Entrevista

“AGORA É TOMA LÁ DÁ CÁ”

“AGORA É TOMA LÁ DÁ CÁ”


DINHEIRO ? Afinal, já passou o inferno astral do seu ministério este ano?
PRATINI de moraes ?
Você sempre vai ter problemas na área agrícola. Do lado positivo tivemos uma supersafra no Nordeste. Também tivemos uma supersafra de algodão no Mato Grosso, outra de soja no Maranhão e no Piauí. Do lado negativo tivemos seca em São Paulo e no Paraná, que reduziu em 20% a produção de cana e elevou os preços do açúcar e do álcool. O resultado é que as nossas exportações vão cair a menos da metade das do ano passado. O preço internacional do álcool mais do que dobrou. A seca também causou a alta dos preços dos hortifrutigranjeiros, o que pressionou a inflação. Mas agora os preços já caíram. Também tivemos perdas na safrinha de milho, de mais de um milhão de toneladas. E o terceiro impacto foi sobre a lavoura do café, cujos efeitos ainda virão, na safra de 2001.

DINHEIRO ? Significa que o setor agrícola, que no começo do Real ajudou a segurar a inflação, agora é o vilão dos preços?
PRATINI ?
Não. Mesmo com a quebra da safra, ainda vamos ter uma colheita recorde. Em vez de 85 milhões de toneladas, vai ficar perto de 82,5 milhões de toneladas, o que é acima dos 82 milhões do ano passado. Mas, mesmo assim, estamos tomando providências. No caso do milho vamos apoiar os preços, aumentar a área plantada e fazer um programa de opções de forma a garantir o preço.

DINHEIRO ? O preço do trigo subiu muito este ano e causou inflação.
PRATINI ?
O problema é que a safra de trigo do Paraná quebrou e perdemos mais de um milhão de toneladas. Nossa produção atual é de dois milhões de toneladas, para um consumo de 9 milhões de toneladas por ano. Assim não pode continuar. O único jeito de reduzir nossa dependência do trigo argentino é ampliar a produção interna. Vamos também implementar o mecanismo de opções para o trigo. Estamos incentivando o plantio do produto no Centro-Oeste. Uma idéia é dobrar o financiamento para a compra de sementes, de R$ 40 milhões para R$ 80 milhões.

DINHEIRO ? Como forçar os argentinos a pemitir que o Brasil possa importar trigo do Canadá?
PRATINI ?
O trigo do Canadá só serve para fazer macarrão. Não é bom para pão e biscoito. Hoje temos problemas com a Tarifa Externa Comum (TEC), acertada pelos países membros do Mercosul, da qual o trigo não faz parte, e por conta dos argentinos, nossos maiores fornecedores. É bem verdade que os argentinos aumentaram o preço do trigo pela quebra de safra lá e aqui. Mas decidimos endurecer o jogo com eles.

DINHEIRO ? Como?
PRATINI ?
Não vamos permitir que continue essa prioridade de importação de trigo argentino se eles não abrirem o mercado de lá para o açúcar brasileiro. Não estamos satisfeitos com a solução dada pelo governo argentino ao projeto do legislativo, que impunha barreiras tarifárias ao nosso açúcar. O simples veto do presidente De la Rúa não resolve. Esperar cinco anos para ter livre acesso ao mercado de lá é inaceitável.

DINHEIRO ? Isso significa que o Brasil só vai comprar de quem também adquirir produtos brasileiros?
PRATINI ?
Vai ser um toma lá dá cá. Eu também não vou abrir nosso mercado de trigo para os canadenses nem para os Estados Unidos. No futuro, quando negociarmos carne com os americanos queremos atrelar nossos produtos à compra de bens de lá. Só compraremos trigo canadense se eles comprarem frango brasileiro. A posição do Ministério da Agricultura é a seguinte: só vamos comprar produtos de quem nos der contrapartida.

DINHEIRO ? O sr. vai endurecer as negociações com os argentinos no caso do açúcar?
PRATINI ?
Vamos levar esse assunto aos órgãos do Mercosul. As negociações serão conduzidas pelo Itamaraty. Mas posso adiantar que a posição do Ministério da Agricultura será firme. O Brasil tem que importar um arsenal de produtos da Argentina que nós podemos passar a segurar. Não gosto de fazer ameaças. Mas posso assegurar que o Brasil não vai importar produtos da Argentina se eles não importarem açúcar brasileiro. E nesse sentido já há um projeto de lei tramitando no Congresso brasileiro que proíbe a importação de produtos argentinos que contenham açúcar. Podemos apoiar esse projeto, se eles continuarem taxando o nosso açúcar.

DINHEIRO ? Essa decisão pode provocar mais um problema diplomático entre os dois países?
PRATINI ?
Não. Temos trabalhado em conjunto com o Ministério das Relações Exteriores. Pode ser que eu bata mais duro que o Itamaraty. Mas não há nada de passar a mão na cabeça de ninguém. Minha proposta é uma completa renegociação do Mercosul na área agrícola. Se até o final do ano não tivermos avanços significativos na questão do açúcar, temos que rever todas as posições negociadas no âmbito do setor agrícola. E temos aqui total apoio político. É só perguntar à bancada ruralista. Hoje no Congresso há uma forte posição em defesa do setor agrícola brasileiro. Não aceitamos mais dar concessões agrícolas para compensar concessões industriais.

DINHEIRO ? Como o sr. classifica a relação Brasil e Argentina hoje?
PRATINI ?
A verdade é que a Argentina está sem condições de competir. A situação lá é extremamente crítica. E não é apenas por causa da desvalorização do real. É claro que o ajuste no real provocou alguns problemas lá. Mas o grande problema da Argentina é a desvalorização das moedas européias em relação ao dólar. Como o peso está atrelado ao dólar, houve uma perda de competitividade dos produtos deles no mercado europeu, um fator preocupante para a Argentina.

DINHEIRO ? Mas a Argentina transfere os problemas para o Brasil.
PRATINI ?
Enquanto a Argentina não conseguir uma solução para o seu problema interno, nós teremos problemas. Não há o que fazer. Temos que conviver com isso e temos que ajudar a Argentina. Mas também defenderemos os nossos interesses.

DINHEIRO ? Não vamos caminhar para um impasse?
PRATINI ?
Como seria normal, o Brasil cedeu mais para a Argentina na fase inicial para consolidar o mercado. Agora não há mais condições de manter isso na área agrícola.

DINHEIRO ? Como está a questão do contrabando de soja transgênica para o Brasil?
PRATINI ?
Fala-se muito sobre isso e prova-se muito. Não chega a ser uma invasão. O governo brasileiro está apoiando a liberação transgênica. Não seria o caso de aproveitar nossa condição de última fronteira de produtos ?naturais? para vendê-los para países da Europa, já que nossos concorrentes exportam produtos transgênicos?

DINHEIRO ? O Brasil ganha ou perde com os transgênicos?
PRATINI ?
A Europa importa produtos transgênicos. Se pagarem mais pelo produto não-transgênico, que tem produtividade menor, tudo bem. Mas eles não pagam. O grande problema é que eles estão querendo que o Brasil seja o celeiro de não-transgênicos sem pagar por isso. O produto transgênico tem produtividade maior. O Brasil tem condições de produzir transgênicos, não-transgênicos e orgânicos. Seria uma estupidez por parte do Brasil produzir algo que dá menos retorno para o produtor sem receber um preço maior lá fora. Estamos condenando o Brasil ao atraso. Nós já cometemos um erro gravíssimo quando fizemos uma política de informática que atrasou o País 15 anos. Erraremos novamente em relação à biotecnologia? Não sou defensor dos transgênicos. Sou a favor dos avanços da biotecnologia.

DINHEIRO ? Não está ocorrendo uma aumento da resistência em relação aos transgênicos mesmo nos Estados Unidos?
PRATINI ?
Eu não vi nenhum número comprovando isso até agora. Como os produtos transgênicos usam muito menos agroquímicos, as empresas fabricantes desses produtos ? que vão perder esse mercado ? estão patrocinando essa campanha (contra os transgênicos). Desse novo mercado de US$ 2,5 bilhões, cerca de US$ 1,2 bilhão pode ser perdido pelas empresas que patrocinam essas coisas. São interesses europeus, em geral. E tem muita gente no Brasil, de boa fé, que embarcou nessa canoa e virou agente desses interesses. O Brasil está a mercê de interesses supostamente ambientais, que não são. São, na verdade, interesses comerciais poderosos em jogo. A Monsanto, por exemplo, virou emblema desse negócio. Ela é parte disso. O que é preciso é detectar o impacto para o País e para a renda dos produtores. Na verdade, esse é um caso de polícia. Os interesses são muito grandes. Há também interesses ideológicos e políticos internos aqui também.

DINHEIRO ? O sr. está discutindo uma nova legislação para agrotóxicos no Mercosul?
PRATINI ?
É verdade. O assunto ainda está no âmbito técnico. A idéia é estimular que os agricultores brasileiros comprem mais agrotóxicos nos países vizinhos, que cobram menos pelo produto. Estamos discutindo formas de permitir que o registro feito em um país possa valer para outro. Mas esse tema envolve também outras áreas, como o Ministério da Saúde.

DINHEIRO ? Qual o impacto da febre aftosa que apareceu no Sul nas exportações?
PRATINI ?
Mandamos fazer uma investigação para saber qual a origem dessa doença. Há oito anos a aftosa não surgia na área. Os veterinários suspeitam que possa ter sido uma coisa intencional. Vamos investigar esse assunto a fundo. O que aconteceu no Rio Grande do Sul foi um descontrole do processo sanitário por parte do governo do Estado. Isso vai provocar um atraso de cerca de um ano da carne gaúcha a novos mercados. A culpa é do governo do Estado. Ele é o responsável pela vacinação. Até agora, só tivemos problemas com o Chile, que segurou caminhões com carne na fronteira. Estamos mandando uma missão para lá para explicar que esse surto está confinado a uma pequena área.

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