estudavam, em média, apenas três anos, talvez um pouco mais. Agora a média passa de seis e continua melhorando. É um avanço surpreendente. Mesmo que ainda não tenha se traduzido diretamente na melhora dos índices de desigualdade social. Isso vai acontecer no longo prazo, pois muitas dessas pessoas ainda são jovens, estão na escola, não fazem parte da força de trabalho. Deve demorar uns 20 anos para serem absorvidos pelo mercado de trabalho e as disparidades realmente diminuírem, especialmente no Nordeste.

DINHEIRO ? E o que o governo deveria fazer para melhorar esse movimento?
HECKMAN ?
Há políticas claras para isso. O Brasil tem dado passos nessa direção: tornar a educação elementar e secundária muito mais acessível às pessoas. E deve investir recursos para que as crianças tenham base para o futuro. Mas acho que é um erro terrível ? e o Brasil foi criticado por isso no passado ? se preocupar apenas com pesquisa e educação universitária e não colocar dinheiro no ensino básico. Isso não significa que devemos tirar das universidades para colocar na educação fundamental. Cada uma delas têm um papel fundamental, apesar de diferentes. Desigualdade de renda é tão ruim quanto desigualdade tecnológica. Nas principais universidades é que se pensa a economia de um país. Quando estive no Rio fiquei desapontado ao ouvir que há um movimento que defende o corte de recursos para as universidades. Acho uma péssima escolha. Se não há dinheiro para tudo, tire do orçamento de outras áreas. Eu realmente acredito que é preciso investir em educação como um todo. Ela é um recurso básico de qualquer economia moderna, principalmente com a abertura que há no mundo todo.

DINHEIRO ? Na sua opinião, por que é tão difícil para o governo brasileiro fazer esse tipo de investimento?
HECKMAN ?
Não conheço o sistema brasileiro tão bem. Mas acredito que haja tanta demanda para o ensino fundamental porque a sociedade é hoje mais democrática. É natural numa democracia que os pais se preocupem com a prosperidade dos filhos. Têm um interesse profundo em que as instituições garantam o desenvolvimento do capital humano. A democracia é também a razão pela qual acho que haja menos suporte para a educação universitária. Não é popular. Muitas pessoas nem chegarão até lá.

DINHEIRO ? Há alguém no Brasil estudando o mesmo que o sr.?
HECKMAN ?
Ricardo Paes de Barros, do Ipea, e Aluísio Araújo, da FGV, fazem isso. Barros tem alguns importantes estudos que ajudam a entender as principais causas da desigualdade de distribuição de renda no País. Ele trabalha de forma sistemática e tem dados de grande impacto.

DINHEIRO ? Que conclusões o sr. chegou nos seus estudos sobre discriminação racial e desenvolvimento econômico?
HECKMAN ?
A discriminação e a desigualdade evitam que os mercados fluam livremente, que as pessoas trabalhem nas melhores oportunidades, evitam que as empresas produzam da melhor forma. Estados do Sul dos Estados Unidos são bons exemplos de perda em produção. Com as leis do direito civil, que permitiram que as empresas contratassem negros, vimos uma tremenda melhora nessas regiões: mais empregados negros nas manufaturas e um movimento de força de trabalho e de capital foram para lá de uma forma nunca vista antes. O Sul viveu uma espécie de ?milagre econômico? e em grande parte isso aconteceu depois de a situação dos direitos civis ter sido esclarecida.

DINHEIRO ? Quais são os fatores econômicos que propiciam bons empregos com bons salários?
HECKMAN ?
O maior determinante é a qualificação da mão-de-obra. Se você tem uma força de trabalho qualificada, educada, que consegue se adaptar à economia moderna, ela encontrará bons empregos e receberá bons salários. Quando o sistema está baseado em grandes grupos com pouca formação, como acontecia nos latifúndios do Sul dos Estados Unidos, há uma redução nas oportunidades. Pagar baixos salários para ganhar a concorrência também não é uma boa estratégia. Pense na competição entre Brasil e China. A China tem uma população enorme de mão-de-obra pouco qualificada e consegue fazer muitos produtos mais baratos do que os brasileiros. E o Brasil não deve entrar nesta disputa: produzir mais barato porque paga baixos salários. O Brasil deve fazer melhores produtos do que a China e para isso precisa de mão-de-obra qualificada. Esse é o segredo do sucesso. A competição deve ser entre qualidade e não entre salários. Quando falo em redução dos custos do trabalho não falo em cortar salários e sim nos custos de empregar a mão-de-obra. Isso faz muita diferença. Há uma grande distância entre quanto as empresas gastam com empregados e quanto eles realmente recebem. Assim, a forma de melhorar a produtividade do Brasil é qualificando a sua mão-de-obra em grande escala.

DINHEIRO ? E o que a microeconometria tem a ver com mercado de trabalho, educação, direitos civis, políticas?
HECKMAN ?
Muito, porque todos os estudos são empíricos. Temos de estruturar essas informações. Muitas vezes resumimos os dados disponíveis para interpretar as evidências. E os métodos da microeconometria foram desenvolvidos para melhorar a qualidade dos instrumentos de medição. Para ajudar a definir claramente o que são hipóteses, o que realmente conta. Ajuda a interpretar os dados: se as políticas estão funcionando, se os níveis de desigualdade estão aumentando ou diminuindo.

DINHEIRO ? O que é a Nova Economia?
HECKMAN ?
Um movimento maravilhoso. A Internet é muito mais do que economia. É algo social. É um instrumento que permite uma única e incrível oportunidade para as pessoas se comunicarem, se encontrarem. Você pode falar de sexo a negócios. Além de ser um ótimo instrumento de pesquisa. Há muita troca de idéias, de informações. É possível ver quem está fazendo o quê, negociando o quê, quais são as novas ofertas. O impacto na economia é enorme.

DINHEIRO ? O sr. acha que está havendo uma exuberância irracional?
HECKMAN ?
Não sei se está havendo uma exuberância irracional. Há muita especulação. Os preços estão altos. Mas há algo real, como novas tecnologias aparecendo, e isso não é irracional. Os grandes ganhos que vimos nas bolsas nos últimos anos não devem se repetir. Mas não vejo uma catástrofe dobrando a esquina. Por outro lado, não sabemos o que acontecerá no futuro, se o próximo presidente será um desastre. Mas não acho que isso vai acontecer.

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