Entrevista

“NÃO HÁ CRISE NO MERCOSUL”

“NÃO HÁ CRISE NO MERCOSUL”


DINHEIRO ? O sr. está lançando um livro sobre o Mercosul num momento particularmente delicado na relação entre Brasil e Argentina. O futuro do bloco está ameaçado?
JORGE CAMPBELL ?
O Mercosul tem uma história de êxito. Quando digo isso, não quer dizer que não me dou conta das dificuldades, dos conflitos entre os países. Temos que ver o Mercosul pelo ângulo da realidade, não da fantasia. O bloco é formado por países muito diferentes, com suas virtudes, seus defeitos. Apesar de todas as diferenças, estamos avançando para a coordenação de uma política macroeconômica comum. Esse sim pode ser o passo para uma moeda comum.

DINHEIRO ? Mas o conflito entre os dois países está se intensificando…
CAMPBELL ?
Não concordo que a relação bilateral seja delicada. Ao contrário, nunca foi melhor. Há 20 anos os dois países estavam em guerra, brigavam pela central de Itaipu, não construíam pontes entre eles por medo de que um invadisse o outro, não havia vínculo entre os presidentes, não havia comércio, não havia turismo, não havia nada. Agora, há muito menos conflitos. Coordenamos o tema de armas, o nuclear. Temos políticas macroeconômicas convergentes e um comércio mais agressivo do que nunca. Mas é óbvio que há conflitos também, assim como há conflitos internos nos dois países. E nem por isso eles vão se dividir. A Europa tem 40 anos de integração e se pegarmos a relação entre Inglaterra, Alemanha e França, todos os anos há algum exemplo de desentendimento. Se estamos comercializando US$ 13 bilhões, é claro que pode haver um problema aqui, outro ali. Uma das características de qualquer relação são os problemas que surgem ao longo do tempo. O importante é saber que a saúde do Mercosul nunca será medida pela quantidade de problemas, mas pela capacidade para resolvê-los.

DINHEIRO ? Qual é a melhor lembrança que o sr. tem das negociações entre Brasil e Argentina?
CAMPBELL ?
Em 1985, os presidentes Raúl Alfonsín e José Sarney se encontraram para assinar o tratado de integração entre os dois países. Era dezembro e estava sendo inaugurada a ponte Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu, no Brasil, e Puerto Iguazu, na Argentina. Fazia um tremendo calor. Alfonsín estava vestido de terno escuro e acharam que a roupa não era a mais correta para um calor de 40 graus. Já Sarney estava de terno branco e houve quem estranhasse o fato dele estar com um traje daqueles numa cerimônia tão importante. O que me chamou a atenção é que se a imprensa perdeu tanto tempo comentando os ternos dos dois, é porque não prestou muita atenção no encontro. Vínhamos de muitos anos de desencontro. Esse momento entre Alfonsín e Sarney foi o ponto de mudança. Antes, havia muito discurso, depois as coisas começaram a ser realizar.

DINHEIRO ? E o momento mais difícil?
CAMPBELL ?
Em junho de 1995, recém-começado o Mercosul, o Brasil decidiu mudar o seu regime automotriz e produziu uma tremenda tensão. Toda a imprensa mundial que prestava atenção nisso achou que aquilo significava a morte do Mercosul. Foram várias reuniões entre ministros e presidentes. Mais uma vez o Mercosul enfrentou o problema e encontrou uma solução.

DINHEIRO ? O sr. defende os alimentos geneticamente modificados, os transgênicos. No Brasil, porém, o assunto ainda está em discussão. Os dois países poderão ter outro motivo para desentendimentos?
CAMPBELL ?
Não acredito. Depende de quem vamos reunir para discutir. Se estiverem na mesma mesa o Ministério da Agricultura do Brasil e a Secretaria de Agricultura da Argentina, certamente as opiniões vão coincidir sobre o assunto. Mas se for chamado o Ministério do Meio Ambiente, a opinião será outra. É um tema novo e ainda muito complicado. No caso da Argentina, que tem quase toda sua soja geneticamente modificada, parece lógica a defesa. Acho que o governo brasileiro vai acabar aderindo porque vocês também estão investindo na soja transgênica. O problema é que às vezes há ações não-governamentais, como as do Greenpeace no Brasil, que têm muita repercussão na imprensa e geram situações políticas complicadas. A minha impressão é que os dois vão coincidir na opinião sobre os produtos geneticamente modificados.

DINHEIRO ? O Mercosul está mais próximo de se integrar à Alca ou à União Européia?
CAMPBELL ?
Nem um, nem outro. Estamos mais próximos das negociações para aprofundar o Mercosul, com a integração com o Chile as discussões com a Comunidade Andina. Isso tudo leva muito tempo. Enquanto isso, esperamos a mudança no governo americano. No caso da Europa, eles ainda têm de resolver o que farão para a integração dos países do Leste. O importante é que as negociações se mantenham.

DINHEIRO ? O México é um bom exemplo a ser seguido pelo Mercosul, em função dos seus avanços nas relações comerciais internacionais?
CAMPBELL ?
Não há modelos a serem copiados, pois cada um tem a sua própria realidade. O México tem um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, com o Nafta, que é uma boa decisão do ponto de vista deles. Uma vez que se faça um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, você pode ter acordos com o mundo todo. Nosso caminho é aumentar a integração, incorporar os países sul-americanos e depois fazermos negócios com o mundo.

DINHEIRO ? As barreiras aos produtos agrícolas são o grande problema para entrar na União Européia?
CAMPBELL ?
É um dos grandes impedimentos, mas não é o único. O importante é saber que dá para avançar em outras áreas mesmo sem resolver esse assunto. Com o processo de integração, vamos somando negócios, facilitando investimentos, vinculando as empresas, enfim, acumulando pontos a nosso favor. Ao mesmo tempo, é uma ótima notícia que Estados Unidos e União Européia queiram negociar com o Mercosul, porque confirma que somos relevantes.

DINHEIRO ? Antes de Fernando De la Rúa assumir a presidência argentina, havia uma expectativa de que a política internacional do país seria mais ampla, ao contrário do que aconteceu durante o governo Menem, conhecido pela política de ?apaga-incêndio?, de curto prazo. Isso está acontecendo?
CAMPBELL ?
Uma das coisas boas desse governo é que foi dada continuidade à política exterior do governo Menem. De la Rúa reafirmou o processo de integração com o Brasil e com o Mercosul, continuou a conversar de forma madura com o Reino Unido para tentar uma solução sobre as Malvinas. Também reafirmou o vínculo com os Estados Unidos. Não há nada de novo nas relações bilaterais e as negociações continuam.

DINHEIRO ? Já foi confirmado que o primeiro ano de governo de De la Rúa será de crescimento zero. O ministro José Luis Machinea, no entanto, prometia no começo do ano, logo após a posse, que a economia do país cresceria 4%. O que está acontecendo, afinal, com a economia argentina?
CAMPBELL ?
Os números anunciados pelo governo são em torno de 1,5%. É pouco, sobretudo num momento em que o resto do mundo ? o que inclui Europa, Estados Unidos e os países sul-americanos ? está crescendo a taxas mais altas. Isso está provocando na Argentina um verdadeiro mau-humor. A população alimenta um sentimento negativo sobre possíveis sobressaltos e não consome, os investimentos não são feitos, as decisões não são tomadas e tudo isso se transforma num círculo vicioso. Não é um problema macroeconômico, como tivemos entre 1991 e 1992. E parte dessa expectativa foi alimentada pelo governo de De la Rúa, que concorda com a situação. Por isso, o principal tema das conversas entre os argentinos é a possibilidade de troca no atual gabinete. Só essa mudança poderá interromper o círculo vicioso de estagnação. Quando o governo assumiu, em dezembro, fez questão de passar uma mensagem exageradamente pessimista sobre a situação econômica para diferenciar-se do anterior. O recado se transformou num bumerangue, porque contribuiu para gerar uma expectativa ruim. Faltou alguém mais simpático e mais popular à frente da comunicação do governo.

DINHEIRO ? A crise começou com a mudança de governo?
CAMPBELL ?
Começou em 1810, quando o país se tornou independente. Sempre estamos em crise, tratando de chorar. Neste momento, prefiro chamar de recessão, que significa falta de crescimento ou um crescimento quase nulo. Isso gera uma situação mais complicada, que se transforma num mal maior para o governo e para a população. Esse quadro dificulta a marcha política e econômica.

DINHEIRO ? E qual é a responsabilidade do governo Menem, do qual o sr. fez parte, neste momento que vive a economia argentina?
CAMPBELL ?
A recessão não é novidade para esse governo. O ano de 98, por exemplo, foi péssimo para o país. Baixaram os preços internacionais das commodities agropecuárias, nosso principal sócio comercial, o Brasil, desvalorizou a moeda e isso mudou o preço dos produtos, as taxas de juros subiram e complicou a nossa competitividade. Para completar, houve a troca de presidente em 99, o que sempre gera uma expectativa na economia.

DINHEIRO ? A decisão de mudar o gabinete está próxima? O presidente De la Rúa insiste em negar essa possibilidade.
CAMPBELL ?
Por aqui, o que se comenta é que muitas das mudanças estão sendo estudadas e que deverão acontecer muito em breve. O governo não vai conseguir manter o comando com o clima apresentado pelos jornais. Depois que os nós que existem no governo forem desfeitos, uma nova imagem deve surgir. E o momento é agora, porque estamos a um ano das eleições argentinas. Se as mudanças forem feitas, o governo teria de oito a dez meses para começar a mostrar os primeiros frutos dessa virada. E é imprescindível que o momento seja esse. Depois, pode ser tarde. As campanhas políticas para a renovação do Senado começarão muito cedo no ano que vem e ninguém na Argentina consegue prever o que acontecerá nas urnas com um cenário como o que temos hoje.

DINHEIRO ? As denúncias de corrupção pioram a situação?
CAMPBELL ?
O problema da recessão vem de muito antes de aparecerem essas denúncias contra o Senado. Mais do que pensar que pode provocar coisas negativas, podemos pensar que poderão ocorrer coisas positivas, que são essas mudanças que todos esperam. Não estou dizendo que não houve reflexo no panorama político, é claro que houve. Mas a reação de ceticismo das pessoas é muito mais ampla.

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