Economia

A economia na era Trump

Donald Trump promete mudanças drásticas no comércio, na indústria e nas políticas monetária, fiscal e externa americana. Para o Brasil, é a chance de repensar suas relações com a maior potência do mundo

A economia na era Trump

A caminho do poder: Donald Trump chega ao capitólio para tomar posse como o 45º presidente dos Estados Unidos (foto: Brendan Smialowski/Afp)

Na manhã da sexta-feira 20, precisamente às 10h49, horário de Washington, Michele Obama deixou a Casa Branca ao lado de Melania Trump. As duas primeiras damas entraram em uma limusine preta, estacionada em frente à residência oficial do presidente dos Estados Unidos. Um minuto depois, os vice-presidentes Joe Biden e Mike Pence deram os mesmo passos, embarcando em um segundo carro. Um terceiro automóvel aguardava Barack Obama e Donald Trump.

Em cinco minutos, o comboio subiu a Pennsylvania Avenue, chegando ao Capitólio, a sede do poder legislativo americano. Do lado de fora, milhares de pessoas protestavam pelas ruas da capital, quebrando vidraças. Era o começo de uma nova era. Ao meio dia, Donald Trump jurou preservar, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos, automaticamente assumindo o posto de comandante da maior economia do mundo. O juramento é o mesmo feito pelos 44 presidentes anteriores.

Primeiros passos: Donald e Melania Trump visitam o Memorial Lincoln, na quinta-feira 19, no início das festividades (Foto: Divulgação)
Primeiros passos: Donald e Melania Trump visitam o Memorial Lincoln, na quinta-feira 19, no início das festividades (Foto: Divulgação)

Mas o que essas palavras significam quando proferidas da boca do showman bilionário segue sendo uma incógnita. “Este será um governo singular”, afirma Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos. Essa é, de fato, a única certeza possível. As consequências da nova ordem mundial sob a batuta de Trump vão muito além das fronteiras dos Estados Unidos. A expectativa é a de que, no mínimo, o novo comandante inicie uma guerra comercial com as maiores potências do mundo.

O protecionismo deve dar o tom nos primeiros momentos do seu governo. Sua promessa eleitoral de gerar milhares de empregos revigorando o chamado “cinturão da ferrugem”, área no centro-oeste americano que concentra um grande número de empregos industriais, mas que hoje se vê à míngua em virtude da exportação da produção para a China e o México, tem potencial para, num primeiro momento, elevar o crescimento do país. Porém, à custa do abandono da lógica globalizante que dominou o mundo democrático nos últimos 25 anos.

Trump prometeu uma série de medidas com grande potencial de desestabilização logo nas suas primeiras horas no gabinete. A mais fácil será revogar o Obamacare, programa de saúde universal criado por seu antecessor, Barack Obama, e substituí-lo por uma solução de mercado. Isso só depende de uma canetada. Obama, por sinal, tem motivos para acreditar que seu legado está em grande risco. Trump não é contra somente a sua política de saúde.

Ex-inimigo: o presidente russo Vladimir Putin espera estreitar as relações com os Estados Unidos (Foto: Divulgação)
Ex-inimigo: o presidente russo Vladimir Putin espera estreitar as relações com os Estados Unidos (Foto: Divulgação)

O novo presidente quer desfazer grandes conquistas do ex-comandante, incluindo o acordo nuclear com o Irã e a Parceria Transpacífico (TPP), tratado comercial entre EUA, Japão e outras dez economias da bacia do Pacífico, que o bilionário considera “um desastre potencial para o país”. Nessa área do livre comércio, ele também pretende renegociar o Nafta, que envolve os vizinhos México e Canadá. Trump ainda afirmou que vai pedir a seu secretário do Tesouro para que classifique a China como “manipuladora de divisas”, mesmo sob o risco de represálias da segunda maior economia do mundo.

Ele garantiu que vai dar início aos trâmites para construir um muro na fronteira com o México e comprometeu-se a deportar imigrantes ilegais com antecedentes criminais. São medidas polêmicas e possivelmente desastrosas para a economia americana. Mas, até o momento, nada indica que ele vai retroceder. “Os americanos vão enfrentar o primeiro ‘junk government’”, afirma o diplomata brasileiro Marcos Troyjo, diretor do BRICLab da Universidade de Columbia, em Nova York, fazendo uma referência à chamada junk food, um dos principais produtos de exportação dos EUA.

“Todo mundo sabe que faz mal à saúde, mas é fácil, rápido e, de certa forma, divertido.” As duas semanas anteriores à posse foram intensas e oferecem um indicativo de como as grandes potências mundiais se comportarão nessa nova realidade. Antes mesmo de assumir, Trump provocou movimentações da Europa, da China e de empresas multinacionais. Na semana que antecedeu a posse, o bilionário ligou sua metralhadora verborrágica e, em entrevistas ao jornal alemão Bild e ao britânico The Times, classificou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) como obsoleta por não enfrentar o terrorismo, condenou a entrada de refugiados na Alemanha e chamou de “erro catastrófico” a política de portas abertas da chanceler Angela Merkel.

Presidente polemista: o bilionário faz um discurso durante almoço com a liderança política em Washington, um dia antes da posse (Foto: Divulgação)
Presidente polemista:
o bilionário faz um discurso durante almoço com a liderança política em Washington, um dia antes da posse (Foto: Divulgação)

A resposta foi imediata. “Nós, europeus, temos o nosso destino em nossas mãos”, afirmou Merkel. O presidente francês, François Hollande, foi mais direto. “A União Europeia não precisa de conselhos externos.” Alguns dias antes, Rex Tillerson, em sua audiência de confirmação para o cargo de secretário de Estado, disse que a China deveria ter o acesso negado às ilhas que construiu no Mar do Sul da China. Foi o suficiente para provocar ultraje e revolta na maior potência asiática, que disputa com outros países o controle da região.

“Tillerson deve fortalecer suas estratégias nucleares se quiser forçar uma grande potência nuclear a se retirar de seus próprios territórios”, afirmou, em editorial, o jornal Global Times, controlado pelo governo. É verdade que a publicação tem como linha editorial as manchetes estapafúrdias e sensacionalistas. Mas não deixa de ser um meio de comunicação estatal que, praticamente, ameaçou declarar uma guerra nuclear se a nova administração americana adotar o posicionamento sugerido pelo secretário de Estado. Assim, o cenário da nova ordem mundial começava a ser traçado.

Essa troca de farpas, na verdade, é a expressão diplomática de um confronto importante que está por vir: uma guerra comercial e fiscal generalizada entre os principais blocos econômicos do mundo. Trump, como é do seu feitio, deu o início, prometendo cortar o imposto de renda corporativo americano de 35% para 15%. A primeira-ministra britânica Theresa May, que, em discurso na terça-feira 17, garantiu ao mundo que o Brexit significa uma ruptura total e irrestrita do Reino Unido com a União Europeia (leia mais na página 30), seguiu a deixa, comprometendo-se a uma redução na alíquota de 20% para 17%.

Canadá, França, Itália e Japão adotaram a mesma linha e, por último, a Alemanha, por intermédio de seu ministro das finanças, Wolfgang Schäuble, disse que pode reduzir o imposto, ainda que seja contrária a uma guerra fiscal entre países industrializados. Essa movimentação preocupa o Fundo Monetário Internacional (FMI). As incertezas sobre as políticas de Trump levaram a entidade e ser cautelosa em suas previsões mais recentes para o crescimento econômico global, que se mantiveram em 3,4%, para 2017, e 3,6%, para 2018. O risco é de um cenário em que os EUA adotem medidas protecionistas, o que pode favorecer o crescimento interno, mas também gerar pressões inflacionárias.

Baixa popularidade: mais de 30 grupos pediram autorização para protestar em Washington durante a posse (Foto: Divulgação)
Baixa popularidade: mais de 30 grupos pediram autorização para protestar em Washington durante a posse (Foto: Divulgação)

Nesse caso, o Federal Reserve, banco central americano, teria de aumentar os juros num ritmo mais elevado, resultando na alta do dólar e no aumento do déficit em conta do país. A consequência seria especialmente ruim para os países emergentes e de baixa renda, incluindo o Brasil. O que está ficando cada vez mais claro é que a lógica, na era Trump, será a do curto prazo. A expectativa é a de que o novo homem mais poderoso do mundo priorize, em suas políticas, as vantagens econômicas ante as estratégias geopolíticas.

“O Trump tem uma agenda antiglobalizante. Ele promete reverter todo o movimento que a gente observou nos últimos 25 anos”, afirma Guilherme Casarões, professor de relações internacionais da faculdade ESPM. E isso já está se refletindo na postura dos líderes globais e das empresas. Tanto que diversas multinacionais estão entrando nesse jogo e anunciando investimentos naquilo que foi a grande plataforma de Trump durante a campanha: a geração de empregos nos Estados Unidos. A primeira foi a Carrier, fabricante de ar condicionado, que desistiu de transferir 800 postos de trabalho para o México.

Farpas trocadas: a Alemanha, da chanceler Angela Merkel, deve entrar na guerra fiscal de Trump (Foto: Divulgação)
Farpas trocadas: a Alemanha, da chanceler Angela Merkel, deve entrar na guerra fiscal de Trump (Foto: Divulgação)

Em seguida veio a Ford. Além de cancelar a construção de uma fábrica no exterior, também no México, a companhia anunciou um plano de investimentos de US$ 700 milhões em sua unidade no Estado de Michigan, com previsão de gerar 700 empregos. A GM, maior montadora americana, vai colocar US$ 1 bilhão em sua operação no país e criar 1,5 mil vagas. A Coreana Hyundai é ainda mais ambiciosa. Vai injetar US$ 3,5 bilhões nos EUA, garantindo “milhares” de empregos, segundo comunicado da empresa. Só das montadoras, Trump assumirá o governo tendo assegurado aportes de US$ 7,7 bilhões.

O movimento inclui, ainda, o maior varejista do mundo, o Walmart, que se comprometeu a abrir 10 mil postos de trabalho, e a indústria da moda. Na primeira semana do ano, Bernard Arnault, controlador da LVMH, maior conglomerado de luxo do mundo, dona de marcas como Louis Vuitton e Dior, esteve com o presidente. Logo depois, a companhia comunicou a intenção de expandir sua produção nos Estados Unidos. Essas empresas estão reagindo, principalmente, às ameaças de Trump de taxar as importações. Na semana passada, ele chegou a intimidar diretamente a alemã BMW, por exemplo, dizendo que iria instituir uma tarifa de 35% para cada carro importado pela montadora.

De saída: Theresa May. primeira-ministra britânica, ratificou o Brexit em discurso (Foto: Divulgação)
De saída: Theresa May. primeira-ministra britânica, ratificou o Brexit em discurso (Foto: Divulgação)

Trata-se de um efeito antecipado da possível guerra fiscal que o novo presidente promete iniciar. No mercado americano, 97% das roupas vendidas são fabricadas em outros países, sendo que 40% vêm do gigante asiático. Paralelamente, existem pressões tecnológicas que forçam uma nova postura por parte das empresas, especialmente na indústria, e que tendem a se acelerar por conta do ambiente instável. “O cenário atual é similar ao dos anos 1970, quando a Guerra Fria e a corrida espacial incentivaram uma série de inovações, resultando em mudanças econômicas e sociais”, afirma Paulo Vicente, professor da Fundação Dom Cabral. “Foram tempos de muitas transformações. Como sempre, alguns ganham, outros perdem.”

De fato, é visível nesses investimentos o foco na automação. Os planos da Ford, por exemplo, são de mudar completamente o perfil de produção da companhia, em direção ao carro elétrico. Já a indústria têxtil aposta na tecnologia para competir com os preços chineses. “É altamente eficiente fabricar roupa aqui, mas muitas pessoas não sabem como”, afirmou Dov Charney, fundador da grife American Apparel. Agora, apesar dessas boas notícias para o trabalhador americano, Trump está longe de desfrutar uma grande popularidade.

Carne de primeira: Wesley Batista, do JBS, espera aumentar as vendas para os Estados Unidos (Foto: Calebe Simoes / Ag. Istoe)
Carne de primeira: Wesley Batista, do JBS, espera aumentar as vendas para os Estados Unidos (Foto: Calebe Simoes / Ag. Istoe)

Segundo pesquisa feita pela rede de TV CNN, ele assume o posto tendo 40% de aprovação, a mais baixa em 40 anos. O último presidente republicano, George W. Bush, tinha 62% no dia da posse, porcentual que já era considerado baixo. Os conflitos de interesse envolvendo seus negócios são amplamente explorados pela mídia, majoritariamente contrária ao bilionário. Sua relação com Vladimir Putin, o mandachuva russo, também não é bem vista.

Na semana retrasada, a CIA, agência de inteligência do país, confirmou a existência de um dossiê contendo informações incriminadoras, de cunho sexual, envolvendo o presidente. O documento teria sido produzido por espiões russos com o intuito de chantagear o comandante americano. A veracidade das informações, no entanto, não foi confirmada. Apesar disso, Trump promete rever as sanções impostas à Rússia em virtude da invasão da Crimeia, na Ucrânia.

DISCUTINDO A RELAÇÃO Nesse tabuleiro de xadrez global, o Brasil pode se ver em uma posição confortável. Porém, terá de repensar sua relação com a maior economia do mundo. Para muitos empresários, o comércio entre os dois países deveria ser muito maior. “É uma oportunidade”, afirma Marco Stefanini, CEO da Stefanini, empresa de tecnologia que possui uma filial em Detroit, que emprega 2,5 mil pessoas. “Mas somos nós que temos de ter a iniciativa.” O Itamaraty já está discutindo os pontos em que Brasil e EUA podem avançar.

transição pacífica: os casais Trump e Obama se encontraram em um café da manhã momentos antes de Trump fazer o juramento e assumir o cargo (Foto: Divulgação)
Transição pacífica: os casais Trump e Obama se encontraram em um café da manhã momentos antes de Trump fazer o juramento e assumir o cargo (Foto: Divulgação)

Em novembro, o presidente Michel Temer conversou, por telefone, com Trump. Ficou acordado que as equipes dos dois países começariam a trabalhar em uma agenda conjunta, a partir de fevereiro. O pragmatismo e a objetividade do novo presidente animam o Palácio do Planalto. As oportunidades não estão somente na área de commodities. Cerca de 60% das exportações brasileiras para o mercado americano são constituídas de produtos industrializados. A balança comercial entre os dois países é quase equilibrada.

Nos primeiros dez meses do ano passado, o déficit era de cerca de US$ 800 milhões, para o lado brasileiro. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do País, atrás apenas da China. As indústrias química e de máquinas estão entre as que mais se destacam. Recentemente, a vigilância sanitária americana liberou a importação de carne in natura do Brasil, o que deve abrir mais uma importante frente de negócios para o empresariado nacional. “Nas operações internacionais, estamos otimistas e confiantes, especialmente no nosso negócio de bovinos nos Estados Unidos”, afirmou Wesley Batista, presidente do frigorífico JBS, durante teleconferência com investidores para divulgação dos resultados.

Iniciativa própria: para Marco Stefanini, uma melhora na relação com os eua depende do Brasil (Foto: Gustavo Luz)
Iniciativa própria: para Marco Stefanini, uma melhora na relação com os eua depende do Brasil (Foto: Gustavo Luz)

Na avaliação de Deborah Vieitas, CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham), no entanto, as empresas brasileiras precisam avançar em alguns pontos para se tornarem competitivas no mercado americano. “No Brasil ainda temos uma baixa produtividade”, diz Vieitas. O risco, para o País, é se ver em meio a esse turbilhão, tendo de lidar com um ambiente instável dentro de casa. Agora, qualquer dúvida da capacidade de Trump de virar o mundo de cabeça para baixo desapareceu diante do que aconteceu no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, semana passada (leia reportagem aqui).

Enquanto o novo comandante do “mundo livre”, timoneiro da nave mãe do capitalismo, ameaçava empresas, coube ao presidente chinês, Xi Jinping, fazer a defesa mais eloquente da economia de mercado. “Devemos dizer não ao protecionismo”, afirmou o líder da antiga nação comunista. “Promovê-lo equivale a se fechar numa sala escura, que parece proteger do vento e da chuva, mas também bloqueia o sol.” Resta ao mundo torcer para que os raios de luz sejam fortes o suficiente para iluminar a Casa Branca.

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