Entrevista

“Tiramos os esqueletos do armário”

“Tiramos os esqueletos do armário”


DINHEIRO ? Alguns analistas apostaram que o Banco do Brasil não teria condições de concorrer com os bancos estrangeiros. Passados cinco anos da abertura do setor financeiro, o que aconteceu?
PAOLO ZAGHEN ? O banco de fato se divide em duas fases: antes e depois de 1995. A primeira decisão foi a de reformular o banco, o que se chamou de tirar os esqueletos do armário. O banco sobrevivia sem esforços para ter clientes. Não tinha estrutura e não existia uma política de baixo risco de créditos. Isso criou distorções de crédito.

DINHEIRO ? Mas nessa época o banco concedeu bilhões em empréstimos, que depois não foram pagos.
ZAGHEN ? Exatamente. Em 1995 foi feita uma reformulação profunda, da qual participou Paulo César Ximenes, meu antecessor. Criou-se uma diretoria colegiada. Isso permitiu um acompanhamento melhor dos empréstimos concedidos. Do outro lado, o Banco do Brasil passou por um ajuste violento. Foi feito um aumento de capital de R$ 8 bilhões. E o que foi isso? Pagar erros do passado.

DINHEIRO ? Na época, com o aumento de capital, o governo assumiu bilhões em créditos podres. Por quê?
ZAGHEN ? Foi uma decisão difícil. Ou se capitalizava ou o banco quebrava. Não dava mais para empurrar o problema com a barriga. A decisão tomada foi a de ter um banco em condições de funcionar. Tínhamos que garantir rentabilidade e uma estrutura de ativos. O governo reconheceu que o passado não tinha corrido de uma maneira eficiente.

DINHEIRO ? Um relatório da Booz Allen & Hamilton, encomendado pelo próprio governo, mostra que os cinco bancos federais vão dar prejuízo a partir de 2003 e que deviam ser privatizados. Isso vai mesmo acontecer?
ZAGHEN ? Eu só falo pelo Banco do Brasil. E garanto: isso não vai acontecer. O banco está melhor do que antes da reestruturação. Estamos ganhando dinheiro como banco. A privatização é uma decisão do sócio controlador, no caso, a União. Mas eu digo que é preciso ler com muito cuidado o relatório. A pergunta que ele faz é o que o governo quer do crédito público. Quando se tiver a resposta, o governo pode decidir se quer ou não ter vários bancos. No caso do Banco do Brasil atuamos em duas frentes. Uma como qualquer banco privado. A outra, prestamos serviços para o governo e somos remunerados por isso. O ponto aqui é que temos que ter uma remuneração compatível com os custos de captação. Acabou a época em que o Tesouro nos pedia para prestar serviços a preços não realistas. Não há espaço para nenhum tipo de subsídio.

DINHEIRO ? O que aconteceu com o processo de reestruturação que previa a privatização da distribuidora de valores do banco?
ZAGHEN ? Não pensamos mais nisso. Essa idéia foi abandonada. Privatizar uma distribuidora, na verdade, significa terceirizar a administração dos fundos de investimento do Banco do Brasil, já que a distribuidora, a BBDTVM, não é uma empresa em si. E isso, no meu modo de ver, não é um prioridade.

DINHEIRO ? Neste processo de reestruturação, o BB demorou para utilizar a Internet?
ZAGHEN ? Já estamos investindo muito nesta área. Inauguramos o nosso portal em maio. Temos cadastrados perto de 1,5 milhão de clientes. Quando cheguei aqui, tínhamos perto de 800 mil pessoas cadastradas. Por isso, acabamos de criar uma área específica para cuidar da Internet. Estudamos, inclusive, fazer associações com companhias telefônicas. Isso vai ser importante na hora que entrar a Internet via celular. O ideal é fazer associação com alguém que agregue algum valor.

DINHEIRO ? Mas o Banco do Brasil não está chegando atrasado na Internet?
ZAGHEN ? A pergunta correta é: o que nós queremos da Internet? Já atuamos como banco na Internet. Estamos estudando agora a venda entre empresas (B2B) e a venda para pessoas físicas (B2C) pela Internet. Temos 1,5 milhão de clientes cadastrados e 11,1 milhões de correntistas. Esses números são um patrimônio muito grande, valem muito dinheiro e vão ser levados em consideração na hora de fecharmos parcerias.

DINHEIRO ? Afinal, essas mudanças vão ajudar o banco a obter melhores resultados?
ZAGHEN ? O lucro do primeiro semestre deste ano foi de R$ 390 milhões, menor do que o do mesmo período de 1999. No ano passado, tivemos o impacto da desvalorização, o que ajudou muito quem tinha aplicações e ativos em dólar. Esse fato não se repetiu este ano. Mas a nossa expectativa é de um segundo semestre melhor. E com os ajustes feitos, temos um banco pronto para ter resultados melhores do que o lucro de R$ 843 milhões de 1999.

DINHEIRO ? O sr. confia no presidente da Previ, Luiz Tarquínio? Por que esperou até o último minuto para reconduzi-lo ao cargo?
ZAGHEN ? Não tenho nada que me permita imaginar que venha trocar o Tarquínio por ter alguma desconfiança. Não tenho nada contra nenhum tipo de partidarismo político e ideologia. Mas a partir do momento que o indivíduo assume um posto como a Previ ele só tem uma função: cuidar do dinheiro dos funcionários. Qualquer discussão fora disso é absolutamente extemporânea. A diretoria da Previ tem três executivos indicados pelo Banco do Brasil, o que inclui o presidente. Outros três executivos são eleitos pelos funcionários. Qualquer decisão só pode ser tomada por pelo menos quatro votos. O que significa que tem que haver acordo entre os dois grupos.

DINHEIRO ? A Previ extrapolou os limites fixados para as aplicações em ações?
ZAGHEN ? Isso é verdade. Existe um desequilíbrio, sim. Eu sei que eles estão sendo cobrados. Mas o desenquadramento se dá por uma porção de motivos. Pode acontecer porque uma ação se valorizou muito. É preciso estudar esse assunto com cuidado e não cometer equívocos. Não sei se há falta de transparência nas decisões da diretoria da Previ. Mas imagine se o Tarquínio saísse anunciando que vai vender os bilhões em ações que a Previ tem a mais em sua carteira. Isso derrubaria a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). As decisões são colegiadas. Individualmente, ninguém decide nada na Previ.

DINHEIRO ? Em dezembro termina o prazo para o BB reduzir o repasse mensal que faz à Previ. Mas um diretor do fundo, Sérgio Rosa, disse que vai à Justiça para que isso não aconteça.
ZAGHEN ? Ir à Justiça é um problema deles, não nosso. Eu sei de uma coisa: a lei manda e eu cumpro. Em dezembro vamos reduzir nossa contribuição para a Previ, que hoje é perto de R$ 50 milhões. Atualmente entramos com R$ 2 para cada real recolhido dos funcionários. Estamos dispostos a chegar a R$ 1,5, mas os empregados têm que aceitar pagar mais e chegar a R$ 1,5 também. Vai ser uma conversa difícil. Mas se não houver acordo, vamos reduzir os repasses feitos pelo banco para o mesmo valor arrecadado entre os funcionários.

DINHEIRO ? O governo vai aproveitar essas mudanças e vender parte das ações que tem no capital do BB?
ZAGHEN ? Quando vai ser eu não sei; quem decide sobre estrutura de propriedades de ações é o dono, que é a União. Não estamos discutindo isso. Mas não quer dizer que não possa ser feito. Com a capitalização de R$ 8 bilhões, só o Tesouro entrou com o dinheiro. Portanto, aconteceu uma concentração muito grande de ações nas mãos do governo. Hoje, eu acho que mais de dois terços das ações ordinárias (que dão direito a voto) estão nas mãos do Tesouro. Não é preciso ter tudo isso. Portanto, não está descartado fazer uma venda. Mas é necessário buscar a melhor ocasião de fazer.

DINHEIRO ? Não seria este um momento bom para fazer a venda pulverizada, como aconteceu com as ações da Petrobras?
ZAGHEN ? Olha, se pode fazer sim. Mas acho que o cenário vai melhorar ainda mais na medida que se confirme essa participação cada vez melhor do banco no mercado. Até agora, nós não conseguimos apresentar resultados bem maiores porque tivemos que fazer todos os ajustes que foram demandados pelas novas resoluções do Banco Central . Mas no fim do ano os números vão ser bem melhores e a demanda por papéis do banco vai ser ainda maior.

DINHEIRO ? Entre os esqueletos tirados do armário existe um volume considerável de dívidas de empréstimos podres. De quanto é e quando o banco vai receber?
ZAGHEN ? Se não me falha a memória existe no balanço perto de R$ 10 bilhões, é mais ou menos isso. Fico muito tranqüilo. São coisas do passado, não é uma fotografia do presente. Você precisa qualificar quanto você consegue receber. Suponha que você tenha feito um empréstimo de 100, a uma taxa pré-fixada, em 1987, de 30%. Se você tomou 100 e venceu, aí vai multa, comissão de permanência e você vai corrigindo esses créditos, sempre pela maior taxa que existe no mercado. Então, um número desse fica muito grande, não se consegue estimar com exatidão. Fazer esse cálculo é difícil. Daí, aquelas histórias em que o devedor deixou de pagar um trator e deve 18 navios, um troço assim sem sentido.

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