Entrevista

“A indústria farmacêutica é covarde”

“A indústria farmacêutica é covarde”


DINHEIRO ? Por que vocês não assinaram o acordo com o governo?
Adalmiro Dellape Baptista ? Isso não é um acordo. Em um acordo, nós teríamos o direito de participar ou de não participar, e não estão nos dando o direito de escolher nosso caminho. Isso é muito mais um congelamento de preço, imposto de cima para baixo, que deverá perdurar até dezembro, e que provavelmente será prolongado. O congelamento vai contra a nossa filosofia. Nós achamos que temos condições de continuar administrando a nossa empresa. E administrando os preços dela perante o mercado.

DINHEIRO ? Mas não estariam ocorrendo aumentos abusivos?
BAPTISTA ? Ninguém pode apresentar um deslize cometido pelo Aché, um laboratório de 34 anos. Essa empresa é séria, inclusive em relação aos preços. Nós sempre seguimos aquilo que o governo determinou nas piores fases do Brasil e não seria agora que sairíamos deste caminho.

DINHEIRO ? O sr., por não aderir, teme reação do governo?
BAPTISTA ? Achei, inicialmente, que a oposição à proposta não seria motivo de represálias, mas, para minha decepção, nós estamos sentindo que há ameaças no ar, vindo principalmente do Ministério da Saúde. As pessoas que estão ameaçando não conhecem o Aché. É o maior laboratório nacional, único talvez que está disputando posições com as multinacionais. Somos a maior empresa farmacêutica da América Latina. Não vejo por que, sem nunca ter cometido deslizes, sermos tratados como se fossemos facínoras, homens que não respeitam autoridades, o povo e o mercado.

DINHEIRO ? Como está se dando esta pressão do governo?
BAPTISTA ? Li no Correio Braziliense que o Serra quer o boicote aos remédios do Aché. À primeira vista, achei que pudesse ser uma informação incorreta. Mas, como vem de um jornal respeitabilíssimo, nós acabamos acreditando. Se não saiu do ministro, saiu de algum assessor. Aliás, se eu tivesse certeza que era da boca do ministro eu teria condições de notificá-lo judicialmente.

DINHEIRO ? Oitenta laboratórios já assinaram o acordo. Isso não é uma demonstração de que a medida é necessária?
BAPTISTA ? O que eu posso dizer sobre isso é que nem todos têm a disposição de impor seus pontos de vista. Esta adesão é fruto da coação do forte contra o fraco. É, portanto, uma distorção da realidade. Mas não é só o Aché que não assinou, há outros grandes laboratórios que ainda não assinaram. Na verdade, o setor está todo acuado com estas ameaças. Hoje, a indústria farmacêutica é uma indústria combalida, acovardada. Pergunta-se: por que estes homens vão lá e assinam? Acovardados. Só pode ser isso.

DINHEIRO ? Quais as principais razões para o aumento de preços?
BAPTISTA ? A desvalorização do real em janeiro de 1999 foi um momento catastrófico para a indústria, que tem grande parte de suas despesas, de seu custo industrial, baseado em matérias-primas importadas. Naquela época, nós atravessamos um momento dificílimo. Em fevereiro, o dólar saltou de R$ 1,17 para R$ 2,14. Surgiu uma figura no Ministério da Fazenda, muito valiosa, o Cláudio Considera, que conduziu as negociações com o setor. Buscou-se uma maneira de não prejudicar o povo com aumentos astronômicos e de recuperar a indústria desta perda monstruosa de rentabilidade. Neste acordo, os aumentos iam sendo dados mensalmente, para que não houvesse impacto maior. Não se permitiu que recuperássemos rentabilidade, mas apenas que repuséssemos os custos. A diferença de preço de agosto até agora, de nossos produtos, deve estar aquém da inflação.

DINHEIRO ? Há previsões futuras de aumentos?
BAPTISTA ? Nós estamos prevendo alguns aumentos. Não podemos dizer, neste momento, de quanto seria. O próprio governo aumentou todas as tarifas públicas. O preço do petróleo no Exterior obrigou o governo a aumentar o preço da gasolina. As nossas embalagens já estão subindo a uma média de 16%. Nós não estamos repassando isso. Estamos atravessando um momento de turbulência e perspectivas sombrias. Este ano, acumulamos déficit de R$ 26 milhões. Como é que vamos conseguir viver congelados até dezembro? Eu vou quebrar a minha empresa. Esta é a realidade.

DINHEIRO ? O setor vem sofrendo com a queda nas vendas?
BAPTISTA ? As vendas caíram para complicar esta história. O ministro José Serra foi vitorioso em sua propaganda a favor dos genéricos. Porque as vendas dos produtos éticos caíram 30%. Estamos vivendo uma concorrência desleal, cujo gerente de propaganda é o próprio ministro da Saúde. Há outras atitudes do ministério que estão prejudicando o setor. Ele foi comprar medicamentos na Índia, está importando remédios, quando nós todos estamos com capacidade ociosa. É um crime contra o Brasil.

DINHEIRO ? A seu ver, se não há amparo técnico, qual a razão da medida tomada pelo ministro José Serra?
BAPTISTA ? No fundo, é uma bandeira política, eleitoreira. Talvez feita não só pensando na imagem do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas no futuro do próprio ministro Serra. Mas o ministro Serra corre o risco de ver o tiro sair pela culatra. O congelamento pode se voltar contra ele, porque vai ser impossível ele manter esse tipo de coisa. A mentira tem pernas curtas.

DINHEIRO ? A compra de remédios é uma necessidade. Não é preciso garantir o acesso da população a eles?
BAPTISTA ? O Serra está transferindo para a indústria farmacêutica a culpa de tudo. Eu não tenho culpa se não há hospitais, não tenho culpa se os médicos ganham pouco, se não há leitos. O povo não tem remédio porque não tem dinheiro para comprar remédio. Mas o governo tem dinheiro para comprar remédios e dar para o povo. O ministério tem a maior verba do orçamento da República, são vinte e poucos bilhões. Tira 10% deste total, compra remédios e dá para o pobre. Para onde estão indo estes recursos?

DINHEIRO ? O ministro da Fazenda, Pedro Malan, é contra o congelamento. O sr. acha que isso pode mudar as coisas?
BAPTISTA ? Talvez. Sabemos que, se o interlocutor fosse o Malan, nossas idéias seriam diferentes. O Malan é um homem lúcido, despojado, não pretende ser nada, infelizmente. Talvez resolvesse melhor o problema do que muitos destes que pretendem ser alguma coisa. É uma incongruência, Ministério da Saúde querer controlar preços, isso é coisa da área econômica.

DINHEIRO ? O sr. pensa em recorrer à Justiça?
BAPTISTA ? Acredito que o bom-senso há de prevalecer. Considero o presidente da República um homem inteligente, de bom senso. Ele tem sensibilidade e não acredito que deixe esta situação se agravar mais.
DINHEIRO ? Mas o presidente está com a popularidade em baixa e tem outros problemas urgentes.
BAPTISTA ? Atitudes demagógicas influenciam o povo brasileiro, que não tem estudo. Mas, infelizmente, o lado patronal também não se pronuncia, se omite nas grandes questões. Por exemplo: entidades empresariais fizeram um manifesto de apoio ao presidente FHC. O Horácio Piva (presidente da Fiesp) discordou do manifesto. Ele foi contra e falou que é contra. Como a gente vai elogiar tudo se as coisas estão erradas? Temos aí 80 laboratórios que assinaram o acordo. Eles não deveriam assinar. Eles deveriam estar do nosso lado. Por que eles não estão com o Aché? Será que eles estão de corpo e alma com o Ministério da Saúde? Eles podem estar na frente, mas pelas costas estão pensando a mesma coisa que o Aché. Não sei se falta coragem, se falta liderança, se falta uma vida imaculada da empresa, para que possam falar. Mas nós podemos, somos livres.

DINHEIRO ? Do jeito que o sr. fala, parece que todos os laboratórios são justos, não aumentam demasiadamente os preços. Isso não é verdade.
BAPTISTA ? Tem laboratório que aumentou em 67% os preços. Deve-se pegar este e colocar na cadeia, e não congelar o Aché. Se aumentou tudo isso, esse laboratório realmente é um desonesto, um explorador, deve ir para a cadeia. Mas não a Pfizer ser ameaçada com o Viagra, não o Aché ser ameaçado de boicote. Não os outros laboratórios serem congelados. Eles sabem quem erra, devem agir contra quem erra.

DINHEIRO ? Pode-se comparar fabricantes de remédios com, por exemplo, vendedores de carros importados? A responsabilidade social não é diferente?
BAPTISTA ? O Brasil é uma nação democrática, livre, quem produz tem que ganhar, tem que lucrar, tem que reinvestir. Não pode distorcer isso. O Aché ganha dinheiro? Ganha, nós trabalhamos visando lucro. Isso aqui não é uma casa beneficente. Agora, o que nós ganhamos está aqui, em 340 mil metros quadrados de terreno e empregos que damos. E em impostos que se pagam. Uma empresa que fatura R$ 700 milhões tem que ter lucro, lucro de 10% (lucro líquido em 1999 foi de R$ 83,7 milhões).

DINHEIRO ? Quando foi o último aumento do Aché?
BAPTISTA ? Em maio, depois de ficar sem aumentar desde agosto 1999, fizemos um reajuste de 3,5% a 4%. E estão falando em aumentos abusivos. Nós não somos os vilões. Quando investigaram os PAS, viu-se quais eram os vilões. No Ministério da Saúde não acontece o mesmo?

DINHEIRO ? O sr. sabe quais os preços dos remédios do Aché, Combiron Drágeas e Sorine, nas farmácias?
BAPTISTA ? Não, não sei. Preciso ver as planilhas.

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