Entrevista

“O PAÍS QUER SER MISS SIMPATIA”

“O PAÍS QUER SER MISS SIMPATIA”


DINHEIRO ? O governo brasileiro tem uma política agrícola efetiva?
LUIZ HAFERS ?
Nós não temos política agrícola no Brasil. Política agrícola não é só de plantação, tem de ser rural, que passa pelas propriedades familiares, pelas propriedades empresariais, pela transferência de indústrias para o interior para criar emprego, que contemple uma forte pressão na hipocrisia dos países desenvolvidos no sentido de atender aos seus consumidores através dos nossos preços. Não vamos simplificar uma política agrícola só como uma política mínima de garantia e outra de crédito subsidiado. Precisamos ver qual é o interesse nacional em relação às regiões metropolitanas não-urbanas. Na falta de um plano abrangente de médio e longo prazo, a agricultura e o Brasil passam por medidas tópicas circunstanciais, onde é premiada a esperteza em vez de se ter a consistência de uma política de longo prazo.

DINHEIRO ? O sr. poderia dar um exemplo?
HAFERS ?
Com a mudança da Lei Kandir, houve uma isonomia de impostos na exportação. A indústria era extremamente beneficiada antes da Lei Kandir. O imposto na soja era 13% e o do óleo de soja, 8%. Como o imposto sobre o grão era no porto, era maior que 13%, porque também incidia o frete. Havia uma vantagem de 5% que facilitava em muito a vida dos esmagadores de grãos, criando um superinvestimento que hoje em parte está ocioso.

DINHEIRO ? A política agrícola continua num caminho torto?
HAFERS ?
Continua torta. Outro exemplo é o do couro. Havia uma grande discriminação tarifária em relação ao couro. Com a alteração na Lei Kandir, isso acabou. Os frigoríficos se adaptaram e passaram a curtir o couro na primeira fase do curtume. E o Brasil passou a exportar US$ 800 milhões desse produto. A indústria estabelecida de acabamento de couro e os sapateiros se insurgiram contra isso porque acham que é uma injustiça eles terem de comprar o couro ao mesmo preço do que seus concorrentes e dizem que tem imposto lá fora contra o sapato. Não é verdade. Quem compra o nosso couro, como o italiano e o chinês, vende sapato nos Estados Unidos com a mesma tarifa que o nosso produto. Ainda persiste uma arrogância de que a indústria merece tudo e a agricultura tem uma má pecha de ser atrasada. A agricultura brasileira é uma das mais adiantadas do mundo. Ganhou 40% de produtividade nos últimos 15 anos, sendo que a área é a mesma.

DINHEIRO ? Na sua opinião, falar em fazendeiro no Brasil é como dizer um palavrão?
HAFERS ?
É verdade. Eu faço questão de dizer que eu sou fazendeiro. O que acontece é que a esquerda sempre teve um horror ao fazendeiro porque ele representava no século 19 um poder político contra o qual ele se insurge até hoje e que não existe mais. Esse ranço começou na Europa e vem de antes da Revolução Francesa. Nós estamos copiando o antigo em vez de enfrentar o moderno.

DINHEIRO ? E os financiamentos para a produção agrícola, andam a contento?
HAFERS ?
Ainda são muito tímidos. Não podemos competir com taxas de mercado. Elas são feitas pela necessidade do governo. Existe um sistema de equalização de juros, pelo qual nós conseguimos, teoricamente, dinheiro a 8,75% e o governo equaliza as taxas de juros até os 16%. Li no jornal que isso custou ao governo R$ 2,5 bilhões, ou seja, o mesmo valor que foi entregue para socorrer o Banco Marka. A verdade é que nós poderíamos dobrar a produção, via expansão e produtividade, em cinco ou seis anos. Mas não ganhamos dinheiro suficiente para investir nessa velocidade. As principais barreiras para o avanço da agricultura brasileira são o custo dos juros e a hipócrita política dos Estados Unidos e da União Européia, com barreiras alfandegárias e não-tarifárias altíssimas, que nos negam o acesso ao mercado. Depois eles vêm com aquele discurso liberal. Promovem a pobreza no interior das Américas e depois mandam uma ONG para discutir a má distribuição de renda. Pura sacanagem…

DINHEIRO ? O sr. acha que o fato de o Mercosul ter se transformado em alvo de disputa entre a União Européia e os Estados Unidos pode trazer alguma vantagem para o Brasil?
HAFERS ?
Já disseram que países não têm amigos, têm interesses. Quando nós abrimos o mercado para a Banda C de telefonia, fiz uma pergunta e não obtive resposta. Esse é um mercado de US$ 5 bilhões e optamos pelo sistema europeu. Eu não vi nenhuma conversa sobre compensações nos produtos agrícolas. Quando surgiu a questão da Embraer e nós perdemos na OMC, todas as retaliações foram em cima dos produtos agrícolas. Temos um grande defeito no Brasil, fazemos campanha de miss simpatia. Nós queremos ser gostados, quando deveríamos ser respeitados. Pelos interesses do meu País, eu quero ser respeitado, temido, se necessário, odiado, se inevitável. Sofremos de uma subserviência das mais odiosas. Não quero opinião, quero respeito.

DINHEIRO ? Que futuro o sr. enxerga para o Mercosul?
HAFERS ?
O bloco é inevitável. Confesso que não me espanta a dificuldade de crescimento do Mercosul à medida que os setores vão se sentindo prejudicados em algum momento. Assim como aconteceu com a União Européia, a nossa união vai levar tempo, mas não podemos desistir. Claro que quando acontece uma situação como a de agora, com a Argentina fixando cotas para o nosso açúcar, o quadro parece insustentável. Mas cedemos bastante e está na hora de endurecer. O Brasil é o maior mercado do bloco e tem de deixar isso claro para seus parceiros. Repito: não estamos num concurso de miss simpatia.

DINHEIRO ? O desenvolvimento de novas áreas agrícolas nas últimas duas décadas está apontando para qual rumo?
HAFERS ?
Vivemos um momento de ruptura. Estamos saindo de uma agricultura de extração, em que plantávamos em terras férteis que foram se exaurindo. Agora, estamos fazendo plantações em terras absolutamente pobres. Esta é a agricultura de conversão, em que a propriedade não é importante, mas sim a competência em torná-la produtiva. Isso é agricultura moderna. Há quatro anos o Brasil foi o maior importador de algodão do mundo. Daqui a quatro anos vai se transformar num dos maiores exportadores. Graças às novas técnicas, foi possível produzir algodão com índices de produtividade altíssimos no cerrado. A terra pobre é possível corrigir, já o clima não. O cerrado tem um bom clima e onde há problema de água existe a possibilidade de irrigação.

DINHEIRO ? Em casos como esses, o índice de produtividade consegue ser mais alto do que no sistema convencional?
HAFERS ?
É muito mais alto. O custo é mais alto, mas o valor produzido também. No primeiro caso, colocava-se a semente e se extraía do solo. A agricultura de conversão é mais intensiva de técnica, de capital e de maquinário, mas não é de terra e de mão-de-obra. Um caso curioso é que as fazendas do cerrado não têm varanda para se ficar esperando.

DINHEIRO ? O sr. acredita que o ministro Pratini de Moraes, da Agricultura, está tendo dificuldades no governo?
HAFERS ?
O viés político na agricultura sempre foi a partir da produção. A questão é que nós temos problemas de mercado e de financiamento. O Pratini trouxe para o Ministério da Agricultura uma visão nova a partir do consumidor. Hoje nós não falamos mais de agricultura, mas de agronegócio. O ministro tem uma visão mais abrangente de agronegócio do que uma visão produtivista de agricultura. Os chilenos, por exemplo, foram bem competentes e trataram de fazer muitos estudos sobre frutas antes de começar a produzir. Achar que quem produz tem direito à remuneração é arcaico.

DINHEIRO ? Antes de ser ministro, Pratini de Moraes dizia que o Brasil se vendia muito mal no exterior. Isso mudou depois que ele assumiu?
HAFERS ?
Mudou. Ele tem feito esforços muito grandes, mas não basta só o Pratini fazer a parte dele. As barreiras, que antes eram só tarifárias, agora também são ecológicas, sociais. É fato que nós somos os maiores produtores agrícolas do mundo. Aqui no Brasil acham feio ser produtor agrícola. Nós temos complexo de inferioridade e por isso achamos que temos de produzir chip de computador. O chique é ganhar dinheiro, é ser rico. Os produtores da Europa defendem com unhas e dentes seus mercados com subsídios e, pior, competem nos nossos mercados com esses subsídios. O embaixador americano vive dizendo que nós pensamos só em suco de laranja. O Brasil é o mais competente produtor de laranja, tabaco e açúcar. E os americanos têm imposto na laranja, cota e imposto no açúcar e cota no tabaco. Temos de fazer uma brutal campanha contra isso.

DINHEIRO ? Qual é a sua opinião sobre as denúncias de que o MST cobra pedágio dos assentados?
HAFERS ?
O MST é um movimento político sem interesse na solução, vive do problema. Tanto assim que eles são contra iniciativas muito boas como o Banco da Terra. Por quê? Porque eles vão perder o controle do assentado. Quando o lavrador se emancipar como proprietário, ele vai preferir ser sócio da Sociedade Rural Brasileira do que do MST. O Movimento tem uma visão econômica socialista e totalitária, que é absolutamente anacrônica. As suas próprias bases vão renegá-la, como estão renegando. Eles, no mais espúrio estilo, cobram comissão dos assentados. Depois desses últimos três, quatro anos, não há mais dúvidas de que o MST está caindo na real de que não é tão bonzinho quanto parecia.

DINHEIRO ? O sr. já visitou algum assentamento?
HAFERS ?
Sim. Vi pessoas em barracas de lona, o que é uma pobreza inaceitável. Sou a favor da agricultura familiar, porque ela é socialmente eficiente. Há quem seja contra, dizendo que ela é menos eficiente. É verdade, mas o que importa numa situação como essa é que ela tenha a sua função social. Uma família num sítio bem arrumado custa menos para a nação do que se o Estado tivesse de investir para melhorar a sua qualificação para um outro tipo de atividade. Não vejo outra solução para a massa de pobreza do País.

DINHEIRO ? Então o sr. é contra as desapropriações?
HAFERS ?
Eu sou contra se criar caso na desapropriação. Eu acho que eles estão mais interessados em infernizar o fazendeiro do que ajudar o pobre. O governo já tem 8 milhões de hectares de domínio da União, que é quase a área equivalente a Portugal. Seria irônico, se não fosse trágico, a gente brigar por terra. O que existe é um ressentimento contra o fazendeiro. A verdade é que a cesta básica é feita por nós, os saldos da balança de pagamento são feitos por nós, o maior número de empregos é gerado por nós, os mais altos índices de produtividade também.

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