Economia

Para onde eles vão levar os acordos globais?

Os principais líderes mundiais enfrentam o desafio de manter tratados multilaterais de comércio em meio à crescente onda protecionista. Nessa disputa, a OMC tenta continuar relevante

Para onde eles vão levar os acordos globais?

Linha de frente: Angel Guirria, secretário da Ocde (1); Angela Merkel, chanceler da Alemanha (2); Christine Lagarde, do FMI (3); Roberto Azevêdo, da OMC (4); Guy Ryder, do Ilo (5); e Jim Young Kim, do Banco Mundial (6) fazem parte dos líderes que lutam contra o avanço da antiglobalização (foto: AP Photo/Markus Schreiber)

No século XVIII, pensadores como o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) e o economista britânico Adam Smith (1723-1790) mostraram que o crescimento do comércio em escala global é considerado um motor que favorece a manutenção da paz ao proporcionar uma maior cooperação entre os países. Essa teoria liberal das relações internacionais se fortaleceu na primeira metade do século XX, quando líderes globais criaram mecanismos para a reconstrução do capitalismo, rachado após a depressão de 1929 e as duas Guerras Mundiais.

É nesse contexto que nasceram as organizações multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial e, posteriormente, o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, que se transformou na Organização Mundial do Comércio (OMC) na década de 90. Mas esse modelo foi posto em xeque com a crescente onda de protecionismo. Uma pesquisa recente realizada pela agência de comunicação Edelman, em 28 países, com 700 pessoas, mostra que um em cada dois entrevistados acredita que acordos de livre comércio prejudicam a criação de empregos e 69% dizem ser necessário priorizar os interesses internos.

“Já estávamos em uma fase em que o multilateralismo enfrentava um período conturbado. Mas, até recentemente, não havia contestação da ordem pró-globalização”, diz Otaviano Canuto, diretor executivo do Banco Mundial para o Brasil. “O perigo da ascensão de discursos nacionalistas é que nem sempre os líderes podem entregar o que prometem, o que é altamente prejudicial à economia.” Nessa disputa que promete implodir uma série de acordos comerciais, a chanceler alemã Angela Merkel e a francesa Christine Lagarde, presidente do FMI, seguram firme a bandeira do multilateralismo frente ao crescimento de nacionalistas como o americano Donald Trump, a francesa Marine Le Pen e o parlamentar britânico Nigel Farage (um dos idealizadores do Brexit).

Recentemente, a chanceler alemã afirmou que “a crise internacional foi superada baseada na cooperação e regras em comum para regular os mercados”. No meio desse embate, a relevância da OMC está sendo posta em xeque. Mais que isso, sua necessidade para o futuro das trocas comerciais. Desde o ano passado, há uma desaceleração do comércio global. Neste ano, as projeções foram revisadas e os dados não são animadores. A expansão caiu de 2,8% para 1,7%. Se confirmado, o valor será menor que o crescimento do PIB mundial, calculado em 2,7% para 2017.

Prestes a assumir seu segundo mandato na OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo terá pela frente um cenário internacional ainda mais adverso do que quando assumiu em 2013. O risco de a OMC encontrar cadeiras vazias em seus encontros tem aumentado. “Não é porque estamos diante de um momento difícil que o multilateralismo perde importância”, diz o diretor-geral. “Ao contrário, a incerteza e os riscos fazem com que a OMC sirva de norte para evitar que a situação se deteriore.”

O fato é que desde a sua criação, a OMC não conseguiu tirar do papel as negociações da chamada Rodada Doha, que visam diminuir as barreiras comerciais em todo o mundo. Se, por um lado, o multilateralismo contribui para que todos tenham a mesma voz, por outro, é difícil encontrar um consenso entre 164 membros. Essa dissolução somada à modificação do comércio com as chamadas cadeias globais (que permitem que um produto seja montado por vários parceiros comerciais) deram espaço para o fortalecimento de acordos bilaterais e regionais. Atualmente, existem 300 acordos de livre comércio no mundo, metade dos tratados comerciais existentes.

Os demais são acordos bilaterais ou regionais, como a Parceria Transpacífico (TPP na sigla em inglês) e o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento. “A OMC não está fadada ao fracasso, mas precisa passar por mudanças para se adaptar à nova configuração do comércio”, diz Lucas Ferraz, economista do Centro de Estudos do Comércio Global e Investimento da FGV. “Uma saída seria focar em acordos plurilaterais, que são válidos apenas entre os signatários.” Pode parecer contraditório, mas a chegada de Trump à Casa Branca pode ser benéfica para a OMC. O novo presidente americano quer bagunçar o tabuleiro do comércio mundial ao romper o TPP.

Tal movimento enfraqueceria os acordos regionais e devolveria o protagonismo ao multilateralismo. Esse seria o cenário ideal para Azevêdo. No final de 2016, ele conquistou uma importante vitória ao angariar muitas adesões ao Acordo de Facilitação do Comércio, que simplifica e desburocratiza procedimentos aduaneiros. Para entrar em vigor, são necessárias 108 assinaturas (faltam apenas quatro). O Brasil, que tem total interesse para ampliar a exportação do agronegócio, subscreveu em março. Cálculos indicam que essas facilitações podem acrescentar US$ 1 trilhão por ano ao comércio mundial.

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