Entrevista

Um argentino otimista

Um argentino otimista


DINHEIRO ? A economia brasileira tem apresentado altas em alguns indicadores saudáveis. Como o sr. vê o momento brasileiro?
JOSÉ LUIS MACHINEA ? É bárbaro. Quanto melhor vai o Brasil, melhor para a Argentina. Quando seu País cresce e se desenvolve, isso não somente alivia a demanda brasileira sobre a economia argentina, como também fortalece a respeitabilidade da moeda brasileira. Esse jogo é bom para o Brasil e provoca reflexos econômicos positivos para nós.

DINHEIRO ? Muitos acham que o Mercosul está patinando.
MACHINEA
? Sim. No final do ano passado, a sensação que havia era a de que o Mercosul, em lugar de ser uma oportunidade, era uma ameaça. Estamos tratando de recriar a esperança no Mercosul. O que estamos fazendo é dar alguns banhos frios em alguns conflitos comerciais. Tínhamos problemas no setor automotivo, em que não conseguíamos celebrar um acordo. Também no siderúrgico, calçadista, têxtil, papeleiro e outros. Agora, o panorama é diferente. Já temos setores privados negociando acordos com restrições voluntárias. Era o que precisávamos para que nós, do governo, passássemos a cumprir a seguinte regra: deixar de fora dos debates os seis ou sete setores mais traumáticos e avançar nas questões de mais longo prazo, como a eliminação dos incentivos e subsídios às exportações no âmbito do Mercosul. Esses temas de fundo estavam obscurecidos porque simplesmente vivíamos brigando pelas pontas. A sensação de que o Mercosul é um lugar de conflito permanente não desapareceu, mas foi atenuada sensivelmente nos últimos seis meses.

DINHEIRO ? Quem mudou?
MACHINEA
? A Argentina. Antes, tínhamos um presidente preocupado com questões pessoais, que gostava simplesmente de exercer a diplomacia presidencial, enquanto o presidente De la Rúa privilegia mais os temas institucionais. Ele está muito mais preocupado com o desenvolvimento do Mercosul do que com as questões pessoais. Em segundo lugar, a Argentina hoje é um sócio não apenas econômico, mas também político do Brasil, o que não foi o caso nos últimos seis meses do ano passado, quando a Argentina queria entrar na Nato (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Hoje há mais confiança mútua.

DINHEIRO ? Em que isso pode resultar?
MACHINEA ? Há uma intenção do presidente Cardoso e do presidente De la Rúa de montar missões comerciais para irem a outros países conjuntamente. Eles falaram sobre isso na conferência de Buenos Aires. Creio que ainda este ano teremos a primeira missão.

DINHEIRO ? Quais setores poderiam estar nessa missão?
MACHINEA ? O setor de turismo certamente. Do Amazonas à Patagônia, temos regiões que todo o mundo conhece, exemplos de belezas únicas. Poderemos começar por aí. Também os representantes do setor agropecuário, onde nossos dois países têm um grande campo de cooperação, poderão estar. Há muito o que mostrar à União Européia e, inclusive, ao Alca (Acordo de Livre Comércio das Américas).

DINHEIRO ? Houve alguma mudança na intenção argentina de aderir ao Alca?
MACHINEA ? Agora, o prioritário é o Mercosul, mas também trabalhamos no sentido do Alca. As datas de ambos são diferentes. No caso do Alca, o importante vai ser 2005, quando deveremos ter um acordo e um mecanismo de convergência. Nosso objetivo é aderir ao Alca como integrantes do Mercosul, e não sozinhos. Creio que no Brasil existe a mesma idéia. O importante é a entrada no Alca de todo o Mercosul.

DINHEIRO ? O ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, é hoje um dos principais negociadores brasileiros para o Mercosul. Tem sido fácil tratar com ele?
MACHINEA ? Ele é um homem bastante franco. Nas negociações esse é o traço que mais sobressai. Assim como eu, ele tem por objetivo encontrar coincidências e isso tem ajudado a avançar nestes seis meses. Mas é claro que numa mesa de negociação nunca as duas partes conseguem tudo.

DINHEIRO ? A moeda única para o Mercosul é viável?
MACHINEA ? É uma idéia que não me parece má, mas que só poderá acontecer num prazo muito longo. Primeiro temos de aperfeiçoar a união aduaneira e encontrar mecanismos de convergência macroeconômica. Cada um dos países tem esquemas cambiais distintos, o que tem de ser respeitado. A moeda única não está no horizonte dos próximos cinco anos.

DINHEIRO ? Como o sr. encontrou a Argentina ao assumir a Economia?
MACHINEA ? Recebemos um país com vários problemas. Larga recessão, altas taxas de desemprego e uma situação fiscal complicada. Mas acho que já avançamos. Apenas em seus seis primeiros meses, o governo fez mais reformas estruturais que o anterior.

DINHEIRO ? Daqui pareceu que o remédio escolhido foi amargo, principalmente para os trabalhadores e a classe média.
MACHINEA ? Não havia uma saída fácil. Tínhamos de agir com rapidez, sob pena de chegarmos a um ponto insuportável. Escolhemos trabalhar em três frentes. Por um lado, procuramos recuperar a solvência fiscal que a Argentina estava perdendo, dando lugar a um crescimento exagerado da dívida pública. Em segundo lugar, passamos a reformas estruturais para aumentar a eficiência e recuperar a competitividade da economia em médio prazo. Nisso se inscreve a eliminação de um sistema extorsivo de promoção industrial que havia na Argentina, o regime trabalhista, a desregulamentação dos direitos sociais e o envio de uma lei para mudar o sistema social na Argentina. O terceiro tema em que estamos trabalhando é o aumento da competição dentro da Argentina, para melhorar a competitividade e retomar a perspectiva de crescimento.

DINHEIRO ? Com esse processo, muitos estão descontentes, a exemplo dos grandes sindicatos, cujos filiados perderam direitos. Como se dá esse enfrentamento?
MACHINEA ? Há um conflito com alguns sindicatos, mas não com todos. A descentralização da negociação coletiva, por exemplo, favorece os sindicatos regionais, mas os grandes sindicatos nacionais realmente foram afetados. Não obstante, no caso da reforma trabalhista, depois de sucessivos enfrentamentos, já estamos conquistando acordos com alguns deles.

DINHEIRO ? Os efeitos que o sr. esperava já estão sendo notados?
MACHINEA ? A situação da economia argentina tem dificuldades, mas quero destacar que as exportações argentinas vão crescer este ano entre 13% e 14%. Isso foi conseguido porque a economia argentina tem demonstrado muita flexibilidade, tendo sido capaz de reduzir custos e aumentar produtividade de maneira fantástica. Esse já é um reflexo dos nossos estímulos à redução de impostos adicionais, ao fato de termos feito a reforma trabalhista, às negociações descentralizadas com os sindicatos. A economia argentina está mostrando, a despeito de um esquema cambial muito rígido, uma enorme capacidade para adaptar-se. Eu creio que o pior, em relação à possibilidade de ataques do mercado especulativo internacional e a alguma falta de compreensão sobre a natureza das reformas, já passou.

DINHEIRO ? Mas o desemprego está em alta.
MACHINEA ? O índice de maio, de 15%, está um pouco superior ao ano passado. Isso se explica, em parte, pela redução no programa de empregos do setor público e porque houve menos movimento no setor de construção civil. Mas nos próximos meses os reflexos da recuperação econômica serão verificados em mais trabalho.

DINHEIRO ? Mexer na política cambial pode ajudar no resgate do crescimento?
MACHINEA ? A Argentina não quer dolarização nem desvalorização de sua moeda. Vamos manter nossa política de convertibilidade. Essa política não precisa e não vai ser mudada de maneira nenhuma. Estamos crescendo assim e continuaremos assim. A Argentina tem convertibilidade para muitíssimos anos.

DINHEIRO ? Os críticos dizem que a dolarização da economia leva o país a perder autonomia, a depender mais das decisões dos EUA do que de suas próprias. Qual é a sua impressão?
MACHINEA
? Sim. A Argentina entrou num regime de convertibilidade, que não é dolarização, porque sua economia sofreu durante muitas décadas um problema de inflação crônica, duas hiperinflações, teve vários programas antiinflacionários fracassados, viveu muitas incertezas. A única maneira era atar as próprias mãos a essa política monetária, por isso a convertibilidade foi feita. Ela me parece uma política bastante racional, porque do contrário teríamos custos econômicos altíssimos.

DINHEIRO ? Como é participar da globalização da economia estando num canto do mundo?
MACHINEA ? A globalização é uma oportunidade e um risco. Para os países emergentes ela é basicamente uma oportunidade. Para aproveitá-la temos de ser capazes de acertar o nosso passo ao do mundo, adaptar tecnologia e fazer reformas estruturais, mas sem perder de vista a importância de manter a nossa segurança social.

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